Descrição de chapéu Copa América

Em 1989, Maradona mostrou no Brasil sua primeira versão decadente

Mesmo lesionado e cansado, meia era a principal atração da Copa América

São Paulo

Diego Maradona, o maior jogador do mundo na época, olhou para os lados e comentou com o irmão Hugo, que o acompanhava. "Parece até que está chegando o papa."

Não era o sumo pontífice quem chegava ao Castro's Park Hotel, em Goiânia. A cesta de frutas tropicais na recepção, o batalhão de fotógrafos, os 23 homens do regimento da polícia montada, as três motocicletas da Polícia Militar, os dois carros da Polícia Federal e os 12 seguranças do próprio hotel eram para ele, Diego Maradona.

Fora de forma, contundido e já na fase descendente da carreira, o camisa 10 desembarcava naquele 30 de junho de 1989 para se juntar à seleção argentina que disputaria a Copa América no Brasil. Seria a última participação de sua carreira no torneio em que, tal qual Pelé, não foi campeão.

"Como sempre, todos queriam saber de Diego. Não dos outros jogadores. Mas não era nada de novo. Ele era o astro do show e com razão", diz o hoje técnico Julio Cesar Falcioni, terceiro goleiro da seleção naquela Copa América.

Maradona causou o mesmo frisson que seu compatriota Messi deve provocar com a Argentina na Copa América deste ano, no Brasil. A estreia contra a Colômbia, na Fonte Nova, em 15 de junho, é uma das quatro partidas do torneio com ingressos esgotados.

A diferença entre os dois é o passado com a seleção. Messi chega a Salvador na próxima semana depois do fracasso na Copa de 2018. Com mau futebol, caiu nas oitavas de final. O Maradona que viajou a Goiânia há 30 anos era o capitão da seleção campeã do mundo.

Ele tentou dar um aspecto de normalidade à sua presença com os demais comandados de Carlos Bilardo. Recusou a oferta da suíte presidencial feita pela gerência do hotel. Preferiu o quarto 103, mas foi o único a não dividi-lo com colegas. Para evitar tumulto, fazia as refeições na habitação, mas gostava de sair e andar até a praça na esquina.

"Ele ia até lá sozinho e ficava sentado, sossegado. Com os outros hóspedes e os funcionários, ele era bem tranquilo", diz o diretor do hotel, Olavo de Castro Araújo, na época empregado da administração.

Maradona deu algum trabalho para os 12 funcionários destacados para atendê-lo. Logo na primeira noite, funcionários da recepção notaram que havia uma goteira no lobby. O jogador havia enchido a banheira para tomar banho e se jogou. A água transbordou e provocou um vazamento.

Sua condição física problemática podia ser creditada também às preferências gastronômicas. Ele sempre queria pizza, e com muito alho.

"No contato que tivemos, o Maradona foi muito simpático, conversou com os garotos. Não foi nada mascarado", lembra o lateral Wilson Goiano, que jogou por Goiás e Botafogo. Chamado apenas de Wilson na época, ele fez parte do elenco sub-20 do Goiás que enfrentou a Argentina em um jogo-treino em Goiânia.

Maradona, assim como seus companheiros, encarou como simples treinamento. Mas os argentinos se incomodaram quando a torcida, que lotava as arquibancadas, começou a gritar "olé" para o toque de bola dos meninos da casa.

A gota d'água foi quando o volante Ademir deu um chapéu em Diego no meio de campo. O camisa 10 colocou a mão na cintura e fez um sinal para os zagueiros Brown e Ruggeri.

"O chapéu foi um gol contra nosso, porque eles começaram a descer o pau. Aquele Batista [volante], o Brown... Começaram a bater sem dó. Chegavam arrepiando em todas as bolas", recorda o ex-lateral.

A Argentina venceu por 3 a 0. Maradona fez um gol de falta que, segundo Wilson Goiano, foi "coisa de outro mundo."

