Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Atletas de direita surfam em onda patriótica e defendem Bolsonaro

Esportistas conservadores celebram novo ambiente, mas ainda apontam preconceito

Fábio Zanini
São Paulo

Há quatro anos, nos Jogos Panamericanos de Toronto (Canadá), uma polêmica se instalou quando medalhistas brasileiros começaram a bater continência para a bandeira do país no pódio.

Em meio a críticas de que estariam exaltando um nacionalismo extemporâneo, o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) teve de vir a público defender o gesto, chamando-o de simples manifestação de patriotismo.

Em 2019, com um governo conservador no poder, o verde-amarelo em alta e a esquerda ainda desnorteada pela eleição do ano passado, tal controvérsia seria difícil de imaginar. Recusar uma ode à bandeira é que está um tanto fora de moda.

Bolsonaro durante recepção aos atletas brasileiros do Pan de Lima
Bolsonaro durante recepção aos atletas brasileiros do Pan de Lima - Pedro Ladeira - 16.ago.2019/Folhapress

Atletas de direita que se sentiam acanhados e até temerosos em expressar suas opiniões sobre política ou valores da pátria relatam, com certo alívio, que o clima mudou. Muitos não relutam em demonstrar de forma clara o posicionamento pró-Jair Bolsonaro (PSL).

"O brasileiro sempre foi nacionalista, mas isso era não tão externado. Para o atleta, que lida diretamente com as cores nacionais, é importante esse sentimento ser massificado", diz Cássio Rippel, 41, um dos principais nomes do tiro esportivo brasileiro e apoiador do presidente.

Medalha de ouro no Pan de Toronto na prova de carabina deitado de 50 m, ele é tenente-coronel do Exército e define a carreira militar como "não um emprego, mas um sacerdócio". "Prometi defender a bandeira com sacrifício da própria vida", afirma. 

Rippel é egresso da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), a mesma onde se formou Bolsonaro, de quem ele é um entusiasta assumido. Previsivelmente, defende uma bandeira do governo que lhe é cara, a facilitação do acesso a armas de fogo.

"No interior de Santa Catarina, onde fui criado, todo mundo tinha uma arma para se defender. Não quer dizer que vamos comprar uma arma da mesma maneira como se compra 1 kg de açúcar no supermercado", declara. "Há uma desvirtuamento muito grande da questão."

Colega de modalidade de Rippel, Felipe Wu, 27, é um dos convidados especiais para desfilar no 7 de setembro do Rio de Janeiro, neste sábado (7). Medalhista de prata na Olimpíada de 2016 na prova de pistola de ar 10 m e terceiro sargento do Exército, ele defende que a população olhe de forma mais positiva para o país.

"É legal termos orgulho da nossa terra. Ainda temos um certo complexo de vira-lata", declara ele, que também elogia Bolsonaro por sua política para as armas. "A lei foi estabelecida contra a vontade popular expressa num plebiscito [em 2005]. O que o governo atual quer é acatar a vontade da população." 

Rippel e Wu fazem parte do programa de esporte de alto rendimento das Forças Armadas, criado em 2008, durante o governo Lula. Os atletas entram via edital e recebem a patente de terceiro-sargento, com direito a soldo e possibilidade uso das instalações militares. Há atualmente cerca de 600 nessa condição.

Nome em ascensão do Stock Car, Gabriel Casagrande, 24, tem em sua conta no Instagram foto ao lado de Bolsonaro na cama do hospital quando o então candidato se recuperava do atentado que sofreu no ano passado. Na imagem, ambos fazem sinal de positivo com o polegar.

"Sou amigo do Carlos [Bolsonaro], ele gosta de corrida", afirma Casagrande, em referência a um dos filhos do presidente. O piloto diz que começou a se definir como uma pessoa de direita há cerca de dois anos, quando se decepcionou com Aécio Neves (PSDB)

"Petista eu nunca fui, graças a Deus. Vi no Bolsonaro alguém que está tentando mudar o país. Mas é preciso paciência. Se deram 16 anos para o PT, tem que dar pro Jair também", diz ele, que ficou em segundo lugar na recente Corrida do Milhão, principal prova da categoria. 

