Estar abaixo de Marta não deveria ofender um homem, diz pesquisadora

Para Brenda Elsey, não há por que separar recorde das Copas masculina e feminina

Bruno Rodrigues
São Paulo

​O gol de Marta contra a Itália, que classificou o Brasil ao mata-mata da Copa do Mundo na França, foi seu 17º em Mundiais. Uma estatística que levantou o debate: Marta é a maior artilheira de todas as Copas? Ou ela é a recordista do evento feminino? Seria possível comparar sua marca à de Miroslav Klose, maior goleador do evento masculino, com 16 gols?

Para a Fifa, não há um ranking unificado de artilheiros. A entidade diz que classifica a Copa do Mundo feminina e a Copa do Mundo masculina como duas competições separadas. Assim, Marta é considerada a maior artilheira do Mundial feminino, e Klose, o maior do Mundial masculino.

Historiadora e pesquisadora do futebol feminino na América Latina, a americana Brenda Elsey, 44, defende a inclusão da camisa 10 da seleção brasileira na mesma lista que tem o alemão, Ronaldo, Abby Wambach e outros goleadores históricos do Mundial.

“Por que separar? Você sabe quem é quem. Não sei por que homens ficariam ofendidos em estar abaixo de Marta. Se você fica, isso diz algo sobre você. E geralmente é misoginia”, afirma Elsey à Folha.

Para a professora da Universidade Hofstra, de Nova York, nos últimos anos o esporte tornou-se parte da agenda feminista. Nas últimas semanas, esse papel coube à Copa.

“Muitas das atletas da classe trabalhadora, que talvez não se viam no movimento feminista tradicional, se sentem identificadas com isso. Depois da derrota do Brasil, ouvimos jogadoras como Bárbara, Cristiane, todas elas falando e muito conscientes de que é o patriarcado que as coloca no lugar em que estão”, diz.

Quais histórias você acha mais interessantes a respeito do futebol feminino no Brasil?

É o único lugar nas Américas, até onde sei, que teve banimento legal dos esportes femininos. Na Inglaterra, por exemplo, você teve um banimento, mas foi da federação de futebol, não do país. O exemplo brasileiro é muito único e foi baseado em uma pseudociência, que até mesmo os médicos da época sabiam que não era real. Que não havia nenhum tipo de prejuízo à mulher que jogasse futebol. Muita gente disse que [a proibição] foi porque o futebol não era muito popular, mas descobrimos que havia uma liga no Rio em 1940 e que o futebol feminino esteve na inauguração do Pacaembu. Saber o que aconteceu com as mulheres que continuaram jogando foi o que nos fascinou.

Como as ditaduras da América do Sul ajudam a explicar o cenário atual da modalidade na região?

Quando você tem um governo que tenta impor o que é um padrão tradicional de papéis para cada gênero, fica muito mais difícil que as mulheres ocupem os espaços públicos. E elas precisam se quiserem jogar bola, certo? Ao mesmo tempo, durante as ditaduras, é também quando o futebol fica muito mais mercantilizado. Os interesses privados são cada vez maiores nos clubes. Então, o argumento vira o marketing, que o futebol feminino não é rentável desse ponto de vista. Antes você tinha a justificativa médica e outras que acabaram não se comprovando. Depois, a justificativa passa a ser a explicação de que você pode medir o interesse das pessoas por seu valor de mercado.

E o futebol feminino ainda é discutido sob essa justificativa do marketing?

Diria que a discussão ainda é muito parecida. Hoje estamos sob esse mesmo regime da lógica do mercado, de que apoiar o futebol feminino é como um favor, que os clubes vão perder dinheiro. Mas há razões fortes para lutar contra essa lógica. Há uma suposição que o futebol masculino por si só é rentável, mas, se você olhar o que o governo brasileiro gastou para a Copa do Mundo de 2014, veremos que eles estão sempre muito dispostos a investir no futebol masculino, porque é visto como um patrimônio nacional. Também é importante lembrar que, em 1970 e 1971, as mulheres organizaram sua própria Copa do Mundo, sem a Fifa. Em 1971, na Cidade do México, onde só participaram os mexicanos e os argentinos da América Latina, [o torneio] foi tão popular que o estádio Azteca, com capacidade para 110 mil pessoas, ficou esgotado para a final.

As seleções femininas de Chile e Argentina ficaram inativas nos últimos anos, mas conseguiram a classificação ao Mundial a partir da organização das atletas. Esse florescimento está relacionado aos movimentos feministas nesses países?

Absolutamente. Nos últimos quatro anos, grandes movimentos feministas pegaram o esporte como parte central de sua agenda. Isso é realmente fascinante e é também um movimento multifacetado. Muitas das atletas da classe trabalhadora, que talvez não se viam no movimento feminista tradicional, se sentem identificadas com isso. Depois da derrota do Brasil, ouvimos jogadoras como Bárbara, Cristiane, todas elas muito conscientes de que é o patriarcado que as coloca no lugar em que estão. Você também vê as feministas entendendo a importância do papel do esporte.

