Descrição de chapéu The New York Times

Nova York diz que US Open escondeu receitas e cobra aluguel

Para cidade, foram escondidos R$ 126 mi de receita; organização discorda

David Waldstein
Nova York | The New York Times

​​Com o início do Aberto de Tênis dos Estados Unidos a apenas alguns dias de distância, o controlador das finanças do município de Nova York acusou os organizadores do torneio de não reportarem pelo menos US$ 31 milhões (R$ 126 milhões) em receita nos últimos quatro anos, e disse que eles deviam US$ 311 mil (R$ 1,2 mi) em aluguéis atrasado à cidade pelo uso do local do torneio em Queens.

O corregedor da cidade, Scott Stringer, afirmou que a Associação de Tênis dos Estados Unidos (USTA, na sigla em inglês), a operadora do lucrativo torneio, que aluga o local do Centro Nacional de Tênis Billie Jean King da prefeitura, havia obstruído uma auditoria por seu departamento e que ele e outros funcionários eleitos estavam apelando por uma renegociação do acordo de aluguel que está em vigor desde 1993.

"Sempre que a prefeitura chega a um acordo com uma entidade privada que fatura milhões de dólares, nosso dever acima de tudo é proteger os nova-iorquinos", defendeu Stringer em uma entrevista coletiva diante do local do torneio, na quinta-feira. "Não podemos permitir que a cidade tenha um mau acordo".

Vista aérea da estádio Arthur Ashe, principal quadra do complexo de tênis que abriga o Aberto dos Estados Unidos
O estádio Arthur Ashe, principal quadra do complexo de tênis que abriga o Aberto dos Estados Unidos - Al Bello - 3.set.2016/AFP

A USTA discordou de muitas das conclusões da auditoria, e Danny Zausner, o vice-presidente de operações do Centro Nacional de Tênis, disse que cerca de 40% da quantia contestada já havia sido paga à prefeitura. Ele acrescentou que não via necessidade de renegociar os termos do contrato de locação.

"Não, a menos que eles queiram estabelecer termos mais favoráveis a nós", alega Zausner.

Ele negou que a USTA tivesse obstruído a auditoria pelo escritório do controlador, e disse que o contrato de locação em vigor favorecia mais a prefeitura do que qualquer de seus outros contratos relacionados a instalações esportivas.

"O controlador tem direito de fazer uma declaração", afirmou o vice-presidente, "mas discordamos fortemente dela. Somos inquilinos da prefeitura, e fomos bons inquilinos por 40 anos. Às vezes, as coisas são questão de interpretação, e fazemos nossos pagamentos de aluguel de acordo com a interpretação do contrato que aceitamos".

Stringer disse que o objetivo primário de uma renegociação seria conseguir mais acesso aos registros da USTA. Ele admitiu que não havia mecanismo para reabrir a discussão sobre o contrato de locação, mas disse esperar que os organizadores do torneio o façam como uma demonstração de boa fé. "Não estamos recorrendo aos advogados. Estamos só querendo uma conversa franca com a comunidade".

O departamento de parques da prefeitura de Nova York aluga a área em que fica o Centro Nacional de Tênis à USTA por US$ 400 mil (R$ 1,6 mi) ao ano, mais 1% de qualquer receita gerada pela organização além dos primeiros US$ 20 milhões (R$ 81 mi). De acordo com números fornecidos pelo escritório do controlador, a USTA reportou receitas brutas de US$ 308 milhões (R$ 1,2 bilhão) em 2016 e US$ 349 milhões (R$ 1,4 bi) em 2017.

Stringer e Catalina Cruz, a deputada estadual nova-iorquina cujo distrito eleitoral abarca a área do centro de tênis, afirmaram que a USTA não havia se comportado como boa vizinha, em sua resposta à auditoria.

"Já não basta fazer o mínimo que o contrato requer", queixou-se Cruz, "Agora temos de ir à mesa de negociações, conversar com o conselho e chegar a algo que os faça bons vizinhos, porque no momento eles não estão agindo como se o fossem".

O Corregedor alegou que o Centro Nacional de Tênis não havia reportado, ou havia reportado a menos, mais de US$ 11,5 milhões (R$ 46,9 mi) em receita com contratos de patrocínio e direitos de transmissão. Se for esse o caso, isso resultaria em US$ 115 mil (R$ 469 mil) em aluguel adicional. Segundo ele, a USTA também havia deduzido indevidamente mais de US$ 10 milhões (R$ 40,7 mi) em despesas operacionais, o que reduziu em mais US$ 100 mil (R$ 407 mil) a quantia devida à prefeitura, e que US$ 4 milhões (R$ 16 mi) em patrocínios foram declarados com valor inferior.

Stringer afirmou que a auditoria também mostrou US$ 5 milhões (R$ 20 mi) "indevidamente omitidos" em receitas com ingressos, contabilidade imprecisa de vendas online e uma discrepância entre as declarações financeiras certificadas da USTA e a receita que a organização reportou à prefeitura.

"A prestação de contas incorreta e os pagamentos a menor da USTA não podem ser ignorados ou varridos para baixo do tapete", ele afirmou, acrescentando que "o contrato de locação da USTA permite que ela se recuse a nos fornecer registros em forma eletrônica. Assim, nem podemos estudar os registros financeiros eletronicamente. Estamos em 2019, e eles não nos fornecem dado algum em forma eletrônica".

Zausner informou que a USTA recusava os documentos deixassem as suas instalações para proteger informações privadas.

Cruz disse que reconhece que o torneio oferece emprego temporário a muitos moradores locais, e que organiza um dia de eventos especiais para os moradores de Queens durante a semana anterior ao início da competição principal. Mas acrescentou que nas semanas que antecedem o evento principal a cada ano, o acesso ao Flushing Meadows Corona Park, que abriga o centro de tênis, é dificultado pelas multidões, pelas medidas de segurança e pelos carros estacionados na grama.

"Esse é o nosso gramado, porque muitos de nós não temos jardins, e esse é o nosso gramado", disse Cruz. "É nossa comunidade, é nosso quintal. É aqui que nossas crianças vêm brincar, porque elas não têm outro lugar".

Tradução de Paulo Migliacci

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