Kyrgios fica cada vez mais entre o show e os conflitos no tênis

Acusação de corrupção contra ATP é a mais recente controvérsia do australiano

Daniel E. de Castro
São Paulo

Virou rotina no circuito mundial. O australiano Nick Kyrgios, 24, tem um episódio de mau comportamento em quadra, é advertido pelo juiz e recebe uma multa. Em seguida, ex-jogadores e comentaristas emitem opiniões sobre um dos atletas mais talentosos e desequilibrados que já pisaram numa quadra de tênis.

Na madrugada desta quarta (28), ele foi além e acusou a ATP (Associação dos Tenistas Profissionais) de corrupção durante entrevista após estrear com vitória no US Open. “A ATP é bastante corrupta. Não estou nem um pouco preocupado com isso", disse.

O australiano contestava uma sanção financeira que recebera há duas semanas, a maior já aplicada pela entidade por casos disciplinares.

Na ocasião, ele cometeu sete infrações durante uma derrota no Masters de Cincinnati, entre elas ir ao vestiário sem autorização para quebrar raquetes e cuspir na direção do árbitro, que resultaram numa multa de US$ 113 mil (R$ 470 mil).

A ATP reagiu à entrevista e informou que iniciaria uma nova investigação contra o 30º colocado do ranking. Desta vez, num raro recuo, ele prontamente foi às redes sociais se desculpar.

Afirmou ter usado incorretamente a palavra corrupção e que de fato mereceu algumas das reprimendas, mas considera injusta a utilização de dois pesos e duas medidas pela entidade em relação a atletas com atitudes semelhantes. O fato, porém, é que ninguém nunca foi tão longe quanto o australiano.

Nascido em Camberra, Kyrgios é filho de pai grego e mãe malaia. Embora ele tenha sido considerado um tenista promissor desde cedo, as bolinhas amarelas sempre dividiram espaço em sua vida com uma maior, de cor laranja ---e normalmente perdiam em importância para ela.

O australiano é fã do Boston Celtics, um dos times mais tradicionais da NBA, e já afirmou várias vezes que preferiria ter-se tornado um jogador de basquete a um tenista.

Também reconheceu que praticar o esporte como lazer durante as férias atrapalhava sua recuperação no tênis, até que neste ano disse ter abdicado dele para preservar o instável joelho direito.

“Essa é a grande questão sobre a minha carreira: saber se estou disposto a fazer as coisas certas por ela ou não”, afirmou ao site Tennis Channel em março.

Nick Kyrgios durante jogo da primeira rodada do US Open 2019
Nick Kyrgios durante jogo da primeira rodada do US Open 2019 - Matthew Stockman/AFP

Dono de um saque poderoso, o tenista de 1,93 m transformou um de seus principais golpes em objeto de controvérsia ao aplicar eventualmente um serviço por baixo, bem mais lento do que o tradicional, mas que pode surpreender o adversário que espera no fundo da quadra. Alguns tenistas encaram essa estratégia como desrespeito.

No começo de agosto, no torneio de Washington, Kyrgios inovou ao perguntar para um espectador onde ele queria que o seu saque fosse direcionado. Não antes de um ponto qualquer de um jogo tranquilo, mas no match point de uma semifinal tensa, decidida no tiebreak do terceiro set contra o grego Stefanos Tsitsipas.

Após um bom primeiro serviço, ele definiu o jogo na segunda bola e correu para comemorar com o “consultor” antes mesmo de cumprimentar o adversário.

Outros episódios menos lúdicos protagonizados por ele nos últimos anos resultaram em uma série de multas e até suspensões, algo raro na elite do tênis. Punições por quebrar raquetes, ofender juízes ou não se esforçar para ganhar uma partida foram frequentes.

Em 2015, ele falou a Stan Wawrinka durante um jogo que a namorada do suíço teve um caso com outro tenista australiano, Thanasi Kokkinakis. No ano passado, fingiu que se masturbava usando uma garrafa de água durante o intervalo de uma partida.

Segundo levantamento recente do site português Bola Amarela, ele recebeu cerca de 250 mil euros (R$ 1,1 milhão) em multas na carreira. O valor faturado com premiações somava U$$ 7,8 milhões (R$ 32,4 milhões) até o início do US Open.

 

O australiano apareceu positivamente para o mundo ao derrotar Rafael Nadal no torneio de Wimbledon em 2014, quando tinha 19 anos. O anúncio de que poderia se tornar um dos grandes nomes do esporte, porém, até hoje não se confirmou.

O atleta, que possui seis títulos na carreira, leva vantagem de 2 a 0 nos confrontos diretos contra Novak Djokovic e tem um histórico equilibrado contra Nadal (4 a 3 para o espanhol), mas suas melhores campanhas nos principais torneios do circuito foram as quartas de final em Wimbledon (2014) e no Australian Open (2015).

“Nick é um cara que poderia estar entre os cinco melhores do mundo, mas tem medo do fracasso. Isso explica sua atitude passiva quando joga. Ele tem um medo enorme de comprovar que podem vencê-lo quando mostra seu melhor nível”, afirmou o ex-tenista americano John McEnroe, 60, em julho deste ano.

Em outra ocasião, ao comentar as comparações entre sua própria personalidade irascível em quadra e a do australiano, o ex-número 1 do mundo os diferenciou: “Sempre dei tudo de mim e fiz o possível para tentar fazer história no tênis. Ele, infelizmente, não faz o mesmo. Não posso dizer o porquê, não sou Sigmund Freud, mas é uma pena que não se comprometa ao máximo”.

Outro ex-líder do ranking mundial, o sueco Mats Wilander, 55, já minimizou algumas das atitudes pelas quais Kyrgios costuma ser criticado.

"Eu adoro entretenimento, eu amo o que ele faz, eu amo o saque por baixo. É diferente, mas é permitido”, disse em julho. Wilander, no entanto, reconhece alguns exageros no comportamento indisciplinado: "Nick transcende o tênis, mas acho que o problema que todos temos com ele são as ocasiões em que ele nem parece estar tentando”.

Objeto constante de análise dos seus pares, Kyrgios também emite opiniões fortes sobre os colegas de circuito. Em maio, disse em entrevista ao podcast “No Challenges Remaining” que Djokovic tem uma obsessão doentia em ser amado pelo público e que Nadal é esquentado e o irrita. Entre os principais jogadores da atualidade, apenas Roger Federer recebeu elogios: “é o maior de todos os tempos”.

No US Open, ele viu alguns dos seus principais oponentes (Tsitsipas, Dominic Thiem e Bautista Agut) serem eliminados na primeira rodada. Voltará às quadras nesta quinta diante de uma chave favorável para tentar avançar até as semifinais, quando poderá enfrentar Nadal. Se isso é capaz de motivá-lo? Provavelmente nem Freud saberia responder.

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