Descrição de chapéu Tóquio 2020

Quase cego de um olho, brasileiro adia cirurgia por sonho no taekwondo

Vice-campeão mundial, Icaro Miguel reaprendeu a lutar após perda severa de visão

Daniel E. de Castro
São Paulo

Um acidente doméstico sofrido quando era criança comprometeu de forma significativa a visão de Icaro Miguel Martins Soares, 24, mas não impediu o mineiro de ser um atleta de ponta no taekwondo. Em maio, ele conseguiu seu maior feito na carreira até agora, ao ser vice-campeão mundial na Inglaterra.

Quando tinha seis anos, o garoto nascido em Betim ficou com os olhos vermelhos após passar muito tempo na piscina. Para aliviar o efeito do cloro, sua mãe decidiu usar água boricada, mas confundiu os frascos dos líquidos e acabou pingando amônia no olho direito do filho.

Icaro teve córnea, retina e nervo óptico queimados. Apesar da dor e do susto, a maior parte dos efeitos da queimadura foi revertida. Após um tratamento de quatro meses, ele recuperou 90% da visão.

Dois anos mais tarde, o mineiro começou no taekwondo por influência dos seus pais, que já tinham praticado a modalidade. Ele se destacou na arte marcial sul-coreana e decidiu levá-la a sério. Em 2014, passou a fazer parte da equipe de São Caetano do Sul (SP), patrocinada pela prefeitura da cidade e que conta com 3 dos 5 medalhistas do país no último Mundial.

Apesar de a princípio ter recuperado quase integralmente a visão do olho direito, aos poucos Icaro voltou a perdê-la. Em 2015, passou pela fase mais crítica desse processo.

"Foi uma piora muito grande. Comecei a perder noção de tempo e de espaço, que no taekwondo é fundamental. Eu chutava no vazio. Achava que iria acertar a pessoa, mas ela estava longe, ou achava que iria acertar, mas estava perto demais e dava uma joelhada. Defendia antes de o pé do adversário chegar e ele acabava acertando", conta à Folha.

Icaro poderia se submeter a uma cirurgia de transplante da córnea, mas para isso teria que abrir mão da carreira. Caso fizesse o procedimento e voltasse a lutar, um golpe no local colocaria tudo a perder. 

A opção, pelo menos por enquanto, foi se adaptar. Com a ajuda da namorada, Raiany Fidelis, também lutadora de taekwondo, ele incluiu um período a mais de treinamento.

"Eu fazia os treinos normais e continuava à noite. Tapava o olho bom e ficava chutando só com o ruim. Não sei se para a ciência fazia sentido ou não, mas consegui me adaptar dessa forma", afirma.

O gesto de tapar um dos olhos, nesse caso o direito, virou a marca registrada do atleta nas comemorações. Na última vez em que fez um exame para medir o campo visual, há cerca de quatro anos, ele conservava 20% da visão desse olho. Hoje, acredita ter ainda menos.

"Para ser sincero, acho que estou quase [cego desse olho]. Não tenho nada [diagnóstico] em papel, mas enxergo muito pouco, só vultos, é como se fosse uma janela muito arranhada", explica. Mesmo que repentinamente não visse mais nada com ele, Icaro não acha que teria o seu desempenho comprometido.

"Não sei como faço, não consigo explicar essa adaptação. Não sei como seria se eu enxergasse 100%, talvez não tivesse a mesma dedicação que eu tenho, porque abro mão de enxergar para correr atrás do meu sonho", diz, mirando a Olimpíada de Tóquio-2020.

No vice-campeonato mundial, em Manchester, ele perdeu a decisão da categoria até 87 kg para o russo Vladislav Larin, líder do ranking no qual o brasileiro é o terceiro.

Já na Olimpíada, o número de categorias do taekwondo cai de oito para quatro, e os atletas muitas vezes precisam se adaptar a uma nova faixa de peso. Icaro tentará a vaga nos 80 kg, o que significa perder 7 kg entre torneios. Para ele, algo não tão complicado.

"É matemática. Tenho um nutricionista que calcula meu gasto calórico. Ele dá a dieta e é só fazer. Sofro um pouco, mas tem que abrir mão. Gosto muito de doce, mas quando penso no meu objetivo lá na frente fico tranquilo", afirma.

A única barreira intransponível para o mineiro até agora foi a entrada no programa de atletas das Forças Armadas, que paga salários aos integrantes. Em 2017, Icaro teve seu ingresso barrado na Marinha após reprovar no exame de visão. Os médicos alegaram que ele não estava apto para ser militar, independentemente dos resultados.

"Sempre tive uma dificuldade grande para viajar. Com esse dinheiro conseguiria investir mais na minha carreira, mas ele não veio e tive que encontrar outros meios", diz o atleta, que para participar de torneios no exterior já organizou vaquinhas, vendeu doces e trabalhou como garçom.

As medalhistas no Mundial Caroline Santos (à esq.) e Milena Titoneli durante treino em São Caetano
As medalhistas no Mundial Caroline Santos (à esq.) e Milena Titoneli durante treino em São Caetano - Karime Xavier/Folhapress

Acaso fez medalhistas no Mundial virarem atletas profissionais

Em 2017, a Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTKD) ficou sob intervenção judicial após apresentar irregularidades nas prestações de contas e seus dirigentes serem acusados de corrupção.

Até hoje, sob nova gestão, a CBTKD está impedida de receber recursos repassados pelo Comitê Olímpico do Brasil, que investe diretamente na preparação dos atletas para os grandes eventos.

Mesmo em meio a essas dificuldades e depois de ter passado em branco no Mundial de 2017, a delegação brasileira obteve seu melhor desempenho da história na competição em Manchester, com cinco atletas que subiram ao pódio.

Além de Icaro, o medalhista na Rio-2016 Maicon Andrade levou o bronze na categoria acima de 87 kg, e Paulo Melo, na 54 kg. Caroline Santos foi prata (62 kg), e Milena Titoneli, bronze (67 kg).

Além de treinarem juntas em São Caetano, elas compartilham o fato de terem iniciado ou seguido no esporte graças a um golpe do acaso. Milena, 20, começou aos 13 anos, quando procurava uma atividade física para não engordar.

"Nunca me identifiquei tanto com algo na minha vida quanto com o taekwondo. Sempre achei que tivesse muita dificuldade com esportes, então me surpreendi bastante. Até meus pais falam que nunca imaginaram, porque antes de começar o esporte eu era bem preguiçosa", ela conta.

Caroline, 23, também iniciou na adolescência, mas não pensava em ser profissional. Quando estava perto dos 18 anos, disse aos pais que entraria na sua última competição.

Nela, lutou contra Milena e perdeu, mas chamou a atenção dos treinadores de São Caetano, que a convidaram para integrar a equipe adulta.

"Eu tinha falado que seria minha última e recebi um convite desses [risos]. Mas eles me apoiaram, e eu nunca vou me esquecer o que minha mãe me disse: que não iria cortar minhas asas, que era para eu voar e conquistar o mundo".

Ela já chegou muito perto disso na Inglaterra, e agora quer repetir a dose no Japão.

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