Doping de Maradona comove e desperta teorias conspiratórias após 25 anos

Copa do Mundo nos Estados Unidos, em 1994, foi a última do jogador argentino

Alex Sabino
São Paulo

Diego Maradona, então com 33 anos, olhou ao redor, se virou para Fernando Signorini, seu preparador físico pessoal, e reclamou:

"Para onde você me trouxe, seu filho da puta?"

Era a estância El Marito, próxima a Oriente, na província de Buenos Aires. Com quartos simples, um banheiro que tinha água para três duchas quentes por dia e televisão que sintonizava apenas um canal de imagens chuviscadas, foi ali que Maradona iniciou a luta que parecia impossível: entrar em forma para disputar a Copa do Mundo de 1994

Maradona comemora seu gol contra a Grécia em 1994, o último que marcaria em uma Copa do Mundo
Maradona comemora seu gol contra a Grécia em 1994, o último que marcaria em uma Copa do Mundo - Brian Snyder-30.jun.94/Reuters

O esforço feito para obter um resultado histórico acabou no doping por efedrina, divulgado em 28 de junho daquele ano. O caso completa 25 anos na próxima sexta. Mesma data em que a seleção argentina entra em campo para enfrentar a Venezuela, pelas quartas de final da Copa América.

"Diego me pediu ajuda três vezes. Nas duas primeiras recusei porque achei que encontraria mais problemas do que soluções. Era ir por um caminho que já havíamos percorrido antes. Ele me convenceu ao dizer estar desesperado para jogar o Mundial porque seria a última chance para Dalma e Giannina [filhas do jogador] o verem em campo em uma Copa do Mundo", relembra Signorini à Folha.

Dar esse gosto às meninas era só metade da história. Cheio de dores pelo corpo, incapaz de esforços físicos e fora de forma, Maradona tomou a decisão de retornar à seleção ao assistir, no estádio Monumental de Nuñez, a goleada sofrida por 5 a 0 contra a Colômbia, pelas Eliminatórias. Era 5 de setembro de 1993.

"Vou voltar para jogar o Mundial", ele disse à sua então mulher Claudia Villafañe, segundo os jornalistas Andrés Burgo e Alejandro Wall no livro "El último Maradona - cuando a Diego le cortaran las piernas" (O último Maradona - quando cortaram as pernas de Diego, em espanhol).

Com o armador pesando 75 quilos, o mesmo que na Copa de 1986, disputada oito anos antes, a Argentina virou favorita quando começou a competição nos Estados Unidos. Goleou a Grécia por 4 a 0 na estreia e derrotou a Nigéria de virada por 2 a 1. A comemoração raivosa do camisa 10 ao fazer seu gol contra os gregos, o grito diante da câmera e os olhos esbugalhados se tornaram uma das imagens mais marcantes da história dos mundiais.

"Eu tinha certeza que íamos chegar. Chegaríamos ao título. Quando tiraram Diego da nossa equipe, tudo mudou", constata o técnico Alfio Basile.

Signorini passou quase um mês ao lado de Maradona, o pai do jogador, Claudia e as filhas na estância El Marito. Havia a presença também de um médico designado pela AFA (Associação de Futebol Argentino) e outro nome que se tornou conhecido por causa do doping no ano seguinte: Daniel Cerrini.

"Era uma pessoa que não tinha o conhecimento necessário para estar ali, mas era amigo de Diego. Não teve o profissionalismo necessário para consultar o médico da seleção argentina ou o protocolo da Fifa sobre doping. Eu não o conhecia porque havia me distanciado de Diego. Muito depois soube que ele era treinador de fisiculturismo e atletas dele foram apanhados no doping em um evento em São Paulo", relembra o preparador físico.

Signorini afirma que Cerrini, então com 25 anos, dono de uma academia em Belgrano, bairro de Buenos Aires, foi apresentado a Maradona por seu agente Guillermo Coppola. No livro de Burgo e Wall, a versão apresentada é que Claudia Villafañe o recomendou ao marido por indicação da mulher do goleiro Sergio Goycoechea.

O fisiculturista começou a atuar como consultor de Diego em alimentação. Também lhe dava suplementos e comprimidos que ele tomava cinco vezes por dia. O que se descobriu depois é que um deles se chamava Ripped Fuel e continha efedrina. Era vendido livremente, sem necessidade de receita. Seu quarto no hotel onde estava a concentração da Argentina em Boston parecia uma farmácia.

"Ele foi descuidado, mas eu também fui", reconheceu Maradona meses depois.

A AFA mostrou o mesmo desleixo. Para satisfazer a vontade do seu astro, aceitou incluir Cerrini na delegação que embarcou para os EUA. O fisiculturista não tinha qualquer experiência anterior no futebol. Era apenas fã de Maradona e dono de uma academia. Ninguém sequer questionava o que ele estava dando para o jogador tomar e se poderia ser doping.