Em sua modalidade, afirma Casagrande, praticamente todo mundo se define como de direita. "Na Stock Car, de esquerda, só os jornalistas", diz. 

Apesar do clima mais favorável, muitos esportistas procurados pela Folha não quiseram se manifestar sobre suas posições políticas. Para Luiz Lima, 41, ex-integrante da seleção brasileira de natação e atualmente deputado federal pelo PSL-RJ, ainda há vários entraves para atletas manifestarem suas convicções.

"Pessoas que me admiravam como atleta me rejeitam por causa da minha ideologia política", afirma o deputado, que disputou as Olimpíadas de Atenas (1996) e Sydney (2000). Além disso, diz, clubes e patrocinadores não costumam ver com bons olhos que atletas se posicionem.

Lima afirma que formou suas convicções de direita ao longo das viagens que fez em 16 anos de carreira como nadador profissional. "Eu tive a oportunidade de visitar 45 países e morar fora. Os de melhor qualidade de vida têm forte tradição de direita, com ordem social e economia liberal", diz.

​Na campanha eleitoral do ano passado, diversos atletas se manifestaram em defesa de Bolsonaro, muitas vezes recebendo críticas por isso. No futebol, naturalmente, a repercussão foi maior, como ocorreu com jogadores como Diego Souza (Botafogo), Lucas Moura (Tottenham) e Felipe Melo (Palmeiras). 

Mas há exemplos em outros esportes. Em setembro do ano passado, dois jogadores da seleção masculina de vôlei, Wallace e Maurício Souza, fizeram com as mãos alusão ao número 17, de Bolsonaro, após uma vitória sobre a França no Mundial.

A Confederação Brasileira de Vôlei reagiu proibindo as manifestações políticas, o que na época gerou protestos de direitistas de que estaria havendo censura.

Em conversa com a Folha na semana passada, Wallace demonstrou incômodo ao ser questionado sobre o tema. "Nem Jesus agradou a todos e não sou eu que vou agradar. Não foi o meu voto que fez o cara ser presidente. Não devo satisfação a ninguém", afirmou.

Apesar de um clima mais favorável, atletas reclamam que ainda são repreendidos ao manifestarem posições mais conservadoras, como se não tivessem esse direito. 

"No caratê a gente aprende a respeitar o adversário acima de tudo. Eu respeito as opiniões dos outros e espero que respeitem a minha", diz Douglas Brose, 33, bicampeão mundial da modalidade. 

Terceiro-sargento do Exército, Brose afirma que a orientação do comando da Força é para que atletas não se envolvam em assuntos políticos. "Mas isso não quer dizer que eu não possa postar uma foto", afirma. 

Uma delas, com Bolsonaro e a delegação que disputou o Pan de Lima (Peru), teve 6.300 curtidas e 260 comentários. "Uma honra! Brasil acima de tudo!", escreveu o atleta.

Segundo Cristiano Barreira, presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte (Abrapesp), o esporte não é politicamente neutro. "A questão do nacionalismo, do patriotismo, tem um forte apelo emocional. O esporte acaba sendo uma instituição que absorve muito facilmente esse discurso", afirma.

Para ele, muitos atletas podem estar agindo de modo irrefletido ou até oportunista ao exaltar valores conservadores. "Podem estar apenas entrando numa onda que dá retorno de audiência, que os torna influenciadores digitais", afirma. 

Atletas de direita

  • Futebol: Lucas Moura (Tottenham), Felipe Melo (Palmeiras), Diego Souza (Botafogo), Jadson (Corinthians) 
  • Vôlei: Wallace
  • Basquete: Nenê
  • Tiro: Felipe Wu, Cássio Rippel
  • Caratê: Douglas Brose
  • Stock Car: Gabriel Casagrande
  • MMA: José Aldo, Royce Gracie, Wanderley Silva

Colaborou DANIEL E. DE CASTRO, de São Paulo

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