Basquete argentino ama e refuta geração de ouro para se impor

Liderado por Scola, 39, e Campazzo, 28, time está nas semifinais no Mundial

Daniel E. de Castro
São Paulo

Enquanto a maioria dos jogadores da seleção argentina de basquete pulava, gritava e batucava em todos os objetos disponíveis no vestiário após a vitória sobre a Sérvia, na última terça-feira (10), um comedido Luis Scola entrou no local e abraçou seus companheiros um a um.

Aos 39 anos, o ala-pivô também se mostrava emocionado com o resultado de 97 a 87 nas quartas de final da Copa do Mundo da China, mas não extravasava da mesma forma que os jogadores mais novos.

Scola é o único remanescente na equipe que disputa o Mundial da chamada geração dourada do basquete argentino, responsável por uma das maiores glórias esportivas da história do país ao conquistar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.

Aquele time, que além de Scola tinha destaques como Manu Ginóbili, Carlos Delfino e Andrés Nocioni, surgiu no cenário internacional durante o Mundial de Indianapolis, em 2002, quando venceu a seleção dos Estados Unidos e terminou com o vice-campeonato, após perder para a Iugoslávia na prorrogação em jogo que havia liderado até os segundos finais.

Amadurecida pela derrota amarga, a equipe sul-americana voltou a ser sensação dois anos depois, desta vez na Olimpíada, com vitórias sobre os anfitriões gregos nas quartas de final. Voltaram a derrotar os americanos na fase seguinte e fecharam a campanha com triunfo sobre a Itália.

Ainda com integrantes da reverenciada geração, o país conquistou também a medalha de bronze nos Jogos de Pequim-2008 e transformou o basquete argentino em uma escola relevante mundialmente até os dias de hoje, mesmo com resultados menos expressivos nos últimos anos.

Por outro lado, aquele ouro também tornou-se um sarrafo elevado para o atual grupo de jogadores, como deixou claro o ala-armador Patricio Garino, 26, antes do início deste Mundial.

"Estamos todos cansados da geração dourada. Nós os admiramos, os amamos, eles são exemplos a seguir, mas é isso, a geração dourada já passou. Qualquer coisa de similaridade e experiência, pergunte a Luis [Scola]", disse o atleta, que destacou a na ocasião a oportunidade para um grupo relativamente jovem (média de idade 27 anos) de jogar sob pouca pressão.

Scola, remanescente da geração dourada, e Campazzo, principal nome do time atualmente, comemoram vitória em jogo do Mundial
Scola, remanescente da geração dourada, e Campazzo, principal nome do time atualmente, comemoram vitória em jogo do Mundial - Cheng Min - 2.set.19

Garino é um dos oito integrantes do elenco que atuam no basquete espanhol. O craque do time, o armador Facundo Campazzo, 28, defende o Real Madrid e foi eleito o melhor jogador das finais na última temporada no país europeu. Ele tem apenas 1,78 m de altura.

Outros três atletas jogam na própria Argentina, e Scola, com 10 temporadas de NBA no currículo, está sem clube após passar pelo basquete chinês. Ele ainda não decidiu se continuará em atividade depois do Mundial, embora os próprios companheiros já tenham lançado uma campanha para que ele dispute a Olimpíada de Tóquio-2020.

Como a liga chinesa acabou mais cedo em comparação aos campeonatos da Europa, Scola chamou um técnico e um preparador físico para trabalhar em particular por 90 dias na quadra que construiu em Castelli, província de Buenos Aires, antes dos Jogos Pan-Americanos e do Mundial.

Com médias de 17,8 pontos e 7,3 rebotes por partida na China, o veterano ainda se mostra uma peça fundamental na renovada equipe argentina, que não conta com nenhum atleta da NBA. É a primeira vez neste século que um semifinalista do Mundial chega a essa fase sem jogadores da liga americana no elenco.

Esse não tem sido mesmo um torneio comum. Num campeonato em que os dois times apontados como principais favoritos ao título, EUA e Sérvia, ficaram pelo caminho nas quartas, ninguém dirá que a atual geração da Argentina não está apta a escrever sua própria história gloriosa.

Às 9h desta sexta (13), os sul-americanos enfrentam a França, responsável por despachar os americanos, pelas semifinais. Mais cedo, às 5h, Espanha e Austrália duelam pela outra vaga na decisão.

Como a expectativa mais realista no país era chegar até as quartas de final da Copa do Mundo, a vitória sobre a Sérvia mexeu com os torcedores da seleção de basquete como há tempos não se via.

Ginóbili foi um dos que não contiveram a euforia nas redes sociais: "Uma máquina! Comovente! Que lindo joga esta equipe! Aplausos", escreveu no Twitter após a vitória.

Outro representante da geração dourada, Fabricio Oberto escreveu em texto no jornal Clarín que vê semelhanças entre o time atual e o que esteve no Mundial de 2002 "pela fluidez, pela forma de se defender, pelo sentimento que colocam, pela participação de todos e porque quem entra não liga se jogará poucos ou muitos minutos e entrega tudo".

Descontada a empolgação natural do momento, seria difícil pensar num prenúncio melhor para os próximos anos.

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