Descrição de chapéu Copa do Mundo Feminina

Pioneira no futebol, árbitra bateu de frente com Havelange para apitar

Léa Campos abriu caminho para mulheres em época de proibição da modalidade para elas

Isabella Menon
São Paulo

Com uma bola de meia feita pelo pai e apenas seis anos de idade, Asaléa de Campos Fornero Medina chegava à escola querendo jogar futebol. "Mas os meninos não queriam brincar comigo", diz.

Na adolescência, Asaléa, conhecida como Léa, venceu diversos concursos de beleza em Belo Horizonte, cidade onde cresceu. Foi Rainha do Carnaval, Rainha do Exército e Rainha do Cruzeiro Esporte Clube. Não foi com os concursos, porém, que fez história.

A ex-árbitra Lea Campos, que foi presa cerca de 15 vezes durante a proibição do futebol feminino no Brasil
A ex-árbitra Lea Campos, que foi presa cerca de 15 vezes durante a proibição do futebol feminino no Brasil - Reprodução/Facebook

Hoje, aos 74 anos, ela é conhecida por ter sido a primeira árbitra de futebol feminino profissional no mundo –feito registrado numa época em que o esporte era proibido para as mulheres no Brasil.

Isso porque, de 1941 a 1983, uma lei instituída pelo então presidente Getúlio Vargas censurava modalidades desportivas consideradas violentas para as mulheres, como futebol, polo aquático e rúgbi.

Isso não deteve Léa, que passou a se interessar ainda mais por futebol quando ingressou num curso de arbitragem na Escola de Juízes da Federação Mineira de Futebol. A matrícula, aliás, foi feita por seu namorado da época, um fanático por futebol que não aguentava mais assistir às partidas com a amada ao seu lado perguntando sobre cada passe. "Eu não entendia bulhufas", conta aos risos a ex-árbitra.

Após oito meses de aulas, todos os colegas receberam o diploma, menos Léa. A CBD (Confederação Brasileira de Desportos e atual CBF) tinha barrado a liberação do documento pelo fato de ela ser uma mulher.

Sem o certificado, não poderia apitar em jogos. Por isso, foi atrás do presidente da CBD na época, João Havelange, para informar que encontrara um jeito de driblar a lei.

O artigo declarava que "às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza". Léa, porém, justifica que sua brecha estava no fato de não querer jogar, mas comandar partidas. "Não quero ser parte da orquestra, quero ser o maestro", dizia.

A reação de Havelange foi perguntar como a futura árbitra faria para entrar em campo nos dias que estivesse menstruada. Ela respondeu que nadar menstruada era muito pior que correr atrás de 22 jogadores –o presidente fora nadador, representou o Brasil durante a Olimpíada de 1936 e convivia com nadadoras. Ao ouvir isso, ele disse "enquanto eu for presidente, mulher não apita, porque eu não quero".

Não foi fácil ter o certificado de conclusão do curso em mãos. De 1967 a 1971, ela seguiu em uma batalha para poder trabalhar com futebol.

Durante esse período, calcula ter sido presa cerca de 15 vezes. "Juntava umas amigas e arranjava um campinho para elas jogarem e eu apitar", diz. Nessas ocasiões, era comum que a polícia chegasse e, quando isso acontecia, ela mandava as colegas correrem e se entregava para as autoridades.

A mineira explica que suas prisões não tinham relação direta com a ditadura militar. "Era porque eu estava desrespeitando a Constituição".

As detenções não duravam muito, e ela nunca teve que dormir em penitenciária ou pagar fiança. "Era só o tempo de ligarem para o meu pai e ele ir me buscar". O pai, no início, se zangava, mas depois se acostumou. Até com o delegado ela fez amizade, e ele nem se dava ao trabalho de abrir uma ficha contra ela.

Em 1971, Léa recebeu convite para apitar um torneio amistoso e o Mundial de futebol feminino no México. Por isso, teve que correr para conquistar o diploma do curso de árbitra. Por ter sido escolhida "Rainha do Exército", ela pediu ajuda para um dos colegas da época e foi atrás do então presidente, Emílio Médici. Conseguiu que ele a chamasse para almoçar em Brasília.

Foi só nesse encontro que ela recebeu uma carta escrita por Médici, que pedia ao presidente da CBD liberar sua ida ao México. "O que é da onça, o lobo não come", diz ela.

Léa Campos com o uniforme da Federação Mineira de Futebol, na década de 1960
Léa Campos com o uniforme da Federação Mineira de Futebol, na década de 1960 - Reprodução/Facebook

Sua carreira, que começava ali, terminaria de forma dolorosa e precoce. Três anos depois, em 1974, Léa sofreu um acidente dentro de um ônibus. A tragédia fez com que ela quase perdesse a perna e fosse submetida a 102 cirurgias.

"Meus sonhos morreram quando sofri esse acidente", diz ela, que desde os anos 1990 vive em Nova York com o marido. "Vejo que muitas meninas estão arbitrando, e isso me traz muita alegria, porque sei que abri uma porta".

Sobre a disparidade financeira entre o futebol masculino e feminino, ela diz que as mulheres devem buscar o próprio espaço dentro do esporte. "Igual aos homens, nós nunca seremos", afirma.

Seu desejo é que o time formado pelas brasileiras, que estreará na Copa do Mundo no próximo domingo (9), seja temido pelas adversárias. "A seleção masculina do Brasil, por exemplo, está uma merda, mas todo mundo tem medo."

O fato de as atletas jogarem em países que seguem calendários diferentes, para Léa, é um grande problema.

"Elas são liberadas apenas por 15 dias. Isso é muito pouco para o entrosamento do time. É como abrir uma loja sem ter nada para vender."

Ainda em relação às dificuldades enfrentadas pelas mulheres no futebol, ela diz que a mídia tem uma parcela de culpa. "Não adianta falar sobre o futebol feminino só na época de Copa do Mundo e Olimpíada. Tem que ter um trabalho contínuo sobre isso".

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