Segurança do São Paulo dá dicas de boxe para jovens debaixo de viaduto

Marcão divide missão de cuidar do elenco tricolor com projeto na periferia

Toni Assis
São Paulo

Durante os treinos e jogos do São Paulo, ele tem a missão de garantir a segurança do elenco tricolor. Mas são nas horas de folga, em uma academia improvisada sob um viaduto no bairro de Perus, periferia da zona norte da capital paulista, que Marcos Roberto Costa dos Santos, 44, conhecido como Marcão, se realiza fazendo o que mais gosta: treinar boxe.

Introvertido, mas atencioso, ele se torna uma das atrações sempre que chega à Academia do Ferreirão. Com 1,86 m de altura e 116 kg, Marcão faz de tudo por ali. Treina os músculos virando pneus de caminhão, dá marretadas nos pneus para exercitar os braços, pula corda e até arrisca umas corridinhas pelo pátio que fica ao lado da academia.

 

“Aqui é tudo simples, improvisado, mas as pessoas se envolvem com o esporte”, diz.

Os garotos vibram mesmo quando ele sobe no ringue para “trocar luvas” com os mais jovens. “À medida que a gente vai treinando, eu vou dando uns toques, orientando. Tem muita gente boa aqui”, afirma.

Logo que chegou à capital paulista vindo da Bahia, Marcão ingressou no mundo do boxe. A agilidade e a pegada forte de direita renderam um título brasileiro e um sul-americano na década de 1990.

Sua carreira ia bem até que uma lesão no ombro o afastou dos ringues. Agora, 20 anos depois, Otávio, seu filho mais velho, o acompanha nos treinos na academia do Ferreirão.

“Foi uma surpresa para mim, pois ele nunca se interessou muito pelo esporte. Agora não quer faltar a nenhum treino e já fala até em subir no ringue para lutar”, conta o pai, envaidecido.

Assim como Marcão, os outros frequentadores têm autonomia para pegar no pesado, mas tudo sob a vigilância do homem forte da academia.

Segurança do São Paulo, Marcão já lutou profissionalmente e hoje ajuda projeto social de boxe
Segurança do São Paulo, Marcão já lutou profissionalmente e hoje ajuda projeto social de boxe - Adriano Vizoni/Folhapress

​Ferreirão, ou João Ferreira, 64, é um abnegado. Ex-lutador de boxe e aposentado, ele aproveitou o espaço para fazer do esporte uma forma de inclusão para jovens que têm poucas oportunidades.

A academia funciona às segundas, quartas e sextas, com treinos pela manhã, das 7h às 9h e também no final da tarde, das 17h30 às 21h30.

Sem cobrar nada dos participantes, ele já tirou dinheiro do bolso para comprar material esportivo. Colaboradores do bairro também contribuem da maneira que podem para manter vivo o projeto.

“Às vezes conseguimos mantimentos e procuramos dar às famílias dos meninos que precisam. Nosso objetivo é ter sempre esse espaço cheio para ver os meninos lutando e mantendo a forma”, diz Ferreirão, que há 19 anos mantém a academia sob o viaduto.

Marcão também ajuda como pode. “Às vezes eu pego uma camisa autografada do São Paulo. Daí eles fazem uma rifa e arrecadam dinheiro para ajudar a comprar material esportivo”, conta.

Na semana passada, o chefe de segurança são-paulino levou alguns brinquedos para presentear os meninos que participam dos treinos.

“Sempre que eu posso, eu trago alguma coisa. A gente dá um carrinho para o menino que não falta aos treinos, que vai bem na escola. É uma forma de incentivar essa garotada, que tem poucas opções”, afirma o segurança.

O segurança Marcão conversa com os jovens que frequentam a academia no ringue antes de iniciar o treinamento
O segurança Marcão conversa com os jovens que frequentam a academia no ringue antes de iniciar o treinamento - Adriano Vizoni/Folhapress

A academia não é reservada apenas ao público masculino. Fabiana Pereira, 36, concilia emprego e faculdade com seus treinos. Moradora do Jaraguá (bairro próximo do local), ela sempre se interessou por lutas e diz que se encontrou no esporte treinando sob a supervisão de Ferreirão.

“Aqui é academia raiz. Não tem frescura, é tudo no pesado e o ambiente é muito bom”, afirmou a funcionária pública.

Além da paixão pelo esporte, o medo da violência fez Fabiana se dedicar mais ao boxe.
“Sempre convivi em lugares perigosos. Então a gente pensa na defesa pessoal. Recentemente fui assaltada, mas graças ao boxe tive a tranquilidade de não reagir”, conta.

Apesar de o boxe ser o tema central das conversas no local, quando Marcão está por perto o futebol acaba vindo à tona. Os jovens não perdem a chance de saber mais sobre a rotina do segurança são-paulino.

“Eles ficam querendo saber como é o jogador tal. Se eu assisto aos jogos do São Paulo no campo. Como é o meu trabalho. É muito bacana. E não é só são-paulino que vem conversar, tem muito corintiano que vem falar comigo também”, diz Marcão.

 
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