Descrição de chapéu
Copa América

Messi percebe não ter nada a perder e se aproxima de Maradona

Jogador lidera Argentina na Copa América, é expulso e dispara contra Conmebol

Alex Sabino

Cantei porque me deu vontade de cantar”.

Um ato tão simples como acompanhar as palavras do hino nacional antes do jogo fez os argentinos perceberem que aquele não era o Lionel Messi que estavam acostumados a ver. Ele jamais havia feito aquilo antes.

A Copa América dentro de campo acabou mal para a Argentina. Continua o jejum de 26 anos sem títulos. Mas fora das quatro linhas, Messi foi mais maradoniano do que nunca na sua carreira. Até seus colegas de elenco perceberam a diferença.

“Nós não deveríamos fazer parte dessa corrupção”, disse sobre a recusa a ir a campo para receber a medalha pela terceira colocação.

Ainda incomodam os dois possíveis pênaltis não revisados pelo VAR na semifinal, diante do Brasil.

Há a inevitável comparação com a imagem de Maradona insultando o então presidente da Fifa, João Havelange, após a Argentina perder para a Alemanha a final da Copa do Mundo de 1990 graças a uma penalidade inexistente marcada pelo árbitro mexicano Edgardo Codesal.

Alguma chave virou na cabeça de Lionel Messi aos 32 anos. O atacante, que antes carregava um eterno ar de enfado nas entrevistas e que evitava a imprensa a todo custo, se tornou desbocado, sincero e disposto a ser entrevistado. Um Messi irascível foi algo que muitos jamais pensaram ser possível ver.

Lionel Messi durante a partida contra o Brasil pela Copa América 2019
Lionel Messi durante a partida contra o Brasil pela Copa América 2019 - Nelson Almeida/AFP

Talvez tenha percebido, após nove eliminações com a seleção argentina, que ele é Lionel Messi, um dos maiores jogadores da história e cinco vezes eleito melhor do mundo.

Se ele não puder dizer o que lhe vier à cabeça no mundo do futebol, quem mais dirá?

Além dos gols, dos dribles e dos títulos, algo mais o separava do amor da torcida argentina: contestar. Ser mais Maradona o aproximaria da sua gente e o distanciaria da Espanha. Pessoas do seu próprio país ainda dizem que ele é espanhol, não argentino, por ter se mudado para a Europa aos 12 anos. Seus filhos falam catalão e nasceram em Barcelona.

Pouco importa que, 20 anos depois de ter deixado sua cidade natal, Messi ainda fale espanhol com sotaque de Rosário.

A Copa América de 2019 viu um Lionel líder. Algo que antes era inimaginável, já que todos sempre disseram que ele comandava com a bola nos pés e não no discurso. Era uma desculpa para afirmar que o camisa 10 não era bom com as palavras.

Foi Messi quem, depois da derrota na semifinal com o Brasil, reuniu os companheiros no vestiário e afirmou que a missão estava apenas começando. Lembrou que aquele grupo tinha muito a dar. Esse é o mesmo jogador que, ao ser escolhido capitão por Maradona na partida contra a Grécia, na Copa do Mundo de 2010, não conseguiu dizer nada aos colegas antes de entrar em campo.

Na saída do Mineirão na última terça (2), deu também o recado público que a torcida tinha de apoiar a nova geração de jogadores argentinos.

Ele fez apenas um gol no torneio: de pênalti, contra o Paraguai. Mas contra o Brasil teve uma de suas melhores partidas nos últimos tempos pela seleção. Vinha bem na disputa do terceiro lugar até ser expulso após discussão e troca de trombadas com Gary Medel, do Chile.

Messi expulso de campo? Isso é mais coisa de Maradona.

“Acho que o cartão vermelho foi uma revanche pelo que disse depois do jogo contra o Brasil”, disparou na Arena Corinthians.

Ter na cabeça perseguições e que o mundo conspira contra si também faz parte do psicológico do futebol argentino. Diego incentivou essa linha de pensamento algumas vezes na carreira.

Não é nem possível a Conmebol, entidade que teve três ex-presidentes presos por corrupção, reclamar de injustiça nas declarações do argentino neste sábado (6). E ele sabe disso.

O atacante pode ter visto que não há liberdade maior do que perceber que não há nada a perder. O que os dirigentes da Conmebol podem tirar dele? Quem é maior? Alejandro Domínguez, presidente da confederação sul-americana, ou Lionel Messi? Quem o torcedor conhece entre os dois?

Messi percebeu que, calado, não tem nada a ganhar. E pelo menos nisso fez igual ao seu ídolo (e de todos os demais argentinos) Diego Armando Maradona.

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