Descrição de chapéu Copa do Mundo Feminina

Desfile da seleção feminina dos EUA vira grande ato político em NY

Milhares foram às ruas celebrar tetracampeonato mundial e pedir direitos iguais

Marina Dias
Nova York

Foram nove horas sem internet. Desconectadas durante o voo que as levou da França até os Estados Unidos na segunda-feira (8), as 23 jogadoras da seleção americana de futebol feminino estavam eufóricas quando pousaram em Nova York.

Comemoravam o tetracampeonato da Copa do Mundo conquistado no domingo (7) contra a Holanda com centenas de mensagens que pulavam na tela de seus celulares.

Chamavam a atenção convites para ir a Washington vindos de políticos de oposição a Donald Trump, como a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, o líder da minoria no Senado, Chuck Schumer, e a estrela do partido democrata, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez.

Nesta quarta-feira (10), quando subiram em carro aberto para a festa em Nova York, as mulheres de um dos times mais ativistas dos EUA sabiam que tinham transformado a tradicional parada de papel picado da cidade em um ato político.

Em frente à prefeitura da cidade, a atacante Megan Rapinoe, que lidera o time dentro e fora de campo na luta por direitos iguais, decidiu fazer um discurso de impacto.

"Temos que ser melhores, temos que amar mais e odiar menos. Ouça mais e fale menos. É nossa responsabilidade tornar este mundo um lugar melhor", disse a jogadora, sob gritos da multidão.

"Nós temos cabelos rosa e roxo, nós temos tatuagens e dread, temos garotas brancas e negras —e tudo o que há no meio disso. Temos garotas heterossexuais e garotas gays. Faça o que você pode, faça o que você tem que fazer, seja mais e melhor do que você foi antes. Esse time tem todas as representações do que vocês podem ser quando fazem isso. Por favor, peguem isso como exemplo. Esse grupo é incrível. Levamos tantas coisas nos nossos ombros para estarmos aqui hoje, para celebrarmos com vocês hoje, e fazemos isso com sorriso, então façam o mesmo pela gente."

A fala não decepcionou as milhares de pessoas que, desde as primeiras horas da manhã, se espalhavam pelo centro financeiro de Manhattan à espera da seleção.

Carregavam faixas em que pediam igualdade salarial entre homens e mulheres no futebol —principal bandeira do time— e brincavam com o nome de Rapinoe como candidata à Presidência em 2020.

"Isso é mais que um jogo, é sobre mais igualdade nos EUA. Não apenas no futebol, mas em todas as frentes das nossas vidas e do nosso país", disse Deb Frederick, 49, que levou os filhos, Riley e Jack, ambos de 13 anos, para assistirem à parada.

Enquanto esperava a passagem das jogadoras pelo percurso histórico conhecido como Canyon of Heroes —que vai do Battery Park até a prefeitura nova-iorquina— Riley segurava um cartaz em que se lia "uma nação, um time."

Foi provocada por Deb a dizer o que achava da briga da seleção por direitos iguais. A garota não teve dúvidas: "Elas jogam, têm suas visões, suas ideias, e ainda ganham menos? Não é justo."

Deb Frederick, 49, que levou os filhos, Riley e Jack, ambos de 13 anos, para assistirem à parada.
Deb Frederick, 49, que levou os filhos, Riley e Jack, ambos de 13 anos, para assistirem à parada. Eles carregam um cartaz que diz "Uma nação, um time" - Marina Dias/Folhapress

À família Frederick se uniam outras tantas com bandeiras de cores que representam o orgulho gay e gritos de ordem por direitos iguais.

Estar em Nova York é alegórico para um grupo que capitaneia a luta pela igualdade salarial entre homens e mulheres no esporte e defende bandeiras contra o racismo e em favor da comunidade LGBTQ.

A cidade é conhecida por sua diversidade. O prefeito, o democrata Bill de Blasio, tem um discurso que ecoa fortemente entre minorias.

Um dos principais críticos a Trump no país, Blasio é pré-candidato à Casa Branca e foi quem chamou publicamente o presidente Jair Bolsonaro de homofóbico e racista. Disse que o brasileiro não era bem-vindo em Nova York e o fez desistir da viagem à cidade para receber um prêmio em maio.

Nesta quarta, durante a parada, o prefeito acenava ao público do alto de um dos carros, ao lado das jogadoras, enquanto sacudia uma bandeira dos EUA.

Com cabelos platinados e fala firme, Rapinoe acompanha Blasio no embate com Trump. 

