Rafael Nadal joga com relógio de R$ 3 milhões no pulso

Acessório de 20 gramas é usado por ele desde 2010, quando venceu o US Open

Simon de Burton
Paris | Financial Times

A abertura do torneio de Wimbledon prenuncia uma quinzena de estatísticas sobre o tênis que até mesmo os torcedores mais dedicados podem ter dificuldade de digerir: toneladas de morangos devoradas, hectolitros de champanhe consumidos, velocidades de saque, número de aces".

Os fãs dos relógios talvez se interessem pelo fato de que, entre os 128 jogadores de simples masculina do torneio, apenas um certamente jogará usando um relógio de luxo: Rafael Nadal, que acaba de conquistar seu 12º título no Aberto da França em Paris, usará seu Richard Mille RM27-03 "tourbillon" na quadra.

O relógio, que custa 712 mil libras (quase R$ 3,5 milhões), tem uma caixa característica, vermelha e amarela, que Nadal ajudou a projetar, inspirada pela bandeira da Espanha. Ele é feito de quartzo TPT, forte mas ultraleve, e é capaz de absorver a força dos golpes do tenista.

Nadal durante a partida de estreia no torneio de Wimbledon, em 2019, contra o japonês Yuchi Sugita
Nadal durante a partida de estreia no torneio de Wimbledon, em 2019, contra o japonês Yuchi Sugita - Andrew Couldridge-2.jul.19/REUTERS

Parcerias são um grande negócio para as marcas de relógios. Hublot e TAG Heuer investem US$ 100 milhões (R$ 386 mi) e US$ 90 milhões (R$ 347 mi) anuais, respectivamente, em patrocínios esportivos, enquanto as verbas anuais da Omega e Rolex são de, respectivamente, US$ 160 milhões e US$ 180 milhões (R$ 617 mi e R$ 695 mi), de acordo com a consultoria de esportes Sponsorize.

Nadal está associado aos relógios Richard Mille desde 2008. Falando em Paris antes do Aberto da França, ele explicou como surgiu a parceria. "Richard me contatou, veio à minha casa em Mallorca e colocou um relógio superpesado no meu pulso, dizendo que queria que eu o usasse jogando", disse o tenista. "Mas era uma brincadeira, um jeito de quebrar o gelo. A verdadeira ideia era criar um relógio forte o bastante para que eu pudesse usar enquanto jogo, mas tão leve que eu mal o sentisse".

O RM27, que pesa apenas 20 gramas, estreou com Nadal em 2010, quando ele venceu o Aberto dos Estados Unidos. Foi um começo difícil, no entanto — quando Nadal deixou o relógio cair no chão ao celebrar a vitória, o cristal do mostrador rachou. "Ficou levemente danificado", diz o tenista. "Richard [Mille] ficou com aquele relógio, e ainda o usa como símbolo de nossa amizade".

O objetivo de Mille é criar relógios tecnicamente avançados, e ele os coloca em contextos de risco, por exemplo nas quadras de tênis com Nadal e nos pulsos do automobilista Fernando Alonso e do golfista Bubba Watson.

Tim Malachard, vice-presidente de marketing da marca, diz que quatro modelos do tipo de Nadal já foram produzidos, cada qual em edições limitadas de 50 peças. Enquanto Nadal confere grande visibilidade à marca, ele também colabora em termos de pesquisa e desenvolvimento de novos modelos, de acordo com Malachard.

Marcas rivais de relógios também tentam aproveitar a grande popularidade do tênis. Roger Federer é um dos principais porta-vozes publicitários da marca Rolex desde 2006. Embora ele só use seu Oyster Perpetual DateJust II fora das quadras, o relógio está em seu pulso a cada vez que ele ergue um troféu.

Um quadro positivo para a marca é constatar que um atleta já é usuário, o que cria um relacionamento comercial mais autêntico. A Breitling contratou a tenista britânica Johanna Konta para sua "equipe", este ano, depois de descobrir que ela era dona de um Colt Chronograph há anos, diz Gavin Murphy, diretor executivo da marca no Reino Unido. Konta agora tem um SuperOcean Heritage para usar fora das quadras.

É irrelevante que os tenistas raramente usem os relógios durante as partidas, diz Sally Hancock, sócia administradora da consultoria de marca esportiva britânica Y Sport. "O que importa é aproveitar ao máximo as pessoas que representem a marca, em escala mais ampla, garantindo que elas usem o produto nas cerimônias de premiação, importantíssimas, e nos evento de maior destaque", ela diz.

Pode haver percalços nas parcerias, porém. A TAG Heuer, por exemplo, rompeu sua conexão com a estrela do tênis Maria Sharapova depois que ela foi apanhada em um exame antidoping em 2016. Andy Murray, do Reino Unido, parece ter perdido temporariamente seu relógio Rado na hora em que ia levantar o troféu do Aberto dos Estados Unidos em 2012. Ele também se atrapalhou na hora de usar o produto do patrocinador na cerimônia de premiação de Wimbledon, um ano depois - o relógio estava marcando a hora errada.

O mercado também está avançando para além das marcas de prestígio, de acordo com Hancock. À medida que o esporte tenta se abrir, atrai a atenção de fabricantes de relógios de preço mais acessível. Ela acrescenta que as marcas também estão patrocinando jogadores em ascensão, para atrair audiências mais jovens. O programa Rado YoungStar conta com tenistas como o chinês Jason Wu, 19, e com Ashleigh Barty, 23, a australiana que venceu o Aberto da França este ano. A aposta de apoiar jogadores mais jovens parece estar dando resultado, afirma Hancock. "Se esses atletas vierem a realizar grandes coisas, há uma chance de que se mantenham leais à marca".

Tradução de Paulo Migliacci

Erramos: o texto foi alterado

Versão inicial do texto informou que o forehand de Nadal é executado com o mesmo braço em que fica seu relógio, o direito, mas seu forehand é executado com o esquerdo. A informação foi corrigida.

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