Descrição de chapéu Copa América

Refugiados venezuelanos fazem torcida crítica na Copa América

Cerca de mil imigrantes do país foram para o RS, onde equipe faz jogo de estreia

Paula Sperb
Porto Alegre

Em Porto Alegre, onde a Venezuela estreia na Copa América contra o Peru, neste sábado (15), às 16h, na Arena do Grêmio, o ingresso inteiro mais barato custa R$ 120.

O valor é restritivo para os cerca de mil venezuelanos que chegaram ao Rio Grande do Sul por meio da interiorização feita em parceria com a Organização Internacional da Migração (OIM) e Acnur (Alto Comissariado da ONU para Refugiados) —já são 4 milhões de venezuelanos que saíram do país fugindo da crise humanitária.

Alguns, porém, conseguirão ir ao estádio com ingressos sorteados aos venezuelanos acolhidos pela SOS Aldeias Infantis, organização não governamental conveniada ao programa federal de interiorização, na capital gaúcha. As entradas foram doadas pela Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) e distribuídos pela Secretaria Estadual do Esporte.

Salomón Rondón, da Venezuela, durante treino da equipe em Porto Alegre
Salomón Rondón, da Venezuela, durante treino da equipe em Porto Alegre - Jeferson Guareze/AFP

Os venezuelanos que vivem na cidade que receberá a estreia da seleção do país no torneio continental dizem que torcerão pela equipe sem esquecer as dificuldades que seus compatriotas sofrem. Condenam a fome e a falta de serviços básicos à população no país de origem.

Rodrigo Matta, 21, estudante de Maturín, acredita numa vitória da Venezuela. A torcida não o impede de criticar a influência política que existe na equipe, segundo ele.

"A escolha dos jogadores não é por talento, mas por indicação. Os atletas não podem se manifestar contra o governo, é como um empregado falar mal do chefe", afirma.

"Acompanho os resultados pela internet. A Venezuela derrotou os EUA por 3 a 0 no último amistoso [em 9 de junho]. Foram dois gols do nosso capitão, Salomón. Então estou confiante, basta não fazer muito frio aqui", brinca Jonas Paiva, 41, professor de matemática, que agora trabalha como auxiliar de produção.

Com seu filho Ricardo, de um ano e dois meses no colo, Paiva conta que deixou a cidade de Upata em busca de tratamento médico para a criança, que tem um problema cardíaco, e para os pais, já idosos. Na Venezuela, seu salário era o suficiente apenas para comprar um pouco de comida e um pacote de fraldas.

Paiva torce para a "vinotinto" —como chamam a seleção por causa da camiseta cor de vinho—, mas lembra que o esporte mais popular do país é o beisebol, que lota estádios.

"Temos muitos jogadores na MLB [principal liga americana]. A rivalidade entre Caracas e Magallanes se parece com a do Grêmio e Internacional aqui", compara, já adaptada à rivalidade local.

Os refugiados mais jovens, porém, estão mais inclinados ao futebol, que jogam em uma pequena quadra com gols quebrados, onde ficam as residências temporárias em que vivem.

Leonel Gomes, 28, (à esq.) e Jonas Paiva, 41, torcerão para a Venezuela
Leonel Gomes, 28, (à esq.) e Jonas Paiva, 41, torcerão para a Venezuela - Paula Sperb/Folhapress

O agrônomo Leonel Gomes, 28, que morava em El Tigre antes de vir ao Brasil, lembra que a Venezuela não tem um histórico vitorioso, mas acredita que o time pode avançar na Copa América.

"Ganhando ou perdendo, continua uma ditadura. Também não acredito na oposição [de Juan Guaidó, que se auto proclamou presidente]. Uma intervenção militar estrangeira traria muitas mortes e guerra, quem defende isso está louco e não enxerga as consequências para o povo", diz.

A 120 km de Porto Alegre, em Caxias do Sul, na serra gaúcha, os venezuelanos que passaram pelo Centro de Atendimento ao Migrante (CAM) na última semana não demonstraram interesse pela estreia da Venezuela na Copa América, conta Adriano Pistorello, advogado da entidade.

"Perguntei sobre a partida e eles não estavam sabendo. Estão mais preocupados com outras necessidades, concentrados em encontrar emprego e ajudar as famílias", afirma.

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