Aos 33 anos, a atacante abertamente gay travou um conflito aberto com o presidente americano durante a Copa ao dizer que, se o time vencesse, não iria "à porra de Casa Branca."

Na véspera da parada, escalou o duelo ao afirmar que a mensagem de Trump exclui pessoas como ela, negros e até mesmo americanos que talvez o apoiem.

"Você está voltando a um tempo que não era bom para todo mundo. Pode ter sido bom para poucas pessoas, e talvez os EUA sejam bons para algumas pessoas agora, mas não para americanos suficientes. Você tem a incrível responsabilidade, como chefe desse país, de cuidar de cada pessoa, e você precisa fazer o melhor para todos", disse a jogadora em entrevista à CNN nesta terça (9).

Não foi só a bandeira dos Estados Unidos que marcou presença: diversas pessoas levaram bandeiras de cores que representam o orgulho LGBT
Não foi só a bandeira dos Estados Unidos que marcou presença: diversas pessoas levaram bandeiras de cores que representam o orgulho LGBT - Angela Weiss/AFP

"Sim para todo mundo que quiser nos convidar, ter uma conversa realmente substantiva e que acredita nas mesmas coisas em que nós acreditamos", completou a jogadora, reforçando que não irá à Casa Branca.

Teve o apoio das colegas. Além do embate com o presidente, Rapinoe liderou o grupo de 28 jogadoras dos EUA que decidiram processar em março a federação de futebol para pedir pagamento igual ao dos homens.

A luta não é inédita. Torcedores nesta quarta lembravam que a seleção de 1999 já pedia para receber o mesmo que os homens —que nunca ganharam um título mundial— e que o movimento mais organizado ganha força há pelo menos quatro anos. 

Reconheciam, porém, que o discurso enérgico e o simbolismo de alguns atos das jogadoras —Rapinoe se recusa a cantar o hino antes dos jogos, por exemplo, em protesto contra o racismo— são cada vez mais motivadores.

Erich Bussing, 32, era um dos que se espremiam para ver as jogadoras entre as ruas bloqueadas sob o sol de 30ºC que fazia nesta quarta em Nova York.

Para ele, o embate político que as jogadoras travam é o mais admirável quando se trata da seleção.

"Adoro o ativismo delas e as lutas que elas estão travando, especialmente diante de um governo como o de Trump."

Após uma hora atravessando o centro financeiro de Nova York, o grupo chegou à prefeitura, onde recebeu as chaves da cidade das mãos de Blasio. Algumas jogadoras fizeram pequenos discursos de agradecimento, após Rapinoe imprimir o recado que queria diante dos torcedores.

O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, discursa durante o evento
O prefeito de Nova York, Bill de Blasio, discursa durante o evento - Carlo Allegri/Reuters

A parada em Manhattan é simbólica e tem 133 anos. Entre a famosa chuva de papel picado e as fanfarras ladeadas por bandeiras americanas, milhares de pessoas já receberam os primeiros astronautas a pisarem na Lua, soldados que voltaram da Primeira Guerra Mundial e celebraram a inauguração da icônica ponte do Brooklyn.

Foram 206 paradas desde 1886, e esta é a segunda vez que o time de futebol feminino é homenageado dessa forma no país —a primeira foi em 2015, quando o grupo que conquistou o tricampeonato na Copa do Mundo do Canadá também desfilou em Nova York.

A tradição da chuva de papel picado começou no final do século 19, quando máquinas de cotação de ações eram instaladas no alto dos prédios. As fitas telegráficas de 2,5 centímetros eram arremessadas lá de cima.

As janelas das construções modernas, porém, não abrem mais, e as máquinas deram lugar a computadores, fazendo com que a logística para a parada precisasse ser adaptada. 

Autoridades distribuem hoje confetes e papel picado reciclado para que o efeito seja parecido com o que existia nas décadas passadas.

Segundo a prefeitura de Nova York, cerca de 30 toneladas de lixo eram esperadas com a passagem da parada nesta quarta, e 350 trabalhadores foram chamados para ajudar na limpeza ao lado de caminhões e aspiradores.

O gabinete de Blasio estima que a parada de 2015 tenha custado cerca de US$ 1,5 milhão (R$ 5,7 milhões) ao governo municipal, mais a verba de patrocinadores, que chegou a US$ 450 mil (R$ 1,7 milhão). Os dados do desfile desta quarta ainda não foram divulgados.

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