Descrição de chapéu Tóquio 2020

Velocistas brasileiros vão da falta de sapatilhas ao título mundial

Atletas do revezamento superaram cenário adverso por medalha de ouro no Japão

Daniel E. de Castro
São Paulo

Além do bastão, que passa de mão em mão durante as provas, os corredores brasileiros campeões mundiais do revezamento 4 x 100 m compartilham o gosto pelo futebol, que quase tirou alguns deles do atletismo, e as dificuldades enfrentadas no início de suas carreiras.

No último domingo (12), Paulo André, Rodrigo Nascimento, Derick Silva e Jorge Vides venceram o Mundial de revezamentos em Yokohama, no Japão, após superarem americanos e britânicos numa disputa acirrada. Vitor Hugo Mourão também integrou o time, como reserva.

Jorge, Derick e Vitor Hugo foram revelados no mesmo projeto de atletismo, na escola municipal Silveira Sampaio, em Curicica (zona oeste do Rio de Janeiro). Na época, sapatilhas apropriadas para corrida eram objetos de luxo.

“Eu não tinha tênis, pegava emprestado. Às vezes, meu colega treinava de manhã e eu pegava o tênis com ele para treinar à tarde. Sapatilha o professor levava dentro de uma caixa para a competição. A gente pegava a que servia, usava na prova e depois deixava dentro da caixa para outra pessoa usar”, conta Jorge, 26.

Mais velho da turma, ele começou tarde no esporte. Aos 17 anos, quando se preparava para fazer um teste no futebol do Fluminense, sua irmã o inscreveu, sem que ele soubesse, numa competição escolar de atletismo. Do salto em altura, o carioca de 1,92 m migrou para as corridas.

“Minha mãe dizia que eu não daria certo no futebol por ser muito alto”, ele relembra.

Já nas pistas, a mãe de Vides foi sua maior incentivadora. Principalmente quando, logo no começo da trajetória, o atleta perdeu dois familiares num espaço curto de tempo: o irmão mais novo, após uma infecção no coração, e a avó.

“Isso me abalou muito. Pensei em parar o esporte, mas minha mãe conversou comigo e disse que não era isso que ele [irmão] iria querer para mim”. Tive o incentivo da família para vencer por ele e por minha avó, afirma.

Derick Silva, 21, também trocou a bola pelas pistas. Mas a chuteira que ele usava para jogar futsal continuou sendo útil, pelo menos enquanto não podia comprar uma sapatilha apropriada e treinava sobre um piso de concreto.

Quando mais novo, Derick chegou a duvidar que pudesse ganhar a vida no esporte e por vezes deixou os treinos de lado para soltar pipa e brincar de bolinha de gude. Hoje, ele comemora ter alcançado seu principal objetivo: “Consegui tirar minha mãe do trabalho e mantenho sozinho uma casa no Rio para ela e minha irmã”.

Dar uma vida melhor para a família também foi o combustível de Vitor Hugo Mourão, 23. “Um dia, minha mãe falou que só tinha arroz e feijão para comer, e ali caiu a ficha que minha maior vontade era fazê-la feliz”, diz.

Time brasileiro comemora título no Mundial de revezamentos
Time brasileiro comemora título no Mundial de revezamentos - Kyodo - 12.mai.19/Reuters

Natural de Itajaí (SC), Rodrigo Nascimento, 24, tentava se enveredar pelo mundo do futebol quando foi descoberto por um professor da escola. Na época, ele tinha jornada tripla: estudava de manhã, trabalhava como office boy à tarde e treinava à noite.

O professor, então, propôs pagar a ele uma bolsa do mesmo valor que recebia no trabalho. Assim, Rodrigo poderia largar as pedaladas debaixo do sol durante as tardes e teria tempo para descansar.

A pista em que ele treinava, de material sintético, era adequada, mas o mesmo não se podia dizer sobre o seu calçado. O único jeito era usar sapatilhas de segunda mão. “Eu falava, se rasgou dá para mim que eu uso. Passava uma fita e usava, não tinha essas palhaçadas não”, ele recorda.

Aos 20 anos, Paulo André é o principal destaque individual entre os velocistas do país. Ele já correu os 100 m em 10s02, tempo que o aproximou do recorde nacional e sul-americano, de 10 segundos cravados, obtido por Robson Caetano em 1988.

Filho do ex-corredor Carlos Camilo, o jovem atleta não passou pelas mesmas dificuldades dos companheiros de revezamento, mas isso não significa que os bons resultados tenham vindo facilmente.

Até 2016, Paulo André treinava em uma pista de terra em Vila Velha (ES). Foi só naquele ano que seu local de treinamento passou a ser uma pista sintética de alto padrão construída na Universidade Federal do Espírito Santo.

Na adolescência, para participar de competições em São Paulo, ele encarava 16 horas de ônibus em poltronas que mal acomodavam suas pernas.

Se hoje Paulo André está cada vez mais perto de derrubar a marca dos 10 segundos e o revezamento tornou-se candidato a medalha nos Jogos de Tóquio-2020 (poderá repetir os feitos de 1996, 2000 e 2008), é porque o atletismo brasileiro tem a mais rápida geração de velocistas da sua história.

Pela primeira vez, cinco atletas do país são capazes de correr os 100 m abaixo de 10s14.

A partir da esquerda, Jorge Vides, Paulo André, Rodrigo Nascimento e Derick Silva
A partir da esquerda, Jorge Vides, Paulo André, Rodrigo Nascimento e Derick Silva - Eduardo Knapp/Folhapress

Para Paulo André, porém, a melhor geração convive com a pior fase financeira e de gestão da modalidade no país. No início de 2018, a B3 (ex-BM&F Bovespa), então principal equipe nacional, fechou as portas, deixando dezenas de atletas e treinadores sem salários e local para treinar.

Dos cinco integrantes do revezamento campeão mundial, dois estão sem clube atualmente. Vitor Hugo e Rodrigo treinam no Núcleo de Alto Rendimento Esportivo, na zona sul de São Paulo, mas não recebem salários.

Eles conseguem se manter com o dinheiro que ganham de dois programas do governo federal: a Bolsa Atleta e o de esportistas de alto rendimento das Forças Armadas.

“Comecei no atletismo me inspirando em velocistas que poderiam estar aí e pararam por conta disso [falta de condições]. Não é de agora, vem lá de trás, por falta de verba e incentivo”, afirma Paulo André, sem a certeza de que a sua geração conseguirá inspirar as próximas. “E a base, como vai vir? Como eles vão dar esse tiro no escuro?”, questiona.

Em setembro, os campeões tentarão se manter no topo no Mundial geral de atletismo, em Doha. Esse evento é mais relevante que a competição específica de revezamento e provavelmente exigirá uma marca mais baixa que os 38s05 registrados no Japão.

O técnico da equipe, Felipe de Siqueira, 32, atribui o bom resultado em Yokohama ao tempo de preparação da equipe. Os brasileiros não são os corredores mais rápidos do mundo, mas no revezamento só velocidade não basta.

“Uma coisa que eu consegui fazer neste ano foi reunir esses cinco atletas por um mês antes do Mundial. Trabalhamos exercícios de posicionamento da mão, como estender o braço na hora da passagem, e no decorrer dos dias conseguimos fazer isso de forma mais segura e mais rápida”, explica Siqueira.

Em Doha, a equipe terá um sexto elemento, mas ainda não há definição de quem serão titulares e reservas. “Não necessariamente os quatro mais rápidos vão correr. Analisamos quem passa mais segurança para o grupo, e isso passa muito pelo relacionamento do dia a dia”, diz o treinador.

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