Você acompanhou o episódio do batom da Marta? O que achou?

Sim, eu vi. Achei o batom dela ótimo [risos]! Estamos em um ponto no qual Marta faz o que ela quiser fazer. Provavelmente, ela pôde escolher a cor que quisesse. Então acho que a escolha dela foi fantástica. Foi quase como uma objeção a tentar ficar mais bonita ou tipicamente feminina. É muito forte [o batom]. Não era sutil, é quase como uma pintura de guerra.

Marta está com 33 anos e já não vive mais seu auge. Como ainda aproveitar a repercussão que ela gera para desenvolver o futebol feminino?

A forma de honrar o legado dela é olhar estruturalmente para o que outras nações que têm programas de maior sucesso fizeram. Projetos escolares, educação. Eu discordo da Marta quando ela fala sobre as meninas quererem mais. Quando vou ao Brasil, vejo muito talento e muita vontade de jogar. Não acho que elas precisem de mais vontade. Elas precisam de estruturas mais claras e transparentes. Eu entendo o que Marta está fazendo e é muito inspirador para as meninas. Não estou criticando. Só estou dizendo que a ideia de que meninas precisam querer jogar mais não é uma falta de vontade, de talento. É uma falta de recursos. É realmente investir.

O que você pensa sobre a ideia de que reduzir o gol e o campo poderia fazer bem ao futebol feminino?

[Risos] Isso surgiu nos EUA também. Parece-me a pior ideia possível. Pense que a seleção feminina dos EUA entrou com um processo judicial por equidade salarial e de condições de trabalho. Mudar isso não só segrega meninos e meninas, mas mina o processo que elas estão tocando. Porque o time masculino poderia dizer então que eles têm um trabalho diferente, em um esporte diferente. É isso o que vai acontecer. E é ridículo. As goleiras não estão pedindo isso, não sofrem por causa disso. Elas jogam perfeitamente bem.

Outro ponto que esta Copa do Mundo levantou foi o recorde de gols da Marta em Mundiais. Você acha que os números dela e de Klose podem ser comparados?

A forma como essa discussão se estabelece é negativa. A pergunta mais interessante a se fazer é: como Marta chegou a esse recorde sem que o Brasil tenha chegado tão longe? Não há razão para segregá-los, e penso que não deveria ser visto como negativo incluir Marta na lista de recordistas. Por que separar? Você sabe quem é quem. Eu imagino que as pessoas estejam dizendo que o futebol feminino não é tão bom. Eu não conheço mulheres que se chateiem ao serem incluídas ao lado de homens, não sei por que homens ficariam ofendidos em estar abaixo de Marta. Se você fica, isso diz algo sobre você. E geralmente é misoginia.

Maiores goleadores das Copas do Mundo 

Feminina

  1. Marta (BRA) - 17 gols

  2. Birgit Prinz (ALE) - 14 gols

  3. Abby Wambach (EUA) - 14 gols

  4. Michelle Akers (EUA) - 12 gols

  5. Sun Wen (CHN) - 11 gols

  6. Cristiane (BRA) - 11 gols

  7. B. Wiegmann (ALE) - 11 gols

Masculina

  1. Miroslav Klose (ALE) -16 gols

  2. Ronaldo (BRA) - 15 gols

  3. Gerd Müller (ALE) - 14 gols

  4. Just Fontaine (FRA) - 13 gols

  5. Pelé (BRA) - 12 gols

Brenda Elsey, 44

Historiadora e pesquisadora de política, gênero, cultura pop e futebol na América Latina, além de professora de história na Universidade Hofstra, de Nova York. É autora de dois livros: "Futbolera: A History of Women and Sports in Latin America", com o também historiador Joshua Nadel, e "Citizens and Sportsmen: Fútbol and Politics in Twentieth-Century Chile".

Brenda Elsey, professora de História da Universidade Hofstra, de Nova York
Brenda Elsey, professora de História da Universidade Hofstra, de Nova York - Divulgação

Quando igualdade de gênero virou pauta na Copa do Mundo

Ada Hegerberg

Tetracampeã europeia com o Lyon e ganhadora da Bola de Ouro em 2018, a norueguesa Ada Hegerberg, 23, seria uma das grandes atrações do Mundial na França. Mas a atacante não joga pela seleção da Noruega desde 2017, segundo ela porque o futebol feminino não recebe a merecida atenção da federação local.

 
Marta

Após marcar o gol de pênalti contra a Itália, Marta apontou para sua chuteira, que não tinha nenhuma marca esportiva, mas sim o símbolo de uma campanha pela equidade de gênero no esporte e na sociedade, a Go Equal, que tem a brasileira como uma de suas representantes. Marta também é embaixadora global da ONU Mulheres.

Rapinoe

Defensora da igualdade racial e de gênero, a americana Megan Rapinoe também trava uma batalha contra o presidente de seu país, Donald Trump. Em entrevista a uma revista às vésperas do Mundial, ela foi perguntada se estava ansiosa para visitar a Casa Branca em caso de título na França. "Eu não vou à porra da Casa Branca", disse Rapinoe.

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