Descrição de chapéu Pan-2019

Novata de 34 anos redescobre natação e vai com destaque ao Parapan

Pernambucana tem baixa visão e iniciou no esporte adaptado há menos de um ano

Daniel E. de Castro
São Paulo

Um dos destaques da delegação brasileira que disputará os Jogos Parapan-Americanos de Lima a partir desta sexta-feira (23), a nadadora pernambucana Carol Santiago chega ao evento no Peru com o carimbo de quem já bateu duas vezes no mesmo dia um recorde mundial.

Pode parecer estranho chamar de novata uma atleta de 34 anos e com um feito desses no currículo, mas a definição é apropriada para ela, que começou sua trajetória no esporte adaptado em outubro de 2018.

Carol nasceu com a síndrome de morning glory, uma alteração na retina que reduz seu campo de visão. Ela começou a nadar quando criança e até uma certa idade se destacou mesmo em competições contra nadadores sem deficiência.

Com o passar do tempo, porém, os detalhes passam a fazer cada vez mais diferença na performance de um atleta de ponta. As viradas e a chegada, momentos cruciais numa prova de natação, tornaram-se barreira para a limitação de visão da pernambucana.

A dificuldade atingiu seu ápice quando ela tinha 18 anos. Uma condição que não tem relação com a síndrome nem causa específica fez com que um líquido produzido na sua retina a impedisse totalmente de enxergar. Esse período durou nove meses, mas culminou com o afastamento dela do esporte por nove anos.

“Ser uma atleta profissional era um sonho. Quando eu vi que não iria dar, nunca imaginei que lá na frente poderia voltar a competir num nível tão alto. Voltei a nadar por saúde, porque era a coisa que eu mais gostava de fazer e porque era o que eu conseguia fazer sem precisar de ninguém”, ela conta à Folha.

Sua transição da natação por lazer para o alto rendimento esportivo levaria mais seis anos. Desde o início de 2019, Carol pratica no Centro de Treinamento Paraolímpico, em São Paulo. Sob o comando do técnico Leonardo Tomasello, descobriu um mundo totalmente novo e no qual se deu bem muito rapidamente.

“Conheci o paradesporto praticamente no mesmo dia em que conheci o centro. Na minha região, a divulgação do esporte paralímpico praticamente não existia. Eu não conhecia a divisão das classes nem sabia que poderia usar o tapper”, diz.

Tapper é o nome dado à pessoa que fica na beira da piscina com um bastão de espuma na ponta e toca os nadadores com deficiência visual para indicar os momentos de virada e chegada.

“Agora está sendo maravilhoso, porque todas as minhas dificuldades de antes estão sendo supridas. Eu machucava muito minhas mãos nas viradas, e com o tapper isso praticamente não acontece mais. Antes eu tocava na borda e depois virava, agora entro bem mais forte”, afirma.

Em abril, ela quebrou o recorde mundial que pertencia a lena Krawzow ao nadar os 100 m peito na classe SB12 (atletas com baixa visão) em 1min14s79. A alemã reestabeleceu a melhor marca em junho.

Independentemente de tempos, Carol é só felicidade ao falar sobre seus treinamentos e a chance que ganhou de ser uma atleta profissional quando já não contava com essa possibilidade.

Depois do seu primeiro Parapan, o próximo objetivo da nadadora será o Mundial de Londres, de 9 a 15 de setembro. Se mantiver esse ritmo, a novata tem tudo para se destacar também nos Jogos Paraolímpicos de Tóquio, em agosto de 2020.

A transformação de vida pela qual a pernambucana passou nos últimos meses, porém, vai muito além de bater à frente das adversárias nas piscinas.

“Cresci até mais como pessoa do que como atleta. Eu nunca tinha convivido mesmo com pessoas com deficiência, e quando conheci o CT vi que tem gente com muito mais dificuldade do que eu e que se supera a cada dia. Fico pensando que não posso nem me dar ao direito de olhar para a vida e achar qualquer coisa ruim”, diz.

As provas de natação começam no domingo. A pernambucana nadará quatro delas, mas não os 100 m peito, que saiu do programa desta edição.

Em Lima, o Brasil terá sua maior delegação da história dos Parapans, com 337 atletas em todas as 17 modalidades do evento, cuja cerimônia de abertura será realizada às 21h desta sexta, com transmissão do SporTV 2.

Oitavo colocado no quadro de medalhas da Paraolímpiada do Rio-2016, o país ficou em primeiro nas últimas três edições do Parapan, posição que almeja repetir no Peru com mais de cem medalhas de ouro, segundo o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).

Um desafio adicional do esporte adaptado é o processo de reclassificação dos níveis de deficiência dos atletas, essencial para que eles possam competir em condições de igualdade nas suas categorias, mas que causou polêmica recentemente.

Em abril, o Comitê Paralímpico Internacional passou a entender que o nadador André Brasil, 35, multimedalhista que tem uma pequena diferença de tamanho entre as pernas, não se encaixa mais em nenhuma categoria de deficiência prevista pela entidade. Enquanto o CPB recorre da decisão, ele não estará presente em Lima.

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