Pioneiro em jogar com os pés, goleiro recusou Ajax por pescaria

Biografia detalha carreira de jogador holandês que revolucionou o futebol

Alex Sabino
São Paulo

Para o técnico espanhol Pep Guardiola, o que um goleiro consegue fazer com os pés é tão importante quanto as defesas realizadas com as mãos.

Na última Copa do Mundo, o treinador argentino Jorge Sampaoli chegou a escolher o titular da posição na seleção de seu país baseado na capacidade de sair jogando, não de evitar gols. Repetiu isso no Santos, ao trocar Vanderlei por Everson.

Esta tendência, que não é nova no futebol, tem um pai: Jan Jongbloed, goleiro do carrossel holandês no Mundial de 1974, na Alemanha.

Jan Jongbloed lamenta após sofrer gol contra a Argentina, na final da Copa do Mundo de 1978
Jan Jongbloed lamenta após sofrer gol contra a Argentina, na final da Copa do Mundo de 1978 - ANP-25.jun.78/AFP

Ele não foi o primeiro, mas, por causa da popularidade daquela seleção e da imagem mitológica que o esquema do técnico Rinus Michels conseguiu na história do futebol, se tornou a maior referência.

"A inspiração de Jan era Gyula Grosics, goleiro da Hungria no Mundial de 1954. Ele sim foi o primeiro jogador da posição a se notabilizar por atuar quase como um líbero e sair jogando com os pés", diz Yoeri van der Busken, autor de "Aparteling" ("Separação", em holandês, ainda sem previsão de lançamento no Brasil), a biografia de Jan Jongbloed, publicada em junho deste ano.

A história futebolística do atleta, hoje com 78 anos, é única. Com 1,79 m, era considerado baixo para o esporte e jamais atuou por nenhuma das equipes mais importantes da Holanda (Ajax, Feyenoord e PSV). Fez a carreira em clubes pequenos, como DWS, FC Amsterdam, Roda JC e Go Ahead Eagles.

Depois de ser vice-campeão mundial, em 1974, recebeu proposta do Ajax, time que havia conquistado a Copa da Europa (atual Champions League) nas três temporadas anteriores. Ele foi liberado pelo FC Amsterdam, mas se recusou a trocar de clube. Significaria perder as folgas que tinha às terças-feiras, dia em que costumava ir pescar.

"A pescaria sempre foi a grande paixão da vida de Jongbloed. Ele não trocava isso por nada no mundo", completa van der Busken.

O que torna mais estranha a presença dele no time que revolucionaria o futebol é o fato de que, até um mês antes do Mundial na Alemanha, Jongbloed tinha apenas uma convocação para a seleção. Doze anos antes, em 1962, ele havia atuado por quatro minutos em um amistoso contra a Dinamarca.

O titular deveria ser Jan van Beveren, mas ele se machucou durante a preparação do torneio. Além disso, tinha um defeito mortal para aquela Holanda: era inimigo de Johan Cruyff, o craque e dono da seleção. Jongbloed, ao contrário, era amigo do astro.

Cruyff tinha tamanha autoridade sobre os companheiros que a numeração da equipe no Mundial obedecia ordem alfabética. Isso fez com que Jongbloed surpreendesse ao entrar em campo com a camisa 8, o que acabaria sendo mais um motivo para ser lembrado. A única exceção foi Cruyff, inscrito com seu preferido número 14.

Para convencer Michels a convocar seu amigo, o meia-atacante apresentou um argumento, além da amizade. Jongbloed se encaixava perfeitamente no estilo de jogo pretendido pela Holanda naquele torneio: a pressão na marcação, o toque de bola e cada peça atuando em várias posições.

O goleiro holandês começou a campanha fazendo algo inédito no futebol na era dos jogos televisionados: quando sua equipe não tinha a bola, ficava fora da área, como mais uma peça defensiva para ser acionada em caso de necessidade ou para cortar com os pés lançamentos longos dos adversários. Grosics fazia isso pela Hungria na década de 1950, mas só quem estava no estádio via. Algo que hoje em dia é comum, mas em 1974 não era.

“Ele tinha facilidade maior que os demais goleiros para jogar com os pés porque nas categorias amadoras era meia-esquerda. Apenas aos 16 anos começou a atuar no gol”, afirma o biógrafo.

Aposentado em Amsterdam, Jongbloed ficou visto durante anos como a peça mais fraca do que era uma grande equipe. Foi espalhada a versão de que, se a Holanda tivesse um goleiro melhor, teria sido campeã do mundo. O goleiro e seu biógrafo contestam isso.

Em seis partidas antes da decisão com a Alemanha Ocidental, Jongbloed sofreu apenas um gol, marcado contra a meta pelo holandês Krol, diante da Bulgária. Na final, acabou batido por pênalti cobrado por Paul Breitner e pela finalização de Gerd Muller de dentro da área, lance que o goleiro considera ser impossível de defender.

Jan Jongbloed  antes da Copa do Mundo de 1974, na Alemanha
Jan Jongbloed antes da Copa do Mundo de 1974, na Alemanha - Rob Mieremet-30.abr.74/ANEFO

Jongbloed conseguiu ser um dos goleiros mais lembrados da história do futebol mesmo sem ter sido um dos melhores. Isso por ter ligado sua imagem à Copa do Mundo, o torneio mais importante do esporte. Dos 24 jogos que fez pela seleção holandesa, 12 foram pelo Mundial. Dois deles, finais.

Convocado para a Copa de 1978, na Argentina, ele não tinha total confiança do técnico Ernst Happel. Perdeu a posição após a derrota para a Escócia, na fase de grupos. Recuperou-a um jogo antes da final, quando seu substituto, Schrjivers (contratado pelo Ajax quando Jongboled não abriu mão da pescaria) se machucou. A Holanda perdeu de novo para a seleção dona da casa.

“O pioneirismo de Jongboled aconteceu porque perdurou. Ele foi peça de um esquema que revolucionou o futebol e de uma ideia que se manteve viva no decorrer dos anos. O goleiro sair jogando com toques curtos não era comum. O hábito era chutar a bola para o ataque”, afirma van der Busken.

Jongboled continuou no futebol até 1986. Decidiu parar quando, aos 45 anos, sofreu um ataque cardíaco em campo. Na época, ele já havia perdido o filho Erik Jongbloed, que também era goleiro e morreu aos 21 anos, em 1984, ao ser atingido por um raio durante uma partida amadora na capital holandesa.

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