Descrição de chapéu Pan-2019

Ex-ginasta, jovem da Mangueira é revelação no salto ornamental

Isaac Souza, 20, disputa o Pan de Lima após boa participação no Mundial

Lima (Peru)

A primeira vez em que saltou de uma plataforma de 10 metros de altura, Isaac Souza o fez rapidamente, sem pensar no que aconteceria antes de cair na água.

“Eu fui correndo e pulei em pé, só para cair reto. Mas eu lembro de não ter pensando em muita coisa, porque já tinham me falado que, se parar lá em cima e ficar pensando, o medo só aumenta, vem um bloqueio em sua mente e você não consegue saltar”, ele afirmou à Folha após uma sequência de saltos em Lima, estes bem planejados e treinados.

Aos 20 anos, ele é considerado o integrante mais promissor da equipe brasileira de saltos ornamentais nos Jogos Pan-Americanos. A modalidade fez sua estreia nesta quinta-feira (1º) e será disputada até segunda (5), quando Isaac competirá na prova individual da plataforma. Antes, nesta sexta (2), ele estreia na plataforma sincronizada masculina.

Isaac Souza em treino da equipe de Saltos ornamentais no Pan-2019
Isaac Souza em treino da equipe de Saltos ornamentais no Pan-2019 - Wander Roberto - 28.jul.2019/COB

O jovem carioca, que mora no pé da favela da Mangueira, começou na modalidade em 2012, após interromper uma trajetória de quatro anos dedicados à ginástica artística. “Eu senti que estava sendo muito cobrado para uma criança e vi que não era para mim”, diz.

Por sugestão de um colega que havia percorrido o mesmo caminho, foi parar nos saltos ornamentais. Piruetas ele já sabia fazer. “Eu costumava dizer quando entrei nos saltos que tudo o que eu fazia na ginástica eu iria fazer aqui, mas agora caindo de cabeça, não de pé”, conta.

Aos poucos, assimilou as diferenças entre as modalidades e descobriu que os saltos de cabeça poderiam virar profissão. Com 13 anos, já estava embarcando para a sua primeira viagem internacional. Passaria mais de dois meses na China em treinos com a seleção brasileira.

O ginásio do Parque Aquático Julio Delamare, utilizado pelos atletas na parte seca dos treinamentos, havia sido demolido em meio às obras para a Rio-2016. Isso fez com que a delegação se estabelecesse por outros períodos no continente asiático.

Isaac aproveitou e ainda carrega o aprendizado daquela época. “Até hoje eu venho evoluindo minha técnica com base na China. Foi impactante, fiquei de boca aberta com a técnica dos chineses. Estão sempre ali bem sérios, têm aquela disciplina e seriedade nos treinos”, afirma.

O saltador se vê em um momento de ascensão, mas ainda longe do pico que almeja. No Mundial da Coreia do Sul, há duas semanas, ficou na 13ª posição na plataforma, a uma de conquistar a vaga olímpica em Tóquio-2020.

Ele terá uma nova chance no Pan, mas apenas os vencedores das provas individuais garantem a participação nos Jogos. No continente, o esporte costuma ser dominado por mexicanos e canadenses. Outra possibilidade de obtenção de uma vaga no Japão, essa mais acessível, será na Copa do Mundo do ano que vem.

Na Coreia, Isaac surpreendeu também ao lado de Kawan Pereira, 17, na plataforma sincronizada. Eles avançaram à final (feito inédito para o país na prova) e terminaram a competição na 12ª posição.

Curiosamente, a dupla que precisa saltar em perfeita sincronia de movimentos treina separadamente na maior parte do tempo. Como Isaac mora no Rio e Kawan em Brasília, eles se reúnem eventualmente. Por mais que esse não seja o cenário ideal de preparação, o carioca não vê como maior obstáculo para o desenvolvimento da parceria.

“Tem sempre aquele desespero. Será que a gente vai sair junto, será que vai dar tudo certo? Mas mesmo treinando separado, a gente faz a mesma técnica de salto. O Mundial foi a nossa terceira competição juntos e não tivemos nenhum problema de sincronização”, diz.

Hoje Isaac recebe a bolsa atleta do governo federal e integra o programa de alto rendimento da Marinha. Ainda busca, porém, patrocinadores ligados ao meio. Conta para isso com a exposição da modalidade durante o Pan e a proximidade do ano olímpico.

“Meu esporte está sendo mais visto. É o momento de fazer bem feito para a chamar a atenção das pessoas”, projeta.

No Pan de 2015, o Brasil obteve uma medalha, prata com Ingrid Oliveira e Giovanna Pedroso na plataforma sincronizada. Após se lesionar durante o Mundial, Ingrid, 23, irá competir apenas na disputa individual da plataforma, no sábado (3).

 

Outro destaque da equipe brasileira é Juliana Veloso, 38, dona de três medalhas pan-americanas e que está em sua sexta participação no evento.

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