Seleção volta à Bahia 30 anos após ovada, vaias e campo esburacado

Corte de jogador do Bahia fez equipe de Lazzaroni ser rejeitada pela torcida em Salvador

Toni Assis
São Paulo

Na terça-feira (18), o Brasil enfrentará a Venezuela, na Fonte Nova, em Salvador, pela Copa América de 2019. No estádio e contra o mesmo rival, a seleção estreou na Copa América de 1989, a última disputada no país. 

O cenário que Tite enfrentará deve ser bem diferente do que o então técnico do Brasil aturou há 30 anos. 

“Ouvimos apupos, tomamos ovada da torcida e jogamos em campo com péssimas condições”, lembra Sebastião Lazaroni, 68, à frente da equipe na época. “Não tinha condições de render”. 

Uma escolha do treinador gerou o clima hostil descrito por ele em Salvador. Lazzaroni optou por cortar Charles, jogador do Bahia, da lista final da Copa América. Preferiu Renato Gaúcho, Romário, Bebeto e Baltazar.

“O Charles tinha sido convocado antes em função de vários impedimentos de atletas que estavam no exterior e aproveitou a chance. Mas na relação final para a Copa América, ele foi superado por outros”, afirma.

Renato Gaucho é atingido por ovada na entrada em campo para o jogo entre Brasil x Peru válido pela Copa América de 1989
Renato Gaucho é atingido por ovada na entrada em campo para o jogo entre Brasil x Peru válido pela Copa América de 1989 - Reprodução - 3.jul.1989/TV Globo

O técnico tinha até o dia 30 de junho para confirmar a lista final e anunciar os cortes. Charles e toda a torcida do Bahia ficaram sabendo da dispensa um dia antes do jogo contra os venezuelanos, em 1º de julho.

Após o anúncio de que o atacante não faria parte do time, Paulo Maracajá, presidente do clube baiano e deputado estadual, invadiu o hotel da delegação para buscar Charles.

“Eles vêm para a terra da gente para fazer molecagem. Deram esperança ao povo baiano e agora fizeram esta traição. Estou levando Charles para um lugar melhor”, gritava o cartola.

Segundo relato da Folha na época, o então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, tentou conversar com Lazaroni e convencê-lo a incluir o atacante local na equipe para evitar turbulências em Salvador.

O técnico não topou. O preço por abdicar do ídolo do clube baiano foi sentido nas arquibancadas. Na estreia, contra a Venezuela, apenas cerca de 13 mil torcedores foram assistir à seleção brasileira.

Ricardo Teixeira (à direita), conversa com o técnico Sebastião Lazaroni sobre a convocação dos jogadores para a Copa do Mundo de 1990
Ricardo Teixeira (à direita), conversa com o técnico Sebastião Lazaroni sobre a convocação dos jogadores para a Copa do Mundo de 1990 - Luis Carlos David - 2.out.89/Folhapress

A equipe entrou em campo vaiada por uma torcida que levou ao campo rojões, disparados contra a comissão técnica. Os atletas nem conseguiram ficar no banco de reservas. 

“Nunca vi um espetáculo tão selvagem”, disse o treinador na época. Os jogadores se irritaram com a recepção em Salvador. “A bandeira do Brasil foi queimada, isso não pode acontecer”, reclamou Alemão. “O Charles não é mais bonito que ninguém”, disse Mauro Galvão. Dos quatro jogos que fez no seu grupo, os três primeiros foram disputados no estádio. O time venceu o primeiro, por 3 a 1, e teve dois empates em 0 a 0, contra Peru e Colômbia.

O time então se despediu da Bahia. O último jogo da primeira fase foi em Recife, onde a equipe foi recebida com festa pela torcida. Em campo, venceu o Paraguai por 2 a 0. 

Na capital pernambucana, além da receptividade bem mais calorosa, Lazaroni encontrou na dupla Bebeto e Romário o seu ataque ideal.

“Iniciei a competição com o Renato e o Baltazar, mas não obtive resposta”, lembra o treinador, que no último jogo da primeira fase escalou a dupla Bebeto e Romário.

“Eles gostaram de atuar juntos, tiveram um bom rendimento e isso deu a ideia de que o time tinha de jogar para os dois atacantes”, afirma.

Na sequência, com o Maracanã como palco do quadrangular final, foram três duelos e três vitórias. A última contra o Uruguai, que deu o título ao Brasil, no 1 a 0, com gol de Romário. 

A conquista garantiu o emprego de Lazaroni, que comandou a equipe na Copa de 1990.

Técnico que despontava no cenário nacional e com menos de 39 anos, ele tinha no currículo três títulos do Estadual do Rio (1986, pelo Flamengo, 1987 e 1988, com o Vasco) antes de assumir a equipe.

“Eu era só um pouco mais velho do que eles [jogadores]. Mas conhecia muito bem os atletas e trabalhei nos clubes com boa parte do grupo”, afirmou.

Um ano após a conquista continental, a seleção foi eliminada nas oitavas de final da Copa do Mundo, em 1990, após perder para a Argentina. A derrota decretou o fim da passagem do técnico, demitido após a queda na Itália. 

Brasil treinará no estádio do Vitória, em Salvador

Antes de enfrentar a seleção venezuelana na próxima terça-feira (18), pela segunda rodada da Copa América, a seleção brasileira fará dois treinamentos em Salvador.

Pela programação da CBF, o técnico Tite comandará o primeiro trabalho da equipe na Bahia neste domingo (16), no Barradão, estádio do Vitória. 

Já na segunda-feira (17), a equipe treinará, a partir das 19h45 na Fonte Nova, palco do confronto do dia seguinte, marcado para as 21h30.

A seleção brasileira ainda tem outro treino previsto em Salvador após o duelo com os venezuelanos. O Brasil trabalhará novamente no Barradão na quarta-feira (19), antes de retornar a São Paulo para a terceira rodada da chave.

O último jogo do Brasil na primeira fase da competição sul-americana ocorrerá no próximo dia 22, contra o Peru. O confronto será às 16h, no estádio de Itaquera.

Há uma chance de a seleção voltar a jogar na capital baiana nas quartas de final do torneio. A cidade receberá um dos jogos da segunda fase. A partida será entre o melhor do Grupo C (com Uruguai, Equador, Japão e Chile) e o melhor terceiro entre os grupos A (Brasil, Bolívia, Venezuela e Peru) e B (Argentina, Colômbia, Paraguai e Qatar).

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