Descrição de chapéu Copa do Mundo Feminina

Copa feminina tem audiências recorde e o dobro de cobertura

Estados Unidos e Holanda se enfrentam na final do torneio neste domingo (8)

Tariq Panja
Montpellier (França) | The New York Times

Onze milhões de telespectadores na França. Outros 30 milhões sintonizados no Brasil, para acompanhar a seleção feminina do país, quase sempre ignorada. Uma semifinal tensa entre Inglaterra e Estados Unidos que, com 11,7 milhões de telespectadores, se tornou o programa de TV de maior audiência no Reino Unido este ano.

O sucesso da Copa do Mundo de futebol feminino, que teve a seleção dos EUA como campeã neste domingo (7), em final disputada na cidade francesa de Lyon, será descrito de muitas maneiras —pelo dinheiro gerado, naturalmente. Mas também pelo público nos estádios. Pelo interesse despertado entre os patrocinadores. Pelas conversas de escritório sobre as seleções femininas, nas pausas para o café.

O maior indicador, no entanto, talvez seja o crescimento notável na atenção da mídia e o crescimento correspondente na audiência das partidas. A Fifa credenciou 1,3 mil repórteres e fotógrafos da mídia impressa para a Copa do Mundo da França, o dobro da Copa do Mundo do Canadá quatro anos antes.

Embora as jornalistas que cobrem o esporte regularmente continuem a enfrentar dificuldades significativas para produzir sua cobertura —algumas delas ainda bancam as próprias despesas, e as mulheres enfrentam frequentemente obstáculos já familiares à sua atuação—, muitas se surpreenderam com o crescimento do interesse por seu trabalho este ano.

 

"Tenho recebido muitas mensagens, muito mais do que esperava", disse Carol Barcellos, correspondente da maior rede de TV brasileira, a Globo, antes de correr para realizar mais uma das dezenas de entradas ao vivo que ela produziu antes da partida entre Brasil e Austrália na fase de grupos. "As pessoas ficam felizes com a oportunidade de ouvir o que foi preciso para que essas mulheres pudessem jogar futebol".

As audiências sem precedentes registradas no Brasil foram obtidas também em outros mercados. A rede francesa de TV TF1 estabeleceu um recorde de audiência na vitória francesa sobre a Coreia do Sul, a partida de abertura da Copa, e o bateu a cada partida subsequente. A cobertura da BBC teve resultados semelhantes no Reino Unido, e da Itália à Holanda, e mesmo em países distantes como o Chile, o número de veículos de mídia eletrônica e de espectadores das partidas e da cobertura do torneio foi recorde.

Mesmo nos Estados Unidos, mercado com apetite comprovado pelo futebol feminino, a tendência dos números é de alta. A vitória dos Estados Unidos sobre a Inglaterra na semifinal, assistida na terça-feira por quase 7,4 milhões de pessoas, foi a partida de futebol mais assistida nos Estados Unidos desde a final da Copa do Mundo masculina de 2018, e superou a marca estabelecida na semana passada na partida entre Estados Unidos e França.

O número despertou esperanças de que o grande objetivo do esporte - a audiência de 23 milhões de pessoas que assistiu à derrota do Japão pelos Estados Unidos na final da Copa do Mundo de 2015 (o maior público de uma partida de futebol na TV dos Estados Unidos) possa ser atingido no domingo.

Mas é nas fímbrias do futebol feminino, em novos mercado e em outros nos quais o futebol feminino há muito tempo vinha sendo tratado com indiferença e onde a cobertura do esporte ainda luta por se estabelecer, que os avanços foram mais impressionantes.

No Brasil, um país louco por futebol onde em geral pouca coisa desperta tanta atenção quanto a seleção e uma Copa do Mundo, a ideia de uma rede de TV despachar uma repórter como Barcellos para fazer reportagens regulares sobre um torneio disputado em um país distante não pareceria ter nada de extraordinário.

 

Exceto pelo fato de que a cobertura ao vivo de Barcellos no atual torneio nada tem de normal. No Brasil, por décadas "Copa do Mundo" quis dizer só o torneio masculino, ainda que o país tenha a seleção feminina mais forte da América do Sul há décadas, e a maior estrela do esporte, Marta, seis vezes premiada como melhor jogadora do mundo.

As reportagens de Barcellos na França foram parte do maior esforço da história de sua rede de TV para tratar a Copa do Mundo feminina como destaque, no país mais populoso da América do Sul. As partidas da seleção brasileira, da vitória na estreia contra a Jamaica à dramática eliminação diante da anfitriã França, foram transmitidas pela primeira vez no canal de TV aberta da companhia, e narradas por Galvão Bueno, que costuma narrar os jogos da seleção masculina.

Alguns dos esforços mais intensos de cobertura nova do torneio, porém, aconteceram no Reino Unido, onde a BBC usou a Copa do Mundo para ancorar uma campanha que destacou o esporte feminino em todas as plataformas da companhia.

