Descrição de chapéu Copa do Mundo Feminina

Um pouco de vergonha pública não machuca, diz Rapinoe sobre vaias à Fifa

Campeã mundial com os EUA, atacante crê que é hora de andar com discussão sobre futebol feminino

Vicky Dearden
Lyon (França) | The Interview People

A atacante da seleção americana Megan Rapinoe, 34, virou símbolo da Copa do Mundo mais politizada da história do futebol feminino.

Gay e ativista nas bandeiras por igualdade racial e de gênero, a camisa 15 subiu o tom político antes mesmo do início do Mundial, afirmando que não iria “à porra da Casa Branca” se os Estados Unidos fossem campeões, em um conflito direto com o presidente americano Donald Trump.

A atacante da seleção americana Megan Rapinoe com sua medalha de campeã do mundo no peito após a partida final do campeonato
A atacante da seleção americana Megan Rapinoe com sua medalha de campeã do mundo no peito após a partida final do campeonato - Lucy Nicholson - 7.jul.2019/Reuters

A declaração da atleta provocou a reação de Trump, que desafiou Rapinoe a vencer antes de falar. E foi justamente o que ela e a equipe nacional dos EUA fizeram na França, conquistando o tetracampeonato mundial para o país.

Campeã, aproveitou o desfile do título em Nova York e os dias subsequentes para mandar um recado ao presidente.

Sua mensagem está excluindo as pessoas. Você está me excluindo, excluindo pessoas que se parecem comigo, excluindo pessoas de cor, você está excluindo americanos que talvez apoiem você”, disse.

Ainda celebrando o título da Copa do Mundo, em Lyon, Rapinoe falou em entrevista ao The Interview People que concordou com as vaias ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, presente na decisão do torneio, e opinou sobre o que ela acredita serem os próximos passos que o futebol feminino precisa dar.

Qual é a sensação de ganhar a Copa do Mundo?

Não sei. Somos loucas, e é isso que nos torna especiais. Nunca desistimos. Somos muito unidas, e fazemos qualquer coisa pela vitória. Há algo de especial nesse grupo, uma sensação de “nada vai nos desunir”, e creio que isso queria dizer que ninguém nos derrotaria. Acho que durante todo o torneio, era essa sensação que passávamos.

Fale sobre seu jeito de comemorar gols, na bandeirinha de escanteio, como ao marcar de pênalti na final. Como você pensou nisso? Agora virou até estampa de camiseta.

Sim. Quero minha parte das vendas! (Risos) Não sei dizer. Parecia a coisa certa no momento. Eu em geral faço o que me vem na cabeça, e mudo bastante meu jeito de celebrar. Mas pareceu a coisa certa naquela hora, ser a pessoa que eu sou, as coisas em que acredito, com um grande sorriso no rosto. Digo isso sobre meu time e todas as mulheres que jogaram no torneio e jogam no mundo todo. Acho que é emblemático daquilo por que passamos e continuamos a passar, e no entanto continuamos a oferecer esse belo produto em campo. A comemoração parecia estar funcionando bem, talvez por um pouco de sorte, e não pensei em nada de novo naquele momento. Então a mantive.

Houve algo de especial nesse torneio, algo que o time e você tiveram de superar para conquistar uma vitória tão convincente? Certamente. Essa vitória certamente é mais especial que qualquer outra realização que tenhamos conseguido. Foi um ciclo longo, trabalhoso e difícil. Obviamente tivemos um milhão de coisas a enfrentar no torneio. E muita briga ainda nos aguarda em casa. Mas a vitória é prova da força desse time e da maneira pela qual nos unimos como grupo, em meio a todas as adversidades, sem permitir desunião.
 
Você mencionou a briga que as aguarda em casa. Como é que o grito da torcida pedindo pagamento igual para as mulheres [na final em Lyon] fez com que você se sentisse?

Muito bem. O mundo todo nos apoia.
 
A torcida também vaiou o presidente da Fifa. O que você achou disso? 

Acho que todo mundo está pronto para que o diálogo avance para a próxima etapa. “Valemos pagamento igual? Devemos tê-lo? Os mercados são os mesmos?” Todo mundo já decidiu sobre isso. A torcida já decidiu sobre isso. As jogadoras idem. Vamos avançar para o próximo ponto, para o que fazer a seguir. Como apoiar as federações e programas de futebol feminino em todo o mundo. O que a Fifa pode fazer nesse sentido? O que podemos fazer em apoio às ligas em todo o planeta? Não acho que isso seja surpresa.

Todas as jogadoras da Copa fizeram a melhor exibição que se poderia desejar. Não temos como fazer algo que impressione mais, não temos como ser embaixadoras melhores, assumir mais responsabilidades, jogar melhor, fazer qualquer outra coisa. É hora de levar a conversação adiante, dar o próximo passo. Um pouco de vergonha pública não machuca, certo? Portanto, apoio as vaias.

Depois da vitória, a hashtag “Dinastia” estava bombando no Twitter —o que isso quer dizer para você, o fato de que tenham conseguido esse sucesso e que este tenha sido só o mais recente capítulo do processo? 

