Descrição de chapéu Tóquio 2020 Pan-2019

Velejadoras encaram maratona por feito raro no esporte brasileiro

Campeãs olímpicas no Rio, Martine e Kahena buscarão nova façanha em Tóquio

São Paulo

Na Olimpíada de Tóquio-2020, quando estarão com 29 anos, as velejadoras Martine Grael e Kahena Kunze tentarão repetir um feito raríssimo no esporte brasileiro.

Com exceção das modalidades coletivas, até hoje apenas Adhemar Ferreira da Silva ganhou duas medalhas de ouro em edições consecutivas dos Jogos Olímpicos. A façanha dele no salto triplo foi alcançada em Helsinque-1952 e Melbourne-1956.

Desde então, nem mesmo Robert Scheidt, 46, e Torben Grael, 58, cada um com cinco medalhas olímpicas na vela e duas delas de ouro, conseguiram subir ao principal lugar do pódio em sequência.

Para chegar ao Japão em condições de manter o status de campeãs da classe 49er FX obtido na Olimpíada do Rio-2016, a dupla vem encarando uma maratona que, como brinca Martine, passará “pelos cinco cantos do mundo.”

Neste ano, elas já competiram em Miami (EUA), Maiorca (Espanha), Gênova (Itália) e Weymouth (Inglaterra) —venceram três desses eventos.

Como preparação para os Jogos Pan-Americanos de Lima, as brasileiras treinaram em Portugal e no Japão, numa tentativa de se adaptarem às condições do mar que encontrarão na Olimpíada, com mais chances de ondas.

As provas da modalidade serão realizadas na ilha de Enoshima, ao sul da capital japonesa. A possibilidade de eventos climáticos como tufões e tsunami será um desafio a mais para os velejadores.

Depois do Pan, elas voltarão ao Japão a dois dias do evento teste dos Jogos. A temporada se esticará até dezembro, com o Mundial da classe 49er FX em Auckland, na Nova Zelândia.

“A gente faz o nosso trabalho no dia a dia, tenta sempre melhorar, mas conseguir uma medalha de ouro, prata ou bronze será consequência. Se a gente trabalhar duro até lá, quem sabe, de repente, talvez, a medalha venha, mas sem pressão [risos]”, diz Kahena em entrevista à Folha.

Medalhistas de ouro na Rio-2016, Thiago Braz (salto com vara) e Rafaela Silva (judô) deverão estar em Tóquio e também poderão repetir o feito. Mesmo caso dos jogadores de vôlei de praia Bruno Schmidt e Alison Cerutti, campeões em casa, mas que agora atuam com outros parceiros.

Agora que a rotina de preparação para a Olimpíada se impõe, elas valorizam mais a pausa de oito meses que tiveram do fim de 2017 ao meio de 2018. Mesmo que a pausa não tenha significado descanso no caso de Martine. Ela usou o período para participar da Volvo Ocean Race, principal regata de vela oceânica do mundo.

“O que eu mais trouxe [para a vela olímpica] é o quanto tenho de energia guardada. Quando fiz a regata, tive um gasto de energia que eu nem sabia que tinha na reserva”, afirma a filha de Torben.

De fato, encarar uma competição de volta ao mundo exigiu da velejadora um esforço grandioso. “Fiquei um ano sem dormir direito, comendo comida muito ruim, dormindo pouquíssimo, no limite do cansaço”, ela conta.

Kahena, que usou esse período para retomar a graduação em engenharia ambiental na PUC do Rio de Janeiro, brinca com a parceira: “Para mim foi bem confortável, dormi bastante e comi super bem.”

Nesse oito meses, elas treinaram algumas vezes juntas, para não perder completamente o ritmo, mas sabem que só agora estão retomando o nível de preparação ideal. No Mundial de classes olímpicas da Dinamarca, no ano passado, ficaram em quarto lugar.

“A vela é um somatório de vários erros repetidos. Você errou tantas vezes até que uma hora conseguiu acertar, então cada experiência soma”, afirma Martine.

Com a rotina pesada de treinamentos dentro e fora da água, não sobra muito tempo para outra tarefa que elas consideram essencial: a busca por novos apoiadores.

As atletas são patrocinadas pela Petrobras e tem os custos para participar das principais competições bancados pela Confederação Brasileira de Vela e pelo Comitê Olímpico do Brasil. Ainda assim, Martine diz que, num esporte caro como a vela, onde os preços para manutenção e transporte do barco são altos, toda ajuda faz diferença.

“Depois do Rio, vários patrocinadores saíram. Se para a gente que tem medalha olímpica já é difícil, imagina para as pessoas que estão começando. Nós mal estamos no Brasil, isso às vezes dificulta, mas continuamos em busca mesmo nesse momento momento de cortes do governo.”

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