Algumas das jornalistas que acompanharam pela primeira vez a Copa do Mundo feminina viram o torneio como trampolim para discutir torneios mais amplos, com atletas desconhecidas.

"Estou descobrindo coisas novas sobre o esporte, uma vez mais", disse Giulia Zonca, repórter do jornal diário italiano La Stampa, que já cobriu diversas copas do mundo masculinas e olimpíadas. Ela encontrou franqueza e disposição de discutir não só o esporte mas as dificuldades de ganhar a vida com ele, da parte das jogadoras.

"Elas estão assumindo posições", acrescentou Zonca, "e isso é muito refrescante".

As atletas também encontraram mais diversidade entre os entrevistadores.

"Por mais que amemos todas essas caras de homens, quanto mais mulheres melhor, arrisco dizer", disse a meio-campista da seleção americana Megan Rapinoe, antes da partida entre seu time e a França. "É claro que queremos ver mais mulheres fazendo as perguntas, para contar as histórias de uma perspectiva diferente. Mas dar mais oportunidades às pessoas, de modo geral, também ajudará a contar uma história mais completa sobre o futebol feminino e o esporte feminino em geral".

Renata Mendonça, jornalista que no passado trabalhava para a BBC, decidiu encarar o desafio por conta própria ao criar a Dibradoras, uma empresa de mídia que oferece podcasts e blogs cujo foco exclusivo é o futebol feminino no Brasil. Ela criou a empresa ao perceber que o futebol feminino praticamente não tinha cobertura, depois da Copa do Mundo de 2015. Ela reparou, entre outras críticas, que os repórteres cometiam erros repetidamente quanto aos nomes das jogadoras, em alguns casos em entrevistas ao vivo na TV.

Isso fez com que encarasse sua mudança de emprego —que resultou em renda menor— como parte de uma causa mais ampla que, em sua opinião, transcende o esporte.

"É uma luta pela voz da mulher na sociedade", disse Mendonça. "Em uma indústria ainda dominada pelos homens".

As mudanças não bastaram para eliminar muitas das dificuldades que continuam a existir para as profissionais que cobrem o futebol feminino. Misoginia e salários baixos são recorrentes para as jornalistas que buscam estabelecer carreiras cobrindo o esporte feminino, e resta determinar se a "promoção" para postos de cobertura do futebol feminino estereotipará as repórteres ou prejudicará suas chances de obter postos de maior destaque.

Algumas das jornalistas credenciadas para a Copa do Mundo estão bancando as próprias despesas na França. Outras aproveitaram férias para assistir em pessoa à Copa do Mundo. E algumas têm dificuldades mais pessoais. Um exemplo é Shireen Ahmed, jornalista freelancer canadense e colaboradora do podcast esportivo feminista "Burn It All Down".

Pouco antes da copa, Ahmed foi atacada na mídia social depois de criticar a Copa 90, uma companhia internacional de mídia que oferece conteúdo futebolístico a homens da geração milênio. Quando Ahmed apontou que a empresa tinha errado ao incluir um apresentador com histórico de posts sexistas na mídia social em seu vídeo promocional sobre a Copa do Mundo da França, a Copa 90 divulgou um  comunicado no qual se dissociava dos posts.

Mas Ahmed enfrentou uma reação adversa intensa, e imediata, sem ajuda.

"Foi realmente traumatizante", disse Ahmed, mulher muçulmana que usa um hijab (véu) e diz que costuma se preparar para ser agredida sempre que posta alguma coisa sobre esporte. "Mas eu provavelmente faria a mesma coisa de novo".

Os ataques na internet não se limitam a Ahmed. (A seleção feminina alemã fez um vídeo zombando dos críticos, antes do início do torneio.) Alex Scott, antiga jogadora da seleção inglesa e hoje comentarista respeitada no Reino Unido, falou sobre a questão depois de sofrer agressões verbais diárias, na temporada passada, ao comentar jogos da Premier League.

"Eu não deveria ter de passar por isso", ela declarou em um vídeo da BBC que abre sua página de Twitter.
A sensação onipresente de que as mulheres são cidadãs de segunda classe na mídia não é ajudada pelas condições econômicas enfrentadas pelas profissionais que cobrem o futebol feminino. A principal jornalista de futebol feminino de um grande veículo de mídia britânico foi instruída a pagar por suas despesas na cobertura da Copa do Mundo, até que reações negativas dentro da companhia forçaram o jornal a mudar de ideia.

Outras jornalistas que foram à França não tiveram a mesma sorte.

Stephanie Meek e Rachel Bach, duas fotógrafas australianas, se descreveram como "voluntárias" no torneio, antes de admitir que a descrição talvez não fosse muito exata.

"Somos mais mão de obra escrava", disse Meek, 28.

Ela e Bach, 28, estão fornecendo fotos gratuitas a um site australiano, algo que também disseram fazer ao cobrir o futebol feminino em seu país.

"Nós nos dispomos a fazê-lo porque somos apaixonadas por nosso trabalho e acreditamos que o assunto precisa ser coberto", disse Meek.

Tradução de Paulo Migliacci

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