Julio Grondona, presidente da Associação de 1979 a 2014, quando morreu, suspeitava que sim. Fez contatos políticos na Fifa e a repescagem contra a Austrália, na volta do atleta à seleção, não teve testes antidoping. Das tribunas do Foxboro Stadium, após a vitória sobre a Nigéria, ele viu que o principal nome da sua seleção era levado para recolher urina.

"Agora só nos resta rezar", disse.

​Signorini sabe que Maradona foi descuidado. Tem certeza que a AFA e os médicos poderiam ter feito mais para protegê-lo de Cerrini. Mesmo assim, o amigo de Diego há décadas, preparador físico da seleção em duas Copas do Mundo e levado aos Estados Unidos para também estar ao lado do jogador, confessa amargura 25 anos depois. 

Nas semanas que passou com o atleta, isolado de todos, sem contato com o mundo exterior e sem acesso a drogas, ele viu Maradona sofrer crises de abstinência. 

"Todo viciado que não tem a droga sente muita vontade de tê-la. Ele tinha a necessidade da cocaína, mas não havia. O assombroso foi ver o poder de decisão que tinha quando queria chegar a um objetivo", afirma.

Um dos efeitos da efedrina é estimular o sistema nervoso central. Acelera a perda de gordura e diminui o cansaço físico.

Maradona foi suspenso pela Fifa por 15 meses. Testemunhas do caso na seleção argentina têm ainda hoje sentimento de injustiça. Lembram que em 1986 o volante espanhol Calderé foi flagrado no doping também por efedrina. Foi afastado por apenas uma partida e pôde continuar na Copa. 

Calderé recebeu pena leve porque o médico da Espanha assumiu o erro por não ter preenchido documento avisando que o jogador consumia medicamento que continha a substância. O chefe médico da AFA, Ernesto Ugalde, se negou a fazer o mesmo. Maradona também era reincidente. Havia testado positivo para cocaína em uma partida contra o Bari em 1991, quando era jogador do Napoli (ITA).

Nenhum caso na história da Copa do Mundo causou tantas teorias conspiratórias. O camisa 10 teria sido afastado do torneio pelo governo dos Estados Unidos, pela CIA, pela Fifa ou até mesmo pela própria AFA. Uma das "provas" apresentadas foi ele ter sido o único jogador retirado de campo acompanhado por uma enfermeira.

A verdade é que todos os sorteados para teste antidoping naquele Mundial foram acompanhados por enfermeiras. Mas isso costumava acontecer na beira do gramado. Sue Carpenter entrou no campo por sugestão de integrante da comissão técnica da própria seleção sul-americana. Ela havia sido casada com um argentino, arranhava o idioma espanhol e disse que seu ex-marido morava no bairro de Congresso, em Buenos Aires.

"Vá lá para encontrar Diego, então. Assim você vai aparecer em todas as imagens da TV", lhe recomendou o médico.

O doping de Maradona colocou também Julio Grondona em uma encruzilhada. Ele poderia ser fiel ao jogador que, com o título de 1986, fez crescer o seu poder na Fifa. Ou poderia pensar de forma política, retirá-lo de forma voluntária da seleção e agradar aos dirigentes da entidade máxima do futebol (entre eles o brasileiro João Havelange), que queriam encerrar o caso o mais rápido possível.

Grondona escolheu a política. Com a eleição de Joseph Blatter para a presidência da Fifa, em 1998, se tornou um dos dirigentes mais poderosos do futebol mundial.

"Não quero dramatizar, mas creio que me cortaram as pernas. Cortaram as minhas pernas, da minha família, das pessoas que estavam comigo. Me tiraram o sonho e creio que me tiraram do futebol definitivamente. Estou destroçado", confessou Maradona naquela noite de 28 de junho, quando veio à tona que havia testado positivo para efedrina.

Sem ele, a Argentina jogou mais duas vezes nos EUA e perdeu ambas. Foi derrotada pela Bulgária e caiu nas oitavas de final diante da Romênia. Pessoas próximas ficaram com receio de que Diego pudesse se matar. Para distraí-lo, Claudia fez com que toda a família fosse para a Disney.

Quando deixavam o hotel em Boston, no final de tudo, Signorini lembra estar no banco da frente do carro. Maradona e a mulher estavam abraçados atrás.

"Calma, Diego. Não vejo porque este deva ser sua última Copa do Mundo. Em 1998 você terá 37 anos. Por que não poderia jogar?"

O preparador físico lembra que o olhar do jogador se acendeu.

"Acha mesmo?"

"Claro que sim. Você pode."

Diego Maradona fez a última partida como profissional pelo Boca Juniors, seu time do coração, em outubro de 1997.

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