Descrição de chapéu Copa América

Scaloni inicia carreira de técnico para acabar com jejum argentino

Ex-auxiliar de Sampaoli nunca disputou jogos oficiais como treinador

Alex Sabino
Salvador

Lionel Scaloni, 41, tem zero partidas oficiais, daquelas que valem três pontos, em sua carreira como treinador de times profissionais. A primeira será neste sábado (15), às 19h, quando a seleção argentina enfrenta a Colômbia, em Salvador, na estreia da Copa América.

Ele jamais havia exercido a função até ser chamado no ano passado pelo presidente da AFA (Associação de Futebol Argentino), Claudio Tapia, para assumir o cargo de forma interina após a queda de Jorge Sampaoli. Com o novato no comando, a equipe fez três amistosos. Perdeu para a Venezuela e venceu Marrocos e Nicarágua.

Ex-lateral discreto, revelado pelo Newell’s Old Boys (a equipe de infância de Messi) e com carreira no futebol europeu, ele não tem tanta certeza de que vai continuar após a Copa América. Tanto que deixou sua família morando na Espanha.

O técnico da seleção argentina, Lionel Scaloni, durante treino da equipe
O técnico da seleção argentina, Lionel Scaloni, durante treino da equipe - Juan Mabromata - 30.mai.19/AFP

“Não paramos para pensar aonde chegamos, na posição em que estamos. Porque a cabeça dá voltas. Estou o mesmo de sempre. Não mudei em nada”, diz.

Scaloni esteve com a delegação na Rússia, na Copa do Mundo. Viajou como auxiliar do quase sempre inacessível Jorge Sampaoli. Era a ele que dirigentes e até torcedores procuravam para saber como estava o time e, principalmente, o humor de Lionel Messi.

Enquanto o treinador ficava encastelado em seu quarto e acordava seus assistentes de madrugada para discutir futebol, Scaloni saía do hotel mesmo nas manhãs das partidas e era visto por jornalistas.

O então auxiliar viu, de posição privilegiada, o caos que foram as três semanas que a seleção passou na Rússia.

Mas nem todos aceitaram de forma pacata a escolha do ex-ala que teve o melhor momento na carreira no La Coruña, da Espanha, de 1998 a 2006. Havia a nuvem de traidor que pairava sobre ele, por ter entrado no lugar do seu antigo chefe. Diego Maradona disse não entender a escolha.

“Quantas vezes alguém gritou gol de Scaloni?”, questionou.

Era uma crítica parecida à que foi feita por ele mesmo sobre Sampaoli. Maradona reclamou de todos os técnicos que passaram pela seleção neste século, menos um: o próprio Maradona, que naufragou na Copa do Mundo de 2010.

A tudo, Scaloni parece olhar com tranquilidade. Relaxado, em nada lembrava a linguagem corporal arredia e desconfiada de Sampaoli nas entrevistas na Rússia, quando parecia querer estar em qualquer lugar do mundo menos ali, diante dos jornalistas.

No final da conferência de imprensa na Fonte Nova nesta sexta (14), até mandou uma mensagem de condolências para a família do jornalista argentino Sergio Gendler, morto nesta quinta (13).

“O que tentamos colocar na cabeça desses garotos é que desfrutem do momento e que não se preocupem com o que vai passar porque não sabemos. Gasta energia e não queremos”, explicou, para citar o processo de renovação que comanda na equipe.

Era uma frase para os jogadores. Poderia ser para ele mesmo.

Scaloni tem dito (e repetiu nesta sexta) desde que foi escolhido que não se preocupa com os resultados. Acredita que o torcedor argentino não está pensando apenas em ganhar, mas também quer saber da qualidade do futebol mostrado. Nem todos estão tão certos disso.

Quando questionado se manterá o treinador se a campanha argentina for ruim, Claudio Tapia fugiu da resposta. Porque apenas o título da Copa América e o fim do jejum de 26 anos sem conquistas validariam o trabalho da comissão técnica para a Copa do Qatar, em 2022.

“A seleção argentina sempre vai ter pressão. Se você tiver seis anos de contrato, dois meses ou um ano, vai ter pressão. Não estou tão seguro que se valoriza tanto o resultado. Parece que não é apenas o resultado, mas como é obtido. Não temos pressão por ganhar algo. Temos pressão para jogar como queremos, que o torcedor se identifique”, afirmou na sala de imprensa da Fonte Nova.

Pode ser uma tentativa de tirar dos ombros a expectativa sobre Saravia, Pezzella, Guido Rodríguez e Paredes, jogadores que serão titulares contra a Colômbia e que nem sequer estiveram na lista de convocados para a Copa da Rússia. É inegável que também ajudaria o treinador esse tipo de pensamento.

“Vamos de partida a partida”, diz. É uma tática conhecida no futebol argentino. É o “passo a passo” de Reinaldo “Mostaza” Merlo, filosofia que fez o Racing ser campeão argentino de 2001, acabando com fila de 35 anos sem títulos.

“Sempre mantivemos uma ideia [de jogo]. Não quero pensar se ganho porque se coloca uma mochila [peso] nas costas que agora quero tirar”, declara.

Mais inexperiente em seleção do que a maioria dos seus jogadores, a esperança de Scaloni é que sua ideia de jogo seja capaz de vencer. Porque sem resultados ele não vai sobreviver no cargo, por mais que diga não pensar nisso.

Argentina x Colômbia
19h, na Fonte Nova (Salvador)
Na TV: SporTV

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