Luta por estabilidade une Tite a técnico novato da Argentina

Prestigiado até a Copa do Mundo, brasileiro precisa superar desconfiança

Alex Sabino Marcos Guedes
São Paulo

Há um ano, Tite chegava à Rússia como unanimidade na seleção brasileira, imaginando que a Copa do Mundo pudesse lhe render um lugar entre os principais clubes da Europa. No mesmo Mundial, Lionel Scaloni era um desconhecido auxiliar de Jorge Sampaoli na seleção argentina. Agora, eles se enfrentam sem que haja um abismo os separando.

A primeira semifinal da Copa América, na próxima terça (2), em Belo Horizonte, terá treinadores em situação relativamente parecida nos seus times. A lua de mel se encerrou com o fracasso de 2018, e Tite, 58, hoje é visto com desconfiança por parte dos torcedores e dirigentes.

Scaloni, 41, herdou temporariamente o posto de Sampaoli, solução provisória que pode virar permanente em caso de triunfo no Mineirão.

Diferentemente do argentino, o brasileiro tem a palavra de seu chefe, Rogério Caboclo, de que seguirá no cargo mesmo com derrota. Sabe, porém, que essas supostas garantias são perigosas e que só o título da Copa América lhe dará tranquilidade.

Foi por isso que o técnico retardou parte da renovação da equipe. Mesmo com contrato até o próximo Mundial, ele preferiu deixar 2022 para depois e apostou em jogadores experientes para vencer a Copa América. Entre desenvolver jovens e contar com a segurança de figuras conhecidas, escolheu a segunda opção, especialmente na defesa.

Do quarteto titular, só Marquinhos, 25, tem menos de 33 anos. O capitão é o lateral Daniel Alves, 36. Sinal de que a prioridade foi o curto prazo.

“Pressão eu senti no Guarany de Garibaldi”, diz Tite sempre que questionado sobre o assunto, referindo-se ao primeiro time que dirigiu.

Indagado sobre a mudança de percepção em torno de seu trabalho, ele lança mão de outras de suas frases recorrentes. “Não sei, mas minha visão sobre o Tite não mudou. São os mesmos valores éticos e morais.”

A campanha, até aqui, não fez o gaúcho recuperar o prestígio. A seleção foi vaiada em 3 das 4 partidas que disputou na Copa América, algo que pode mudar com um triunfo sobre a Argentina. Perder em território brasileiro para os arquirrivais, porém, pode fazer a confiança depositada no treinador pela CBF chegar ao fim.

Já Lionel Scaloni tem a oportunidade de ampliar uma estadia na seleção argentina que tinha todo o jeito de ser temporária. Ninguém acreditava que o ex-lateral de passagens discretas por times de Espanha, Itália e Inglaterra poderia ser uma escolha duradoura.

Uma vitória sobre o Brasil e a vaga na final da Copa América tornarão isso possível. Mesmo que seu futuro na seleção continue indefinido. Antes da classificação contra a Venezuela nas quartas de final, o diretor de seleções, Cesar Luis Menotti, disse que um novo projeto para a equipe começará após o torneio.

O treinador da Argentina, Lionel Scaloni, durante partida contra a Venezuela pela Copa América
O treinador da Argentina, Lionel Scaloni, durante partida contra a Venezuela pela Copa América - Douglas Magno - 28.jun.19/AFP

Scaloni ganha defensores por ter dado chances a jogadores sem grande experiência na seleção. Foram decisões que o fizeram, pelo menos para o público externo, fugir da imagem que atrapalhou outros técnicos: a de que escala só os amigos de Lionel Messi. As apostas em Pezzella e Saravia e as idas de Agüero e Di María para o banco foram vistas como corajosas.

Mas isso só vai ser considerado válido se a Argentina eliminar o Brasil no Mineirão. Porque após a derrota para a Colômbia e o sofrido empate com o Paraguai, era dado como certo que Scaloni seria demitido após a competição.

Com 13 jogos no comando da seleção, o ex-jogador tem oito vitórias, dois empates e três derrotas. A estatística foi turbinada por partidas fáceis, como contra Iraque, Guatemala e Nicarágua.

A escolha do presidente da AFA (Associação de Futebol Argentino), Claudio Tapia, por Scaloni foi para dar um período, mesmo que curto, de estabilidade à seleção. Principalmente depois do que aconteceu na Rússia, quando a indecisão, a falta de comando e as constantes mudanças de esquema tático de Jorge Sampaoli fizeram o elenco implodir.

Scaloni estava na delegação como assistente e, na visão dos dirigentes, sabe exatamente o que não deve fazer.

Seu jeito tranquilo também agradou a jogadores. A alguns mais veteranos, lembra o estilo de comando de Alejandro Sabella, técnico que levou o time à final do Mundial no Brasil, em 2014.

Mas o novato Scaloni, que antes de assumir a Argentina jamais havia sido técnico, não tem o mesmo carisma do treinador que fez história no Estudiantes (ARG), campeão da Libertadores de 2009, e deu a Messi o que ele mesmo considera ter sido seu período mais feliz na seleção.

A história de Scaloni na carreira de técnico é bem mais curta que a de Tite, dono de um currículo expressivo. Porém, no Mineirão, os dois comandarão Argentina e Brasil em situações semelhantes.

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