Ah, adoro ouvir isso. Quero dizer, é óbvio que aquelas de nós que fazem parte do grupo há um bom tempo se orgulham bastante do nível que conseguimos sustentar, mas não só isso —do fato de que subimos de patamar a cada vez que nos pedem que o façamos. Isso é muito bacana. Temos um grupo de tanto talento e tão maravilhoso, e de vez em quando filtramos novas superestrelas. Como Rose [Lavelle]. Sua primeira Copa do Mundo e ela já recebeu a Bola de Bronze. Isso é incrível, considerando as meio-campistas que tínhamos na Copa, e dentro de nosso time. Isso é absolutamente insano. Portanto, gosto da ideia de uma dinastia.
 
Vocês tiveram concorrência forte no torneio. A força que as demais seleções estão ganhando a preocupa? 

Adoro o fato de que os outros times estão melhorando. Mas quem quiser disputar a coroa vai ter de batalhar muito, porque não planejamos abandoná-la.

A seleção dos Estados Unidos já tinha conquistado a Copa do Mundo anteriormente. Você acha que a mentalidade da seleção foi um diferencial para vencer a final? 

Sim, acredito que sim. Creio que aprendemos com a nossa experiência durante todo o torneio. Tivemos jogos incrivelmente difíceis, jogos em que não fomos tão bem, jogos em que fomos pressionadas, muita pressão, seleções extremamente difíceis a superar. Por isso, acho que para nós, especialmente as jogadoras mais velhas, poder carregar boa parte dessa carga e estabelecer o exemplo certo para as mais jovens é certamente um grande motivo para o nosso sucesso.

E aprendemos isso, obviamente, com o exemplo de Abby [Wambach], Christie [Rampone] e assim por diante. Aprendemos a integrar as jogadoras mais jovens e a permitir que elas curtam a situação e que nos acompanhem no processo. E acredito que nenhuma seleção tenha mais experiência em mata-matas, em conseguir força que nem sabíamos ter para chegar ao próximo estágio. É o que caracteriza este time.
 
O jogo ficou 0 a 0 por boa parte da final, e aí veio o pênalti e a decisão enfim virou. Você pode nos dizer o que aconteceu?

Sim. Foi Alex [Morgan] jogando agressivamente na área, obviamente, como ela fez durante todo o torneio, lutando pela bola. Nesta Copa, pedimos que ela fizesse um papel um pouquinho diferente, e ela aderiu sem hesitar. Ela vem encarando mais as defensoras, e fez a mesma coisa na jogada do pênalti. E lá estávamos nós recorrendo ao VAR de novo, e o VAR se provando em uma final de Copa do Mundo. Tentamos manter a frieza, a calma, e colocar a bola na rede.
 
Qual foi sua sensação ao assistir ao gol de Rose Lavelle [o segundo da vitória por 2 a 0 sobre a Holanda na final]? 

Era só o que estava faltando para ela, só esse detalhe, por todo o torneio. Ela vinha driblando, sempre com perigo, abria espaço para todas nós, e que ela tenha recebido essa recompensa no maior dos palcos possíveis me enche de orgulho. Ela é uma superestrela, não uma superestrela em ascensão, e sim uma superestrela confirmada.

A treinadora Jill Ellis é a primeira mulher —ou homem— a ganhar duas Copas do Mundo consecutivas no comando de uma seleção desde a década de 1930. Como jogadora, o que acha disso? 

Cara, isso é muito impressionante. Ela vai nos agradecer um dia. [Risos] É óbvio que o retrospecto, as vitórias e os títulos falam por si, claro. Sabemos que nosso grupo de jogadoras é super talentoso, e que a comissão técnica também é muito talentosa, de cima a baixo. Sou parcial, mas acredito nisso, que temos o melhor pessoal, uma comissão técnica de classe mundial. E o crédito por isso cabe a ela, com certeza.
 
Por fim, como campeã da Copa do Mundo, houve um momento que a tenha inspirado nesse torneio? 

Meu Deus, não acho que haja um momento específico. Havia coisas demais acontecendo. A cereja no bolo foi o gol de Rose [Lavelle], uma culminação da Copa fantástica que ela teve. Mas tudo mais, por exemplo Kriegs [Ali Krieger] entrando para jogar uma final de Copa depois de dois anos fora da seleção, a comemoração de Christen Press, o gol de Rose, a defesa de pênalti por Alyssa [Naeher]. Tudo isso foi uma loucura. Todas as nossas celebrações, toda a atenção, tudo que conquistamos é maravilhoso. Nem tenho palavras.

Tradução de Paulo Migliacci
 


Megan Rapinoe, 34

Cocapitã da seleção americana feminina de futebol, a atacante é abertamente gay e defensora de bandeiras de igualdade racial e de gênero. Bicampeã do mundo com os EUA (2015 e 2019), é também medalhista olímpica de ouro com a equipe (Londres-2012). Além de clubes americanos, jogou no futebol francês e na Austrália

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