Torcida gay marcou era de títulos do Grêmio e teve Renato como xodó

Coligay tinha cantos para os jogadores e o atual técnico como ídolo

Fernanda Canofre
Belo Horizonte

​Havia algo novo nas arquibancadas do Rio Grande do Sul no dia 10 de abril de 1977. 
Um grupo agitado, com bandeiras em azul, preto e branco, cantando e dançando para apoiar o time. Eram cerca de 60 pessoas, e seis delas vestiam uma espécie de túnica listrada, cada um com uma letra: G-R-Ê-M-I-O. 

Era a estreia da Coligay. O Grêmio recebia o Santa Cruz, pelo Campeonato Gaúcho, no estádio Olímpico. O último título estadual do clube tricolor já tinha nove anos. De 1969 a 1976, os gremistas assistiram ao Internacional erguer o troféu oito vezes. 

Enquanto o time da casa encaminhava a vitória por 2 a 1, nas arquibancadas as coisas esquentaram. Um grupo de torcedores tentou agredir a torcida estreante, e a Brigada Militar (PM gaúcha) foi chamada para intervir e acalmar os ânimos.

A ideia de uma torcida gay veio de Volmar Santos, 71, gremista e, na época, gerente de uma famosa boate LGBT de Porto Alegre: a Coliseu.

“Um dia fui ao campo e senti que a torcida era muito fria. Não animava os jogadores. Saí de lá com o pensamento de fazer uma torcida organizada para o Grêmio. Mas de onde eu ia tirar o pessoal? Daí, pensei: se eu era dono da Coliseu e estava lá todo aquele povo, vamos botar as bichas”, conta. 

Quando a festa acabava dentro da boate, por volta das 5h, Volmar trancava as portas e ninguém deixa o local. Servia café para manter a torcida acordada e seguiam juntos rumo aos jogos.

Com o tempo, a Coligay virou atração nas arquibancadas, e a diretoria também reconheceu a torcida. A bateria era puxada pelo lendário Neri Caveira, mestre da escola Imperadores do Samba de Porto Alegre. Alguns jogadores ganhavam versos exclusivos.

O carro do atacante Baltazar, que carregava uma Bíblia debaixo do braço, volta e meia era cercado aos gritos: “Vamos todas para o altar que chegou o Baltazar!”. O goleiro Manga ouvia: “Com tanga ou sem tanga, queremos o Manga”. Jurandir tinha coro ensaiado. Alguém gritava “Jurandir!”, e o resto respondia: “meu marido!”.

Segundo uma reportagem da revista Placar, impressa em páginas cor-de-rosa, nem todo mundo aprovava a novidade. O líder da torcida Eurico Lara, a organizada oficial, José Buaes, bradava: “Lamentável, lamentável! Uma vergonha! Quem poderia imaginar que isso viesse a acontecer com o nosso Grêmio?”. Um torcedor confessava que queria “comandar uma pauleira contra eles".

Léo Gerchmann, autor do livro “Coligay - Tricolor e de Todas as Cores” (Ed. Libretos, 2014), ouviu uma travesti que fez parte da torcida. Mesmo em meio a uma torcida gay, ela usava roupas masculinas no estádio para evitar problemas. Por precaução, a Coligay tinha sempre seguranças, e Volmar colocouos integrantes para fazer aulas de caratê.

O episódio mais sério ocorreu justamente na sua cidade natal, Passo Fundo. O jogo era contra o Sport Club Gaúcho, time para o qual ele torceu quando criança, puxando os cantos da charanga. 

A Coligay ficou nas arquibancadas, atrás de um dos gols do estádio Wolmar Salton. Um dos torcedores que estava na última fila, no alto, lançou uma laranja e acertou o rosto de um dos integrantes da organizada. “A bicha subiu correndo e quebrou ele a pau”, lembra Volmar.

Ele tentava manter tudo sob controle. Era época da ditadura militar, e o chefe da Delegacia de Costumes da época admitiu à Placar que “estavam de olho nos rapazes”, mas que não haviam notado “nenhuma atitude inconveniente”. “Nem a faixa que os identifica como homossexuais é ilegal”, completava. 

Em 1977, o Grêmio venceu o Campeonato Gaúcho, e a torcida ganhou fama de pé quente. No mesmo ano, o presidente do Corinthians, Vicente Matheus, pagou a viagem para ter a Coligay cantando para o seu time —vestindo as cores do Grêmio. No jogo contra a Ponte Preta, com gol de Basílio, os alvinegros voltaram a ser campeões estaduais.

Nos seis anos em que a Coligay acompanhou o time, o Grêmio conquistou o primeiro campeonato brasileiro (1981), a primeira Libertadores (1983) e virou campeão do mundo (1983). 

O grupo de Volmar ainda ajudou com a campanha do cimento, lançada pelo então presidente Hélio Dourado, que angariou fundos para completar o anel superior do estádio Olímpico.
 
Ao mesmo tempo, a boate Coliseu, casa da torcida, passou a ser frequentada por jogadores do Grêmio e do Inter. Vez ou outra, Telê Santana, técnico gremista, mandava alguém da comissão técnica ou ia pessoalmente fazer uma ronda por lá.

Alertado pela portaria, Volmar escondia os jogadores no escritório. Até hoje, ele não entrega os nomes. “Existe muita homofobia no futebol. Existe muitas bichas também que não se assumem”, afirma.

Em 1982, a Coligay seguia na torcida quando Renato Gaúcho estreou em campo. O atual técnico do Grêmio, ídolo tricolor, era xodó para a organizada, que duraria mais um ano. Volmar teve que voltar a Passo Fundo para cuidar da mãe, e a Coligay parou logo depois.

Em entrevista à Folha, publicada no dia 7 de julho, o agora técnico do Grêmio fez comentários sobre a homossexualidade no futebol.

“O que eu acho é o seguinte: se tem um gay na música é normal, se tem um gay ator é normal, se tem um gay em qualquer outra profissão é normal. Mas se tem um gay no futebol, vira notícia mundial. Por quê? Não entendo isso”, afirmou Renato. 

“Se eu tenho um jogador gay, vou sacanear ele de manhã, de tarde e de noite. Eu quero é que ele jogue. O que não pode é misturar as coisas: entrar no vestiário de sacanagem por ser gay e levar mais para o lado gay dele do que para o trabalho. Aí ele tá fora comigo”, disse o técnico. 

Em 2009, uma faixa com o nome da torcida voltou a aparecer na Venezuela, em um jogo do Grêmio contra o Caracas, na Libertadores. Na época, foi noticiado como “provocação” aos gremistas. O responsável, porém, era um dos antigos integrantes, Elton. “É uma das poucas que não virou purpurina ainda”, diz Volmar.

Atualmente, um movimento dentro da torcida gremista tenta reivindicar com orgulho a história de vanguarda da Coligay. “Trazer à luz o legado da Coligay é antes de mais nada um grito contra a LGBTfobia, a intolerância e o preconceito nos espaços de futebol e na sociedade”, diz Roger Canal, integrante da torcida Tribuna 77.

Volmar trabalha como colunista social em Passo Fundo, a quatro horas de distância da Arena. Ele diz que ainda vai ao estádio torcer pelo Grêmio quando pode, mas não costuma ser reconhecido. 

“O Grêmio é tudo para mim, tchê. Eu choro por causa do Grêmio, fico triste quando perde. Quero sempre que ganhe”, diz. “Me emocionei quando o Everton [Cebolinha] fez o gol do Brasil [na final da Copa América]”.

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