Sucesso anterior de argentino abriu portas do Tottenham a Pochettino

Seguidor de Bielsa, técnico tenta conquistar seu primeiro título neste sábado (1º)

Alex Sabino Bruno Rodrigues
São Paulo

Em fevereiro de 2015, o técnico Mauricio Pochettino, 47, do Tottenham, concedeu longa (e rara) entrevista exclusiva ao repórter Diego Borinsky, da extinta revista argentina El Gráfico.

Quando Borinsky pergunta ao ex-zagueiro qual foi a sua maior referência como treinador, Pochettino não hesita. "Logicamente Marcelo [Bielsa], o técnico com quem mais tempo passei", disse.

Mauricio Pochettino durante treino do Tottenham nesta sexta-feira (31), véspera da final da Champions
Mauricio Pochettino durante treino do Tottenham nesta sexta-feira (31), véspera da final da Champions - Javier Soriano/AFP

Funcionário das categorias de base do Newell's Old Boys no fim da década de 1980, Bielsa descobriu Pochettino em uma das viagens que fazia com seu Fiat 147 pela província de Santa Fe em busca de jovens promissores para o clube.

Juntos, foram bicampeões argentinos no profissional do Newell's no início da década seguinte. Bielsa também levou Pochettino para a Copa do Mundo de 2002, na qual a Argentina fracassou caindo na fase de grupos.

Em comum, além das referências futebolísticas, fruto do convívio próximo, ambos carregam o mesmo rótulo com relação aos seus trabalhos: o de que seus times jogam bem e até encantam, mas não ganham.

Uma escrita que Pochettino tentará mudar diante do Liverpool, na final da Champions League, em Madri, neste sábado (1º), com transmissão da TNT e do Facebook do Esporte Interativo.

Pochettino chegou à Inglaterra em 2013, contratado pelo Southampton, tornando-se apenas o segundo argentino a treinar um clube da elite inglesa em toda a história.

A boa temporada à frente dos Saints chamou a atenção da Premier League. Porém, em uma liga por onde passam alguns dos mais badalados técnicos do mundo, só havia um clube para o qual Pochettino parecia destinado a ir depois do Southampton. Justamente o pioneiro no país em colocar um argentino no comando de sua equipe.

Campeão do mundo com a Argentina em 1978, o meio-campista Osvaldo Ardiles se transferiu do Huracán ao Tottenham após o Mundial.

Com o time do norte de Londres, o atleta foi campeão da Copa da Inglaterra em 1981 e 1982. Foi neste ano que Argentina e Inglaterra entraram em guerra pelas Ilhas Malvinas.

Poderia ter sido o fim para Ardiles, emprestado ao Paris Saint-Germain por uma temporada, mas o retorno ao Tottenham para conquistar a Copa da Uefa (hoje Liga Europa) em 1984 ajudou o meia a cativar de vez o carinho dos torcedores e o respeito de todo o futebol inglês.

A passagem de sucesso como jogador foi o que permitiu a Osvaldo Ardiles ser o primeiro argentino a trabalhar como técnico na elite do país. Com curta experiência na função, foi contratado na segunda metade da temporada 1993/1994 para tentar salvar o time do rebaixamento. Missão que concluiu com sucesso.

Ainda na primeira metade da temporada seguinte, não resistiu aos maus resultados e foi demitido. Mas, de certa forma, com o respeito que adquiriu na memória de torcedores e do clube, abriu o caminho para Mauricio Pochettino, o segundo forasteiro a treinar a equipe de White Hart Lane.

"O que posso dizer sobre a importância de Mauricio? É total! Ele é tudo para esta equipe. É um tipo extraordinário. Tem a capacidade de tirar tudo o que um jogador tem a oferecer. É autêntico, entende o que o jogador pensa. Os jogadores confiam inteiramente nele", afirma Ardiles, o pioneiro, à Folha.

Para chegar à decisão, o Tottenham protagonizou verdadeira façanha no jogo de volta da semifinal da Champions, contra o Ajax, em Amsterdã. Derrotado por 1 a 0 na ida em Londres, o time foi à Holanda precisando vencer para pelo menos forçar a prorrogação. No intervalo de jogo, contudo, já estava 2 a 0 para o Ajax.

Na etapa final, Lucas recolocou os ingleses na partida com dois gols que deixaram tudo igual no placar. Aos 51 minutos do segundo tempo, um improvável terceiro gol com a perna esquerda do meia-atacante brasileiro colocou o Tottenham na final, a primeira da história do clube na competição.

"Foi um momento inesquecível, não só pela classificação histórica, mas pelo que representou. Pela maneira como os Spurs (apelido do Tottenham) jogaram. Com coragem até o fim, buscando o resultado. Foi um jogo incrível e deu orgulho a todos", conta Ardiles, que hoje trabalha como embaixador do clube.

Osvaldo Ardiles (à esq.) em ação pelo Tottenham no clássico contra o Arsenal, em Londres
Osvaldo Ardiles (à esq.) em ação pelo Tottenham no clássico contra o Arsenal, em Londres - Tottenham Hotspur/Divulgação

Técnico desde 2009, quando estreou na função pelo Espanyol, onde foi jogador e campeão como atleta, Pochettino construiu toda a sua carreira de treinador na Europa.

O próprio reconhece, na entrevista à El Gráfico de 2015, que isso facilitou sua ida à Inglaterra há seis anos, quando o Southampton decidiu apostar em seu trabalho.

"É que tampouco me consideram argentino, já que praticamente toda a minha carreira fiz na Espanha. Me veem mais como um treinador europeu do que argentino", disse ao repórter Diego Borinsky.

Mauricio Pochettino brinca, inclusive, que foi ele quem abriu as portas do continente europeu a Diego Simeone.

"Ganhamos [com o Espanyol] por 4 a 2 do Atlético de Madrid dirigido por [Gregorio] Manzano e em poucos dias o demitiram e contrataram o Cholo [Simeone]. Assim que, se você revisar a história, creio que o caminho foi inverso, ele não me abriu nada, eu que abri a ele", brincou o técnico do Tottenham.

Pochettino (à esq.) corre para abraçar Batistuta na vitória da Argentina sobre a Nigéria, em 2002
Pochettino (à esq.) corre para abraçar Batistuta na vitória da Argentina sobre a Nigéria, em 2002 - Odd Andersen/AFP

Diferentemente do conterrâneo, porém, Pochettino ainda busca seu primeiro título como treinador na carreira.

O mais perto que chegou disso no comando do clube de Londres foi o vice-campeonato da Premier League na temporada 2016/2017, sete pontos atrás do Chelsea de Antonio Conte.

Ainda que tenha terminado as últimas três edições do Inglês à frente do maior rival, o Arsenal, a ausência de troféus relevantes pesa contra o Tottenham. Sua última grande conquista foi a Copa da Inglaterra em 1990/1991.

Para Osvaldo Ardiles, há uma boa possibilidade de encerrar o jejum em Madri, diante do Liverpool. Se não ocorrer, não crê que o trabalho do argentino deva ser considerado um fracasso. Afinal, o clube londrino chegou à final da Champions pela primeira vez em sua história sem ter feito uma contratação sequer para a temporada.

"Isso é uma besteira, não? Ele é jovem, vai conquistar muitos títulos. O patamar que ele está colocando os Spurs vale como título. Você vê isso quando percebe que o treinador se torna a imagem de uma equipe. A imagem dos Spurs é a de Mauricio."

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