Vela muda provas para ter igualdade de gênero na Olimpíada de 2024

Com duas medalhas a mais para homens em 2020, esporte atingirá equidade em Paris

Chris Museler
The New York Times

A vela olímpica tinha um problema –e um prazo.

Demorou quase um século para que fosse realizada uma prova olímpica de vela para mulheres. Na Olimpíada de Seul, em 1988, uma dupla de velejadoras americanas ganhou a primeira medalha de ouro feminina no esporte, na classe 470. Nos anos posteriores, a vela continuou em desvantagem com relação à maioria dos demais esportes olímpicos, no que tange à paridade de gêneros.

Pressionada por uma instrução do Comitê Olímpico Internacional (COI) a ter número igual de atletas homens e mulheres na Olimpíada de Tóquio, em 2020, a World Sailing, organização que comanda a vela internacional, abriu novas vagas nas provas femininas para atingir essa meta. E em seguida, no final do ano passado, a organização votou por completa igualdade de gênero –em número de atletas e de medalhas– para os Jogos de Paris, em 2024.

Duplas mistas de Argentina e Brasil competem na vela nos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016
Duplas mistas de Argentina e Brasil competem na vela nos Jogos do Rio de Janeiro, em 2016 - William West/AFP

A vela, que em 2020 concederá duas medalhas a mais para homens do que para mulheres, conseguirá chegar à igualdade em 2024 em parte por adicionar provas que não eram parte do esporte no passado: uma regata offshore para duplas mistas e um revezamento misto em "kiteboards".

"Se você deseja ser relevante no futuro, precisa encontrar o balanço correto entre os gêneros", disse Kim Andersen, presidente da World Sailing, em novembro. "Na vela, temos de ser interessantes para a juventude e elevar o nível do esporte misto".

Além da igualdade de gêneros, a Agenda 2020 do COI incluía iniciativas de sustentabilidade e universalidade, solicitando que cada esporte se tornasse mais interessante para a mídia eletrônica por meio de novos formatos e tecnologias.

A Conferência Anual de Vela Mundial, em novembro, votou por transformar quatro das 10 provas de vela na Olimpíada de Paris em 2024 em eventos mistos. O programa de 2024 também incluirá três provas só para mulheres e três provas só para homens, como acontecerá em 2020.

Restando apenas cinco anos para os jogos de Paris, e com novas medalhas em jogo, as federações nacionais de vela se mobilizaram para formar equipes. O Reino Unido realizou uma busca de talentos no "kiteboard", no começo do ano, e recebeu 121 inscrições. Uma equipe nacional está treinando no México, e já apresentou fortes desempenhos, entre os quais uma medalha de bronze na categoria sub-16 da Kitefoil Gold Cup World Series, no final de julho.

"O Reino Unido trouxe uma grande equipe, com muitos jovens", disse Mirco Babini, presidente da Associação Internacional de "Kiteboarding". "Foi ótimo ver o nível de desempenho deles".

Ainda que o "kiteboarding" vá ser novidade na Olimpíada de 2024, trata-se de um esporte popular e decididamente jovem, com um campeonato profissional. O esporte usa um aparelho parecido com um "parasail" para arrastar os participantes em pequenas pranchas e hidrofólios pela superfície da água. A velocidade pode superar os 50 km/h.

Os astros da vela profissional vêm experimentando novos formatos. Em maio, Daniela Moroz, campeã de 'kiteboarding" dos Estados Unidos, venceu a primeira prova mista de revezamento, com Evan Heffernan, no Formula Kiteboarding World Championships, realizado no Lago de Garda, Itália.

"Homens e mulheres têm mentalidades diferentes quanto ao esporte", disse Moroz. "Colocá-los para trabalhar juntos será realmente interessante e bacana".

Babini disse que formatos diferentes de revezamento seriam testados no campeonato europeu de "kiteboarding", em setembro.

Ainda mais audacioso que o "kiteboarding" misto será a prova offshore mista, uma regata de longa distância para duas pessoas em pequenos "keelboats". A versão da vela para a maratona envolverá provas de três dias de duração e será a primeira de seu tipo em uma competição olímpica, e a prova mais longa dos Jogos.

