Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro

Antes de Sampaoli, argentino foi campeão brasileiro com um jogo

Carlos Volante chegou ao Bahia antes da última final e foi campeão em 1959

Alex Sabino
São Paulo

Carlos Martín Volante morreu em 1987, mas continua dono de trajetória sem igual no futebol sul-americano.

Casado com uma mulher da alta sociedade de Turim, foi vaiado pelas duas torcidas em um mesmo jogo, é ídolo do Flamengo, deu nome a uma posição no futebol, fez parte da seleção brasileira em Copa do Mundo e tem um feito que Jorge Sampaoli, que dirige o Santos, líder do Brasileiro, e Jorge Jesus, do Flamengo, sonham igualar.

Volante é o único técnico estrangeiro campeão brasileiro. E ele precisou de apenas uma partida para isso. Conquistou a Copa Brasil de 1959, reconhecida pela CBF como a primeira competição nacional, no comando do Bahia.

“Volante foi nosso comandante na final, mas o Bahia deve muito a Geninho, que foi treinador durante toda a competição”, disse no ano passado o zagueiro Henrique para o jornal Correio, de Salvador.

Carlos Martin Volante, jogador argentino que jogou pelo Flamengo entre as décadas de 30 e 40. Depois disso, trabalhou como técnico em diversos clubes do Brasil como Internacional, Vitória e Bahia, onde conquistou o Copa do Brasil de 1959.
Carlos Martin Volante, jogador argentino que jogou pelo Flamengo entre as décadas de 30 e 40. Depois disso, trabalhou como técnico em diversos clubes do Brasil como Internacional, Vitória e Bahia, onde conquistou a Copa do Brasil de 1959. - Reprodução

Para chegar à decisão, o Bahia passou, sempre em disputas eliminatórias, por CSA, Ceará, Sport e Vasco, antes de chegar à decisão contra o Santos de Pelé, apontado como favorito. O Bahia venceu na Vila Belmiro e perdeu em Salvador, o que levou à realização de um jogo desempate no Maracanã (apesar de a diretoria baiana ter oferecido à santista 1 milhão de cruzeiros para fazer o confronto na Fonte Nova).

Foi quando Geninho, técnico da equipe nordestina durante toda a campanha na Copa Brasil, se demitiu.

“Foi especulado que a saída teria acontecido por desentendimentos com o diretor de profissionais, Benedito Borges [responsável pelos investimentos que viabilizavam as contratações], que fazia críticas públicas ao rendimento da equipe, bem como fazia tentativas de influir no seu trabalho. A justificativa de Geninho foi a que precisava ficar junto de sua família no Rio de Janeiro”, explica Alexandre Teixeira, autor do livro “59 é nosso: Esporte Clube Bahia campeão primaz do Brasil”.

"Na minha opinião, é uma história mal contada. Com a classificação para a decisão, Geninho bancou uma queda de braço final contra o diretor Benedito Borges e perdeu. Achou que teria o apoio do presidente Osório Vilas-Boas e não teve", analisa o historiador Nestor Mendes Júnior.

Volante não era desconhecido no futebol baiano. Havia sido campeão estadual pelo Vitória entre 1953 e 1955. Também havia conquistado o Campeonato Gaúcho pelo Internacional em 1947 e 1948.

Para ser o único estrangeiro campeão brasileiro como técnico, o argentino precisou apenas dirigir o Bahia na vitória por 3 a 1 de virada sobre o Santos no Maracanã. Pelé, por ter operado as amígdalas, não atuou na terceira final.

Volante foi um dos homenageados, apesar do pouco tempo de trabalho, pelo governador da Bahia, Juracy Magalhães, pela vitória histórica. Mas não teria vida longa no comando do campeão brasileiro. Cerca de quatro meses depois, foi demitido após partida em Argel, capital da Argélia, por ter xingado o cônsul brasileiro que tinha ido visitar os jogadores no vestiário.

“Osório [Villas-Boas, presidente do Bahia] chamou Volante para fora do vestiário e o demitiu sumariamente”, completa Teixeira.

Volante comandou a equipe em dois jogos da Libertadores de 1960: a derrota por 3 a 0 para o San Lorenzo na Argentina e a vitória por 3 a 2 na Fonte Nova. 

Foi o último trabalho dele como treinador. Após se aposentar, ele foi morar na Europa com a mulher italiana e ficou por lá até morrer em Milão.

O título do Bahia já poderia ter sido suficiente para colocá-lo na história do futebol brasileiro. Mas é apenas uma parte da trajetória do argentino nascido em 1910.

Ele foi mais conhecido no exterior do que no futebol do seu país. Começou no Lanús e depois passou ao Platense quando tinha 18 anos. Não queria entrar em campo para enfrentar sua ex-equipe, onde estava seu irmão, José. Foi convencido pela mãe a jogar e acabou vaiado pelas duas torcidas, segundo o site “Futebol Portenho”. A do Lanús o considerava um traidor. A do Platense acreditava que ele não se esforçou na partida vencida pelo adversário por 5 a 2.

Volante emigrou para a Itália. Em Turim se casou com a aristocrata Maria Luisa. O fascismo de Mussolini o fez se mudar para a França, onde jogou futebol e trabalhou como massagista para a seleção brasileira na Copa do Mundo de 1938. Ele também é o único argentino a ter feito parte da comissão técnica do Brasil em um Mundial. Voltou com a delegação de navio para a América do Sul e se estabeleceu no Rio. Em pouco tempo, virou ídolo da torcida do Flamengo.

Seu estilo em campo como meia, mas recuando para ajudar na marcação, fez com que todos os jogadores nessa posição passassem a ser conhecidos com seu sobrenome: volante. Mesmo na Argentina, isso passou a acontecer. Foi três vezes campeão carioca no Flamengo: em 1939, 1942 e 1943. Neste último ano, decidiu parar de jogar.

Após a aposentadoria, foi morar na Argentina, mas retornaria ao Brasil três anos depois. Começou a carreira de técnico que o daria uma marca que permanece impacta após 60 anos.

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