Descrição de chapéu Pan-2019

Bronze, esgrimista negra pede mais diversidade na elite do esporte

Brasileira Bia Bulcão, 25, conquistou medalha inédita nos Jogos Pan-Americanos

Lima

Ana Beatriz Bulcão, 25, ainda tem muitos objetivos a cumprir na esgrima após sua primeira medalha em Jogos Pan-Americanos, o bronze conquistado em Lima nesta segunda-feira (5). De imediato, quer a vaga olímpica em Tóquio-2020. Outro dos seus desejos é para o futuro e não inclui somente ela.

Bia Bulcão ficou com o bronze no florete feminino individual, feito inédito para o Brasil em Pans, após perder nas semifinais para a americana Lee Kiefer, favorita da chave.

Uma das poucas esgrimistas negras na elite mundial, a paulistana pretende que o esporte se torne mais diverso e inclusivo nos próximos anos.“No Brasil, que tem a maioria de sua população negra, seria importante ter mais esgrimistas negros. Eu vejo isso como uma barreira e tento representar a raça negra da melhor forma possível”, afirma à Folha.

A atleta diz nunca ter sofrido preconceito racial numa situação “de pista” [onde são disputados os combates], mas em outras ocasiões sim, inclusive no meio esportivo. Por experiência própria, sabe que pode acontecer em qualquer lugar. “É difícil, mas a gente nasce sabendo lutar todo dia”, afirma.

Como exemplos de ações que podem ajudar a mudar a imagem de esporte de elite, a atleta cita dois projetos sociais em São Paulo: Programa Touché Escola Pública de Esgrima e Mosqueteiros de Paraisópolis.

A esgrimista Ana Beatriz Bulcão, que tenta medalha inédita nos Jogos Pan-Americanos de Lima, no Peru
A esgrimista Ana Beatriz Bulcão, que tenta medalha inédita nos Jogos Pan-Americanos de Lima, no Peru - FIE/Divulgação

Bia também pretende um dia ter o seu projeto para difundir no país a modalidade que começou a praticar aos 9 anos, quando experimentou e gostou da atividade no Esporte Clube Pinheiros.

Já o seu primeiro combate na vida foi bem antes disso. Adotada aos 5 meses de idade, tinha grau elevado de subnutrição e precisou ser submetida a um tratamento que durou quase dois anos.

Fortalecida, ela conseguiu se destacar cedo na esgrima e foi a primeira brasileira a estar entre as seis melhores do mundo no ranking mundial. Integrante da seleção nacional desde 2010, está em seu terceiro Pan (2011, 2015 e 2019) e participou da Olimpíada do Rio-2016.

O evento em Lima não contou pontos na classificação olímpica, mas para Bia a conquista da medalha, além ter sido algo inédito, pode ajudar a conseguir uma projeção necessária a quem passa boa parte do ano competindo e treinando na Europa.

“A medalha no Pan dá confiança e mostra o nível em que você está na comparação com atletas da América. E num esporte como a esgrima, que no Brasil não é muito popular e não tem muito incentivo, gera mais visibilidade”, diz.

Atualmente, ela recebe a bolsa atleta do governo federal e integra o programa de alto rendimento do Exército, além de defender o Pinheiros. Mas essas fontes nem sempre são o bastante para se manter em alto nível mundialmente.

Por isso, tenta emplacar uma vaquinha virtual em seu site, mas o apoio ainda não rendeu muito: cerca de R$ 180 mensais.

Sobrinha-neta do artista plástico Athos Bulcão (1918-2008), a esgrimista tem sua veia artística e cultural na música (toca piano e guitarra), nos idiomas (fala inglês, francês e italiano, além de arranhar o russo) e no próprio esporte.

 

“Desde pequena acompanhei o trabalho do meu tio, acho as obras dele incríveis, mas não sou uma pessoa de pintar. Minha forma artística está na pista, a esgrima é um esporte de movimentos muito plásticos, são como uma dança. Você tem que ser criativa na pista em todo momento”, afirma.

O Brasil está com 16 atletas da esgrima em Lima. Além de Bia, Guilherme Toldo, Henrique Marques, Heitor Shimbom, Gabriela Cecchini, Mariana Pistoia disputam na categoria florete. No sabre estão Bruno Pekelman, Enzo Bergamo e Henrique Garrigós. Já na espada, Nathalie Moellhausen, Amanda Simeão, Victória Vizeu, Alexandre Camargo, Athos Schwantes, Nicolas Ferreira foram aos Jogos.

Da equipe, Nathalie é quem teve o melhor histórico e desempenho no ano. 

Nascida em Milão, defendeu a Itália —uma das principais potências do esporte— durante a maior parte da carreira, mas compete pelo Brasil desde 2014 e no último mês tornou-se a primeira campeã mundial de esgrima do país.

A esgrimista tem cidadania brasileira por causa de sua família materna. A avó imigrou da Itália e se estabeleceu no Brasil. Filha da estilista ítalo-brasileira Valeria Ferlini, ela carrega o sobrenome paterno, de origem alemã, nas competições.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.