Time que só perde, Sport tem zagueira no gol e não paga salários

Equipe pernambucana foi derrotada em todas partidas do Brasileiro feminino

João Valadares
Recife

São 11 jogos e 11 derrotas. Um gol marcado e 46 sofridos. Esse é o tamanho do vexame protagonizado até o momento pela equipe feminina de futebol do Sport Club do Recife no Campeonato Brasileiro deste ano.

O time até vinha de uma temporada promissora. Em 2018 conquistou o título invicto da Taça Nordeste, foi bicampeão pernambucano e conseguiu uma honrosa sexta colocação na primeira divisão nacional. Mas agora, o time virou a equipe que só perde, com rebaixamento já decretado, faltando quatro rodadas para o fim da competição.

A derrocada veio após o clube decidir, em fevereiro, não participar da competição em razão das dívidas acumuladas, que ultrapassam o patamar dos R$ 100 milhões.

Os contratos profissionais do time de 2018 foram todos desfeitos, e o departamento de futebol feminino, encerrado. As 20 atletas, todas com carteira assinada, precisaram sair do alojamento.

Um mês depois, sob o risco de o time masculino ser punido pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) pela inexistência de uma equipe feminina, a diretoria do clube reuniu às pressas um elenco para disputar o torneio.

"Montamos um time na sexta-feira para jogar na quarta. Ainda treinamos no sábado e na segunda antes do primeiro jogo [derrota por 3 a 0 para o São Francisco-BA]", diz a coordenadora de futebol feminino do clube, Janira Ricardo.

O clube recorreu às categorias de base do Ipojuca, um time amador do Grande Recife, para montar o elenco. O improviso é tamanho que a zagueira Janaina Barros teve que começar a jogar como goleira.

O elenco do Sport conta hoje com 25 atletas. Elas não têm contrato de trabalho com o clube e não recebem salários. As jogadoras recebem apenas uma ajuda de custo, com valor entre R$ 300 e R$ 400, e uma quantia para a passagem de ônibus. O valor do auxílio não foi informado pelo clube.

Houve um desinvestimento de aproximadamente 70% em relação aos dois últimos anos no time. A situação de penúria foi exposta pela meia Sofia Sena. Ainda no gramado, após sofrer 9 a 0 do Santos na última rodada, realizada no sábado (13), desabafou.

 

"Elas [as jogadoras do Santos] treinam todos os dias e a gente mal tem horário para treinar. Elas convivem com a bola e a gente mal toca na bola. Falta foco do clube em nós. Falta o investimento que a gente não tem de nenhuma forma", disse a jogadora.

Já o time masculino, que caiu para a Série B do Brasileiro no ano passado, teve uma redução de folha salarial de R$ 2,2 milhões para R$ 800 mil neste ano. Ainda assim, manteve um time profissional, com jogadores sob contrato. Campeão pernambucano , a equipe está na quarta posição da segunda divisão.

 

Nesta quinta-feira (18), as leoas, como são apelidadas as jogadoras do time feminino do Sport, entram em campo para enfrentar o São José. O jogo ocorre no estádio Ademir Cunha (com capacidade para 12.000 pessoas), em Paulista, no Grande Recife.

"Acho que por mais que digam que o futebol feminino alcançou uma visibilidade grande, ainda é um esporte muito frágil. A prova está aqui. Isso faz com que os olhos de fora não nos enxerguem", diz Sofia.
Jogando duas competições, o Brasileiro e o Pernambucano, as jogadoras treinam em um campo auxiliar da Ilha do Retiro, no Recife. O gramado não tem marcação, o terreno é completamente irregular, e a grama, sem corte, apresenta tufos em várias partes.

Em muitos pontos, a bola some ao ser engolida pelo mato alto. "A máquina de cortar a grama está quebrada", diz Janira Ricardo.

Gramado no CT está tão alto que em alguns setores simplesmente esconde a bola
Gramado no CT está tão alto que em alguns setores simplesmente esconde a bola - Leo Caldas/Folhapress

"As condições do clube não estão boas. Afeta tudo. Nem por isso a gente vai deixar de treinar", afirma a treinadora do Sport, Keila Felício.

Em 2017, quando o futebol feminino no clube foi reativado após ser interrompido em 2014, o Sport investiu aproximadamente R$ 550 mil. Em 2018, o aporte anual chegou a R$ 700 mil. As jogadoras dormiam no alojamento do clube, tinham alimentação, suplementação, faziam treinos diários no mesmo centro de treinamento utilizado pelo time masculino e academia.

Keila lembra que o elenco atual é reduzido. Não há comissão técnica. "É ela por nós e nós por elas", resume.

Além das jogadoras, compõem a equipe apenas a treinadora, uma roupeira e um massagista. Nos dois últimos anos, havia auxiliar técnico, preparador de goleiras e preparador físico. Todas as funções hoje são acumuladas por Keila. Os jogadores das categorias de base do time masculino do Sport usam toda a estrutura do elenco profissional.

Janira afirma que as jogadoras não estão treinando no CT principal do clube por uma questão de logística. Grande parte do elenco mora em cidades do Grande Recife.

"Elas teriam que chegar muito cedo aqui para nos deslocarmos até o centro de treinamento. Ficou inviável", diz.

Sobre o péssimo desempenho do time no Brasileiro, a treinadora afirma que é resultado da situação financeira difícil pela qual o clube passa.

 

"Temos atletas no elenco que nunca participaram de uma competição em nível nacional. Outras que nunca vivenciaram nem uma série A2 e se encontram hoje dentro da elite do futebol feminino brasileiro", afirma Keila.

O presidente do Sport, Milton Bivar, afirma que a equipe feminina está nessa situação porque precisou cortar o investimento para garantir a sobrevivência do clube. O cartola assumiu o cargo em 2019.

"Quebraram o clube. Peguei o Sport numa situação difícil demais. Tínhamos um time feminino todo de fora, com hospedagem todo tempo. Não temos mais condições de fazer isso. Cortei em várias áreas, não só no feminino", diz.

Campanha do Sport no Brasileiro feminino

11 jogos
11 derrotas
46 gols sofridos
1 gol marcado

  • rodada, São Francisco 3x0 Sport
     
  • 2ª rodada, Sport 0x1 Kindermann
     
  • 3ª rodada, Foz Cataratas 2x0 Sport
     
  • 4ª rodada, Sport 0x7 Corinthians
     
  • 5ª rodada, Sport 0x5 Vitória
     
  • 6ª rodada, Internacional 4x0 Sport
     
  • 7ª rodada, Flamengo 6 x 0 Sport
     
  • 8ª rodada, Sport 1x2 Kindermann
     
  • 9ª rodada, Ponte Preta 5x0 Sport
     
  • 10ª rodada, Sport 0x2 Ferroviária
     
  • 11ª rodada, Santos 9x0 Sport
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