Liga de Ice Cube tem ex-astros da NBA e cobra disputa real

Torneio de basquete 3 x 3 tem cestas de quatro pontos e planos ambiciosos

Marcos Guedes
São Paulo

Ice Cube cogitou usar parte do dinheiro que conquistou em sua carreira como rapper, ator e produtor para virar dono de um time da NBA. Percebeu que seu estilo passional não seria apropriado para a posição, sobretudo em momentos de dificuldade, e resolveu colocar em prática outra ideia: fundar uma liga de basquete 3 x 3, com espaço para ex-atletas da principal liga de basquete do mundo.

O Big3 está em sua terceira temporada, com ginásios cheios e boa audiência na TV. Começarão no domingo (25) os playoffs da edição 2019 da competição, que preenche uma lacuna para os fãs do esporte nos Estados Unidos – órfãos de junho a outubro, período sem partidas da NBA.

O torneio usa como base a regulamentação internacional do basquete 3 x 3, esporte olímpico a partir de 2020, mas tem as próprias regras. Uma delas é a cesta de quatro pontos, computada em arremessos convertidos de três círculos distribuídos pela quadra, logicamente atrás da linha dos três pontos.

 

Os arremessos livres também seguem uma lógica exclusiva da liga. Nas faltas cometidas em arremessos de dois pontos, o jogador bate apenas um lance livre, que vale dois pontos. Se a infração foi observada em um chute de três, o atleta tem direito a um arremesso, da linha dos três pontos, que vale três pontos. O raciocínio é o mesmo para as tentativas de quatro pontos.

Vence a equipe que chegar aos 50 pontos, desde que com ao menos dois de vantagem sobre o adversário. Isso significa que a partida sempre acaba em um arremesso certeiro, mais um atrativo para uma liga que mistura esporte e entretenimento. Mas Cube, 50, e seu sócio Jeff Kwatinetz, 54, fazem questão de deixar claro: a disputa é séria.

Tão séria que quatro jogadores foram dispensados no mês passado. Lamar Odom, 39, Baron Davis, 40, Bonzi Wells, 42, e Jermaine O’Neal, 40, todos com carreiras significativas na NBA, tiveram sua participação suspensa para “maximizar a competição, proteger a saúde dos jogadores e elevar o nível de profissionalismo do Big3”.

“Se você não quer jogar, nós não o queremos. Não o queremos porque você tem um nome. Nós queremos seu jogo”, repete insistentemente Cube. “É uma liga profissional. Não é um jogo de celebridades, um jogo das estrelas.”

Com essa orientação expressa aos atletas, o campeonato já teve estrelas como Allen Iverson e Chauncey Billups, com técnicos como Julius Earving, Gary Payton e George Gervin. Clyde Drexler é dirigente. A plateia também costuma ser estrelada, com presença frequente de astros atuais da NBA, como James Harden e Russell Westbrook.

“Como um fã, eu ficava frustrado porque meus jogadores favoritos se aposentavam depois de 10 ou 15 anos. E eu sei que eles continuam jogando, estão pelos ginásios do país, são grandes atletas. Só que, por alguma razão, não há mais lugar para eles na NBA. E eu pensei: por que não podemos vê-los jogar?”, contou Ice Cube.

Agora, muitos deles são vistos. O Big3 ainda não conseguiu um nome como Kobe Bryant, mas tem números expressivos. A média de público pulou de 10.756 espectadores por jogo no primeiro ano para 13.484 no segundo. A assistência da temporada 2019 ainda está sendo computada, porém, mais do que obter a melhor marca possível no curto prazo, o que busca a liga é se viabilizar como algo duradouro.

Por isso, quando acabou o contrato com a Fox pela exibição das duas primeiras edições do torneio, Cube e Kwatinetz preferiram fechar com a estabelecida rede CBS a aceitar um contrato mais lucrativo com um serviço de transmissão pela internet. A ideia é espalhar ao máximo o produto antes de colher os frutos.

A comparação feita pelos donos do Big3 é com o UFC, organização de lutas de MMA que nasceu em 1993, mas só foi atingir índices maiores de sucesso nos anos 2000. O que eles pretendem neste momento é estabelecer a credibilidade do campeonato, especialmente nos veículos de imprensa esportiva norte-americanos, à espera de estrelas recentemente ou quase aposentadas, como Dwyane Wade e Carmelo Anthony.

Na edição 2019, o principal jogador tem sido o ala-armador Joe Johnson, 38, que passou 17 temporadas na NBA e agora defende o Triplets, dono da melhor campanha da fase de classificação. Ele relutou em aceitar o convite para a disputa 3 x 3, mas acabou sendo convencido de que poderia se destacar nesse tipo de jogo.

 

Como só há uma tabela, fica para trás uma das maiores dificuldades dos veteranos na reta final de suas carreiras no basquete tradicional: transitar de um lado da quadra ao outro a cada troca na posse da bola. O que permite ao armador Mahmoud Abdul-Rauf, 50, ser um jogador eficiente para o 3 Headed Monsters.

“A NBA fala, em certa idade, que você não pode jogar mais porque é muito lento, porque não pula mais tão alto, porque não corre tão rapidamente”, disse Kenyon Martin, 41, que jogou as duas temporadas inaugurais do Big3 antes de se tornar treinador na liga. “Mas você não se esquece de como jogar basquete. Isso está sendo provado, com jogos em alto nível.”

A idade mínima caiu de 30 para 27 anos na atual temporada. O campeonato busca o equilíbrio entre aumentar o nível da disputa, dando chance a jogadores mais jovens, e cumprir sua missão de oferecer oportunidade aos veteranos. A viabilidade no longo prazo ainda será testada, mas, por ora, o Big3 oferece talento e entretenimento enquanto a NBA não retoma suas atividades.

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