Descrição de chapéu The New York Times

Fenômeno aos 15 anos, Coco Gauff é cria da cidade do tênis nos EUA

Após brilhar em Wimbledon, adolescente está na terceira rodada do US Open

Alan Blinder
Delray Beach (EUA) | The New York Times

Se você estivesse parado na rua de Delray Beach, ouviria o barulho feito pelas solas dos tênis da adolescente em seus deslocamentos rápidos pela quadra número 4. Coco Gauff tinha acabado de chegar de Wimbledon e estava se preparando para o US Open.

Mas diferentemente dos muitos tenistas que recorrem aos centros de treinamento do sul da Flórida para aprender a dominar os saques e slices, ela estava praticando na cidade onde nasceu, 15 anos atrás.

Sua rápida ascensão à condição de sensação do tênis internacional surgiu em uma cidade que vive o tênis —por trás da prefeitura, há um conjunto de quadras públicas e um estádio com 8,2 mil lugares—, e a família de Gauff influencia a comunidade há gerações.

Parentes de Gauff foram defensores dos direitos civis e atletas de elite, organizadores de esportes juvenis e pastores em Delray Beach, uma cidade de 69 mil moradores.

Agora, os holofotes estão voltados a uma menina de 15 anos que conquistou torcedores novos em quantidade suficiente para que muita gente a chame simplesmente de Coco. Eles não precisam de seu sobrenome —ou de seu prenome, Cori— para comentar sobre a estrela em ascensão.

"Tudo aconteceu muito rápido com ela", disse Deirdra Thomas, que trabalha no Pompey Park, um centro de treinamento de tênis, desde antes de Gauff nascer. "Quando ela começou a subir, bastou isso. Nós costumávamos brincar com os pais dela, pedindo para eles guardarem ingressos para Wimbledon, ou dizendo que queríamos ir ao Aberto da França e pedindo que guardassem ingressos no box da família."

Os pais de Gauff, que foram atletas universitários, sabiam desde que sua filha estava na escola primária que ela tinha uma aptidão incomum para o tênis. Eles viveram em Atlanta por algum tempo, e outras atividades —ginástica, futebol, basquete e dança— foram deixadas de lado enquanto a família Gauff, que inclui dois irmãos mais novos que Coco, se concentrava no tênis.

"O tênis a escolheu", disse Corey Gauff, seu pai e treinador primário, no intervalo entre um treino em quadra dura e uma sessão de condicionamento físico, em um dia de calor sufocante na Flórida.

Agora, menos de dois meses depois do desempenho inspirador de Coco Gauff em Wimbledon, que incluiu um vitória sobre Venus Williams e a chegada às oitavas de final, ela brilha em outro grande palco. Já venceu duas partidas no US Open e jogará pela terceira rodada neste sábado (8), contra a atual campeã, Naomi Osaka.

Uma vez mais, a fórmula de treinamento baseada na família —que os Gauff refinaram ao longo de anos de treinos em quadras do sul dos Estados Unidos, incluindo as do Pompey Park, onde Serena e Venus Williams treinaram quando crianças— será testada.

"Não vejo quaisquer fraquezas de fundamentos, mas estou certo de que o pai dela e sua equipe pretendem reforçar diversas áreas de seu jogo ao longo do tempo", disse Martin Blackman, diretor geral de desenvolvimento de atletas na Associação de Tênis dos Estados Unidos (USTA, na sigla em inglês).

Fotos de Coco Gauff e troféus expostos no Pompey Park, em Delray Beach
Fotos de Coco Gauff e troféus expostos no Pompey Park, em Delray Beach - Saul Martinez/The New York Times

"O componente mais promissor do ponto em que ela se encontra no momento é o fato de que seus pais e sua equipe têm uma perspectiva de longo prazo, e isso significa que ela vai tomar boas decisões quanto a cuidar de seu corpo e não treinar em excesso", disse Blackman.

O talento de Gauff, especialmente sua intensidade e foco, foram revelados pela primeira vez em Atlanta, de modo conspícuo e consistente. Lá, a menina de sete anos dormia no carro a caminho do centro de tênis na parte sul da cidade, mas assim que chegava começava seu aquecimento dinâmico sem precisar de instruções. Falava em vencer torneios de Grand Slam, acompanhava a carreira das irmãs Williams, aprendia rápido e, durante as pausas nos treinos, fazia estrelas e dava cambalhotas.

"Ela sempre foi competitiva, sempre quis vencer, e jamais, jamais, jamais desiste", disse Jewel Peterson, que treinou Gauff na Geórgia. "Uma das coisas que vejo em jogadores mais jovens é que, se as coisas não vão da maneira que esperam, eles desistem de se esforçar. Isso nunca aconteceu com ela".

A maioria dos jogadores jovens, disse Peterson, faz aulas em grupo ouvindo músicas de filmes de animação. Mas Gauff era capaz de fazer treinamentos mais sofisticados, como refinar a posição da raquete para o saque.