O evento offshore cumprirá dois dos critérios do COI para 2020: atrair mais interesse das redes de mídia eletrônica e promover a igualdade de gêneros. As equipes serão filmadas por câmeras automáticas instaladas nos barcos, ao longo dos três dias em que navegarão ao largo da costa do país sede –uma técnica de cobertura parecida com a usada em corridas oceânicas profissionais de primeira linha como a Vendée Globe e a Volvo Ocean Race. A prova offshore permitiria cobertura ao vivo em qualquer fuso horário.

Um novo evento, a Copa Sardinha, foi criado, em parte para promover a nova modalidade da vela offshore mista. A copa, realizada pela primeira vez em abril, na Bretanha, França, com duplas majoritariamente masculinas, foi vencida por uma dupla mista, Samantha Davies, do Reino Unido, e Yann Elies, da França, os dois mais conhecidos como velejadores solo.

Modalidades como as duplas mistas offshore são uma oportunidade, dizem os dirigentes da vela, para que o esporte chegue a uma audiência mais ampla e atraia velejadores profissionais conhecidos.

"Temos muitos astros da vela profissional, em todo o mundo, que desejam disputar uma olimpíada", disse Nicolas Hénard, presidente da Federação de Vela Francesa e vencedor de duas medalhas de ouro olímpicas. "Com esses astros, atrairemos a televisão".

 

A França, uma potência na vela oceânica solo, organizou campos de treinamento para a vela offshore mista, na primavera, e está tentando atualizar suas políticas a fim de atrair mais velejadoras.

"No nosso esporte, você pode ser campeão olímpico mais tarde na vida, com 30 ou 35 anos", disse Guillaume Chiellino, ex-diretor da equipe nacional de vela da França. "Para as mulheres, essa às vezes é a hora de ter filhos. Queremos levar isso em conta e ajudá-las como mães e para que tenham uma carreira olímpica".

Uma dessas atletas, Charline Picon, conquistou um ouro no windsurfe para a França na Olimpíada do Rio nove meses depois de ter um bebê. A equipe permitiu que ela ficasse fora da vila olímpica e sua família ajudou a tomar conta do bebê. Chiellino disse que em breve os filhos dos velejadores franceses poderiam começar a recorrer aos médicos e fisioterapeutas da equipe de vela. Ele também disse que estava buscando dinheiro para fornecer babás para os filhos dos atletas.

De acordo com as projeções do COI, a representação feminina nos Jogos de Tóquio será pouco inferior a 50% dos atletas, com cerca de um terço das modalidades abaixo da paridade de representação.

O COI vem encorajando os esportes a criar provas mistas a fim de cumprir as metas de igualdade.

A vela realizou sua primeira prova mista no Rio em 2016, com uma tripulação de duas pessoas no catamarã Nacra 17, a categoria mais veloz de regata olímpica.

Nos jogos do Rio houve um total de nove provas mistas; em Tóquio serão 18, entre as quais triatlo misto e tênis de mesa com duplas mistas.

A votação da World Sailing sobre o programa de 2024 foi contenciosa. Alguns membros do conselho argumentaram contra novas provas que exigissem a eliminação de provas masculinas como a da classe Finn, disputada em todas as Olimpíadas desde 1952.

Essa mudança na vela olímpica tem paralelos nas mudanças acontecidas na Olimpíada de Inverno, por exemplo o acréscimo do snowboarding pela Federação Internacional de Esqui em 1998.

"O sistema é construído para a inércia", disse Luke Bodenmeister, antigo diretor do esporte na Federação de Esqui e Snowboard dos Estados Unidos, sobre a seleção de novas provas. "Programas bancados pelo governo incentivam as pessoas a proteger modalidades que às vezes não fazem sentido".

De 1998 para cá, nenhuma prova de esqui foi eliminada para abrir espaço a novas modalidades, um fator que ajudou na expansão do snowboard. Para esportes menos populares, como a vela, o COI muitas vezes só permite novas provas caso uma modalidade existente seja excluída.

Ainda assim, Andersen, o presidente da World Sailing, disse que via a agenda do COI como oportunidade de atualizar seu esporte.

"Se precisarmos mudar modalidades olímpicas para promover a igualdade de gêneros em nosso esporte", ele disse, "por que não fazê-lo?"

Tradução de Paulo Migliacci

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