Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro

Trinta anos após troca, Neto incomoda Palmeiras e é personagem do dérbi

Ídolo do Corinthians provoca rival, que veta atletas em seus programas de TV

Marcos Guedes
São Paulo

​“Eu não jogo mais!”, bradou Neto, com sua voz característica, dias antes do dérbi que acabou decidindo o Campeonato Brasileiro de 2017. Foi parte de um célebre desabafo do ex-jogador, hoje apresentador e comentarista da Band, no qual ele reclamava por ser o alvo das gozações na má fase do Corinthians e fazia um alerta desesperado: “Vocês vão perder o campeonato para o Palmeiras”.

Vários atletas disseram ter ouvido o apelo, que circulou entre eles por mensagens de celular. Ao fim daquela semana, o time alvinegro —que tinha conquistado o total de um ponto nas quatro partidas anteriores— derrotou o arquirrival por 3 a 2, afastou a ameaça verde e deixou bem encaminhado um título que seria matematicamente confirmado dez dias depois.

O ex-jogador Neto apresenta programas na Band e no Band Sports - Divulgação/Band

A explosão do ex-meia virou meme, ganhando versões musicais e até uma camiseta, comercializada com a estampa “eu não jogo mais”. E Neto, hoje com 52 anos, aposentado desde 1999, estabeleceu-se de novo como um personagem do clássico, como alguém capaz de incomodar o Palmeiras a ponto de o clube não permitir a presença de seus jogadores nos programas apresentados por ele.

“Eu sou uma areiazinha perto do que representa o Palmeiras. Se eles se incomodam tanto, é porque eu sou muito foda”, disse à Folha o comentarista. “Acho que faço parte do dérbi, sim, até porque o Palmeiras me trocou pelo Ribamar, não acreditaram em mim. E tem uma coisa: eu não tenho nada contra o Palmeiras, eles que têm contra mim.”

A referida troca, feita em julho de 1989, completou 30 anos no mês passado. O Corinthians liberou ao rival o lateral esquerdo Dida e o meia Ribamar. Recebeu o lateral esquerdo Denys e um meia que acabou se tornando uma figura histórica do time —já no ano seguinte, liderou a conquista do Campeonato Brasileiro de 1990.

“A verdade é que isso foi a coisa mais excepcional que Deus proporcionou para mim, cara. Eu ter me tornado ídolo do Corinthians graças ao Palmeiras é como se eu tivesse sido ressuscitado”, afirmou Neto, que não se entendia com o técnico Emerson Leão na equipe alviverde e ganhou novo fôlego vestindo a camisa de seu clube do coração.

Trocado pelo Palmeiras, Neto fez história com a camisa do Corinthians - Antônio Gaudério - 19.mai.91/Folhapress

O sucesso lhe proporcionou a possibilidade de trabalhar como comentarista depois de ter pendurado as chuteiras. Com o microfone na mão ou na lapela, ele nunca vestiu a fantasia do jornalista isento, distante, que prefere esconder suas preferências e seu time. O que o tornou um sucesso entre corintianos, nem tanto entre palmeirenses.

“O azar deles é que eu apresento programa de televisão há sete anos e sou comentarista há vinte. Então, eu posso comentar o que eu quero. Eu não sou contra eles, só que eu não torço para eles. E eu falo isso na televisão, entendeu? O Casagrande fala? O Caio fala? O Júnior fala do Flamengo, quando tem um Fla-Flu? Ele fica em cima do muro. Eu, não. Falo: o Corinthians vai ser campeão, velho. Foda-se se não for. Caguei”, disse.

Neto fez exatamente essa previsão nesta semana, apostando que a equipe do Parque São Jorge, hoje dez pontos atrás do líder Santos, vai levar o título do Campeonato Brasileiro. Virou notícia nos sites que gostam de repercutir suas frases polêmicas —algo que encara com um misto de irritação e vaidade. Dias depois, comprou mais uma briga com o técnico do Palmeiras, Luiz Felipe Scolari, que tinha feito piada sobre queda de avião.

“Imagine se eu chego e faço uma brincadeira em relação a isso? Iriam fazer como você já fez, Felipão: tentar me derrubar aqui na Band. Como você já fez! E, tentando me derrubar na Band, você quer derrubar minha família. Para derrubar meus filhos, vai ter que brigar comigo, vai ter que brigar com um tigre”, disse o ex-jogador, no programa “Os Donos da Bola” da última quarta-feira (31).

O treinador afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que o relato não é verdadeiro. “Quando o Felipão estava na seleção em 2013 e 2014, a CBF pediu para que ele participasse do programa da TV Bandeirantes. O Felipão disse que não gostaria de participar de um programa junto com o Neto. O Felipão mantém isso. Não participa de um programa com o Neto. Apenas isso.”

Os comandados de Scolari também não. Já faz tempo que o Palmeiras não libera seus atletas para os programas apresentados por Neto. Em 2014, a diretoria chegou a publicar uma nota oficial, explicando por que recomendava “expressamente” a seus funcionários não aceitar convites do apresentador e condenando os “ataques gratuitos, sensacionalistas, irresponsáveis e deselegantes”.

A composição da diretoria já mudou desde então, mas não foi revogada a recomendação nem se tornou mais amena a relação. Procurado, o Palmeiras preferiu não se manifestar sobre o assunto.

Neto se desentendeu com o técnico Emerson Leão e durou pouco no Palmeiras - Fernando Santos - 1989/Folhapress

A animosidade, afirma o ex-jogador, não o impede de fazer análises honestas. O volante Felipe Melo, que já o chamou de “bobão” em uma entrevista e é outro de seus desafetos, tem sido elogiado por seu desempenho. Mas até os elogios são carregados do estilo Neto, que os recheia com impressões negativas.

“Eu sou bobão mesmo, sou um pai bobão. Mas tem babão também, as pessoas que babam. Talvez seja o seu caso; o meu, não. Eu nunca deixei de elogiar você quando jogou bola. É mentira? E nós estamos colocando que você é o melhor jogador do time. Agora, você não é líder, as pessoas não te acompanham”, disse, no programa de segunda. Na quinta, provocou os jogadores do rival: “Vocês já estão de fralda”.

Comentarista dos programas apresentados pelo corintiano —“Os Donos da Bola”, na Band, e “Baita Amigos”, no canal pago Band Sports–, Velloso faz uma espécie de contraponto moderado aos comentários inflamados do colega. Ex-goleiro do Palmeiras, ele preenche a cota alviverde das atrações.

“Eu não preciso de jogador do Palmeiras aqui. Dos ex-jogadores a gente precisa”, afirmou Neto, na quarta, em mais uma semana de dérbi na qual fez sua presença ser notada. Ele não joga mais, como bradou em 2017, e não estará em campo no duelo marcado para as 19h de domingo (4), no estádio de Itaquera, mas ainda é um personagem do clássico e tem um lado bem claro: “Eu sou um ídolo do Corinthians, pô”.

 

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