"Ele deu de três dedos na bola de um jeito que até hoje eu não sei como conseguiu."

Maradona, visivelmente fora de forma, em ação contra o Chile em Goiânia
Maradona, visivelmente fora de forma, em ação contra o Chile em Goiânia - Jorge Araújo - 02.jul.1989/Folhapress

Cansado, após disputar 57 partidas na temporada europeia, Maradona atuou lesionado na Copa América. Ele sentia dores no joelho esquerdo e já havia tido problemas físicos nos meses anteriores.

Aceitou a convocação fiel ao seu discurso de que o chamado da seleção não se recusa, mas via o torneio como preparação para a Copa do Mundo do ano seguinte, na Itália. Também recebia US$ 25 mil (cerca de R$ 97 mil em valores atuais) cada vez que atuava pela equipe nacional.

"A Copa América não passa de uma preparação para o Mundial. Os juízes são ruins, querem aparecer mais que os jogadores e o campo não está bom. Desejamos atingir o auge na Itália, não aqui", disse.

Messi não pode se dar ao luxo de pensar igual. A próxima Copa do Mundo acontecerá só em 2022. Ele ainda tenta vencer o primeiro título de expressão com a seleção.

As atuações das arbitragens fizeram com que Maradona perdesse a paciência no decorrer do torneio. No último minuto do empate com o Equador, no Serra Dourada, o árbitro Arnaldo César Coelho parou a partida apenas para ordenar que o camisa 10 levantasse as meias, arriadas desde o início do segundo tempo.

A atenção da imprensa também o tirou do sério. Em uma tarde de folga em que saiu para fazer compras em Goiânia com a mulher Claudia Villafane, xingou fotógrafos que o perseguiam. Depois de um treino, tentou quebrar a câmera de um cinegrafista que insistia em filmá-lo mesmo após pedido para que parasse.

Poderia ter se irritado também com o volante chileno Hector Puebla, encarregado de marcá-lo na estreia das duas seleções. Maradona foi vaiado pelo público no Serra Dourada e pouco fez em campo.

"A ordem que Orlando [Aravena, técnico do Chile] me deu foi para acompanhá-lo em todos os lugares. Se ele fosse ao banheiro, eu ia junto. Eu queria muito trocar camisa com Diego, mas estava com receio. Ele aceitou numa boa. Tenho ela até hoje", conta Puebla.

A Argentina foi para o quadrangular final com Brasil, Paraguai e Uruguai. Avançou mesmo sem apresentar bom futebol. Maradona viveu de um lance aqui e outro acolá. Alguns espetaculares.

Na estreia contra o Chile, deu dois dribles seguidos em Puebla sem tocar na bola. Quase fez um gol do meio de campo nos uruguaios, no Maracanã. Acertou o travessão.

Por ser Maradona, tinha privilégios. Algo que ia além de ficar sozinho no quarto. Na noite anterior à partida contra o Brasil, ele saiu do hotel sem avisar ninguém. Foi ao local onde estava hospedada a seleção de Sebastião Lazaroni.

"A gente se conhecia do futebol italiano e sempre tivemos boa relação. Para Diego, esse tipo de encontro, mesmo antes de uma partida decisiva, era natural", lembra Renato Gaúcho, na época atacante da Roma e reserva do Brasil.

Maradona jantou com Renato, Alemão (seu colega de Napoli) e Dunga (na época da Fiorentina). Quando a bola rolou, o Brasil venceu por 2 a 0.

A Argentina também perdeu para o Uruguai e empatou com o Paraguai na fase final. Três partidas sem fazer gols.

Maradona ainda ficou no Rio alguns dias de férias. Quando saía do hotel para voltar a Buenos Aires, foi abordado por uma pessoa que se identificava como assessor político. Entregou-lhe um adesivo. Disse que era de um candidato a presidente. Maradona olhou o que estava escrito no papel: Collor, com as letras l em verde e amarelo. "Gracias", respondeu, antes de jogar o adesivo no lixo e ir embora.

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