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Seleção Brasileira

Antes de Pia, futebol do Brasil evoluiu com técnicos estrangeiros

Sueca foi contratada pela CBF para comandar a seleção feminina

Bruno Rodrigues
São Paulo

O anúncio da contratação de Pia Sundhage para o comando da seleção brasileira feminina desperta expectativa sobre que tipo de novidades conceituais a treinadora poderá trazer não só para a equipe nacional, mas também para o desenvolvimento da modalidade no país.

Essa expectativa é justificada pelo currículo vitorioso da sueca, bicampeã olímpica e vice-campeã mundial com os Estados Unidos, além de prata nos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016, com a Suécia.

A nomeação de uma profissional estrangeira para o cargo é inédita na seleção feminina, mas já ocorreu na masculina.

A sueca Pia Sundhage, 59, foi anunciada pela CBF como técnica da seleção brasileira feminina
A sueca Pia Sundhage, 59, foi anunciada pela CBF como técnica da seleção brasileira feminina - Leonhard Foeger/Reuters

Primeiro técnico de fora do país a assumir a seleção, o uruguaio Ramón Platero comandou o Brasil nas Copas América de 1923 e 1925. Mas foi seu trabalho em clubes do Rio de Janeiro que conseguiu deixar um legado de inovações para a prática de futebol no país.

Técnico da seleção uruguaia no Sul-Americano de 1917, disputado no Uruguai, Platero foi anunciado naquele mesmo ano como treinador do Fluminense. Em 1921, foi para o Flamengo, mas se viu envolvido em um tipo de situação que só mesmo o futebol amador permitiria: além de trabalhar no rubro-negro, assessorava o departamento de futebol do Vasco, à época na segunda divisão carioca.

Com o acesso vascaíno à elite para o ano de 1923, escolheu seguir somente no clube cruz-maltino pois este lhe deu melhores condições para a implementação de ideias que ele considerava fundamentais, como instrumentos para aprimorar a parte física do elenco e um local para imprimir o regime de concentração.

"Ele pede ao Flamengo que incluíssem o regime de concentração, com alimentação, e aparatos de ginástica. O Vasco lhe oferece o que ele havia solicitado, e dessa forma ele deixa o Flamengo. Seu aporte à parte física é que muda completamente o trabalho antes dos jogos e também durante a temporada", diz à Folha o presidente da Associação Uruguaia de Treinadores de Futebol, Ariel Longo, autor do livro "Ramón Platero - El Rey Oculto", um trabalho extenso de pesquisa sobre a carreira do treinador.

Mario Filho, em "O Negro no Futebol Brasileiro", também atentava para o trabalho de campo do uruguaio, inovador para a época, e seu espírito disciplinador. "Às vezes, de noite, se a noite era de lua, podia-se ver os jogadores do Vasco no campo, treinando. Não faziam outra coisa. O sistema de Platero era esse: bola, bola e mais bola", escreveu o jornalista.

No fim da década de 1930, surgiu no Brasil, sob a batuta de um treinador húngaro, o que provavelmente foi a principal mudança tática do futebol brasileiro: a introdução do WM, o primeiro sistema tático moderno.

O Flamengo contratou Dori Kürschner para substituir Flávio Costa, rebaixado ao cargo de assistente da comissão técnica. No clube carioca, implementou a linha de três defensores, uma resposta que o futebol europeu havia dado à mudança na regra do impedimento.

Até 1925, o atacante ficava impedido se não houvesse ao menos três defensores entre ele e a linha de fundo. A partir daí, eram necessários apenas dois rivais (o goleiro e mais um atleta de linha) para que se configurasse o impedimento. Foi quando o inglês Herbert Chapman, técnico do Huddersfield (ING) e depois do Arsenal (ING), em virtude da enxurrada de gols que a mudança na regra causara, decidiu recuar um jogador do meio para a defesa, mudando a configuração do 2-3-5 para o 3-2-5. No desenho, um WM.

 

No Brasil, a novidade foi introduzida por Dori Kürschner, implicando inclusive na formação do time que Flávio Costa, já no comando da seleção brasileira, montaria para a disputa da Copa do Mundo de 1950, na qual o Brasil terminaria com o vice diante do Uruguai, no Maracanã. 

"[A Dori Kürschner] Faltavam-lhe outros atributos, como comunicação e relação humana, porém tinha conhecimento tático. Ficou no cargo por 71 partidas, somando 21 derrotas, onze empates e 39 vitórias. Em outras palavras, venceu apenas 54% dos jogos. Pouco. Mas deixou um legado", escreve o colunista da Folha Paulo Vinícius Coelho no livro "Escola Brasileira de Futebol".

​Na década de 1950, outro húngaro desembarcaria no país para trazer aspectos táticos novos e influenciar o futebol brasileiro como um todo.

Béla Guttmann, judeu e que havia fugido do Holocausto, chegou ao São Paulo em 1957. Com ênfase em trabalhos de organização da equipe e treinos de fundamentos, tentava mostrar aos atletas, na prática, como fazer cada exercício. Era uma forma de driblar a barreira da língua, já que não falava português.

O húngaro Béla Guttmann em treino do São Paulo, em 1957
O húngaro Béla Guttmann em treino do São Paulo, em 1957 - Acervo UH/Folhapress

Assim como Flávio Costa fizera com Kürschner no Flamengo, Vicente Feola aproveitou a passagem de Guttmann pelo clube tricolor, na qual se sagrou campeão paulista de 1957, para aprender conceitos e ampliar seu conhecimento teórico. Com o esquema que herdou do húngaro, o 4-2-4, comandou a seleção brasileira no primeiro título mundial, em 1958, na Suécia.

Com poucas experiências de estrangeiros no comando da equipe nacional –além de Platero, o português Joreca e o argentino Filpo Nuñez treinaram o Brasil, mas somente em amistosos–, os principais influenciadores de fora trouxeram suas novidades aos clubes, replicadas depois na seleção.

No passado, quando não pela importação de treinadores, as novidades táticas eram apresentadas sobretudo a cada edição da Copa do Mundo, onde via-se nas seleções a representação da forma de jogar de um país.

Hoje, no futebol globalizado, diminuiu de maneira significativa a importância desse tipo de intercâmbio. Todas as informações sobre como se joga na Eslováquia, por exemplo, estão à disposição dos profissionais do esporte que quiserem se aprofundar em idiossincrasias específicas.

Contudo, para o futebol feminino brasileiro, que ainda está em desenvolvimento e carece de trabalhos pensados a médio e longo prazo, a aparição de Pia Sundhage pode surtir efeito semelhante ao que o movimento de estrangeiros teve, lá atrás, para o futebol masculino. Talvez não nos aspectos táticos, como Kürschner e Guttmann, mas em questões organizacionais e de estrutura, como Platero.

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