Os Gauff viam a Flórida, há muito tempo um posto avançado do tênis de elite, como o lugar em que o potencial inicial de Coco poderia ser desenvolvido. Além do tênis, a região oferecia elos familiares.

A avó materna de Gauff, Yvonne Odom, batalhou pela integração racial de uma escola da cidade em 1961, e uma década depois o avô de Gauff, Eddie Odom, fundou um torneio de beisebol juvenil aberto a crianças negras (há um campo de beisebol que leva o nome dele no Pompey Park).

A família se mudou de volta para Delray Beach, uma cidade cerca de uma hora de carro ao norte de Miami que, por algum tempo, usou o nome "Tennis Beach". O brilho de uma estrela do tênis em ascensão emergiu rapidamente, assim como esforços para ajudar os Gauff.

Prentiss Mobley, que trabalha no Pompey Park, recorda que, quando outras pessoas apareciam para jogar, elas sabiam que quadra Gauff preferia: a mais próxima da piscina. Os trabalhadores do parque tentavam reservá-la para ela.

"Ela dominava aquela quadra", disse Mobley.

Barack Obama durante discurso de campanha em clube de tênis de Delray Beach em 2012
Barack Obama durante discurso de campanha em clube de tênis de Delray Beach em 2012 - Mandel Ngan - 23.out.12/AFP

Coco desenvolveu uma reputação de competitividade feroz, com velocidade, agilidade e a disposição de adotar estratégias ousadas, que ela manteve ao amadurecer. Com o tempo, ela ganhou força em seus golpes, especialmente o backhand, e também aprendeu a rebater golpes potentes com mais confiança e a jogar mais perto da rede.

"Quando ela tinha 11 anos, nós a colocávamos para jogar com adversários de 17, 18, 22 anos", disse Cagri Saner, que trabalhava com o treinador Gerard Loglo para desenvolver o jogo de Gauff. "E ela os derrotava".

Em um de seus primeiros Grande Slam para juniores, o Us Open de 2017, ela chegou à final. Em junho do ano passado, venceu a final feminina juvenil de Roland Garros. Seu último torneio como júnior, o Orange Bowl, terminou com uma vitória, perto de Delray Beach.

Depois do desempenho brilhante em Wimbledon este ano, encerrado por uma derrota diante de Simona Halep, a campeã do torneio, ela perdeu para Zarina Diyas na primeira rodada do Citi Open, em Washington.

Mas venceu o título de duplas, jogando com Caty McNally, 17, sua companheira também em um título júnior de duplas do US Open. Em agosto do ano passado, ela estava em 927º lugar no ranking. Este ano, chegou ao torneio em 140º lugar.

Mas parentes e amigos dizem que Gauff ainda mostra sinais de meninice.

Gauff estuda em casa e fez uma prova de ciências pouco antes de uma vitória em Wimbledon. Nas pausas dos treinos, em uma manhã recente na Flórida, ela apanhava o celular imediatamente —o posto de comando para sua presença reluzente na mídia social. E quando não está no Pompey Park jogando com seus irmãos mais novos, ela às vezes narra jogos de beisebol infantil e faz a cobertura jornalística.
"Ela é voluntária desde pequena", disse Thomas, acrescentando, "para o que quer que precisemos que faça".

Mas o tênis vem sendo sempre o centro de sua vida. Loglo e outros dizem que Corey Gauff sempre foi a força mais importante no desenvolvimento do talento de sua filha. Jogador de basquete da Universidade Estadual da Geórgia, ele se tornou estudante do tênis e analisou as carreiras de jovens atletas que chegaram a estrelato. Lesões são uma preocupação especial.

"Ele nunca se deixou enredar por resultados de curto prazo", disse Blackman. "É o responsável pela perspectiva de longo prazo que a família adotou".

Para Corey Gauff, os treinos da filha nos Estados Unidos e outros locais são parte de um quebra-cabeças de anos de duração.

Treinamentos mais recentes na Europa ajudaram Coco a desenvolver um jogo mais equilibrado. Ele diz que seus treinamentos iniciais em Atlanta foram cruciais para que pudesse desenvolver seu jogo na Flórida.

"Bons jogadores de tênis são feitos em todo lugar", ele disse.

De fato, Delray Beach oferecia proximidade com alguns dos melhores treinadores do país, viagens rápidas para torneios e, talvez o mais importante, segundo ele, "a aldeia" de parentes e amigos.

Hoje em dia, a aldeia se tornou uma cidade, aparentemente.

O bar de esportes de Corey Gauff em Delray Beach se tornou ponto de encontro durante os jogos de Coco em Wimbledon. Houve uma festa de boas vindas no Pompey Park quando os Gauff voltaram da Europa. E Mobley disse que as poucas pessoas em Delray Beach que nunca ligaram para tênis agora começaram a se interessar.

"Agora eles estão aprendendo a contar os pontos", ele disse, rindo alto. "As pessoas na loja da esquina comentam que 'Coco ganhou aquela coisa! Coco ganhou!'"

Tradução de Paulo Migliacci

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