Campeonato na Groenlândia é o mais curto e remoto do planeta

Partidas, lesões, controvérsias e comemorações são comprimidas em uma semana

Rory Smith
Sisimiut (Groenlândia) | The New York Times

A jornada de barco em torno da costa bravia e rochosa da Groenlândia durou três dias. Foi longa e lenta, e parava em aparentemente cada aldeia no caminho para apanhar passageiros e deixar pacotes. O cenário é espetacular: montanhas de picos nevados subindo do mar, fiordes recortando a paisagem intocada. No entanto, depois de algum tempo Inuk Mathaussen descobriu que até mesmo o cenário deixava de interessar. Em sua recordação, a viagem foi "tediosa".

Passar todo aquele tempo no mar não foi o único sacrifício de Mathaussen. Ele teve de deixar sua parceira e o filho do casal, de um ano, em casa sozinhos por duas semanas. Usou preciosos dias de férias. Também gastou centenas de dólares: com transporte, hospedagem, equipamento e taxas de inscrição.

Em retorno, quando o barco chegasse ao seu destino ele teria o dúbio prazer de passar sete noites dormindo em um colchão no ginásio de uma escola, batalhando para cair no sono em um aposento compartilhado com dezenas de amigos e de desconhecidos. Mas ele não pensou duas vezes sobre a viagem, e o mesmo vale para seus colegas do Equaluk 54, o time de futebol que embarcou nessa odisseia.

Depois de um par de dias, o barco chegou à capital da Groenlândia, Nuuk. Lá, outros dois times embarcaram. Os jogadores percorreram juntos o trecho final —mais oito horas no mar— até chegarem a Sisimiut, uma cidade cerca de 300 quilômetros ao norte.

Lá, eles se uniram a mais alguns dos seis times que disputariam o campeonato de futebol da Groenlândia neste ano. Com certeza é o campeonato mais curto do mundo: apenas seis dias de jogos, começando na segunda-feira e terminando no domingo.

Como sabiam Mathaussen e os demais, no entanto, o torneio também pode ser o mais intenso: toda uma temporada de exaustão física e desgaste mental, drama e intriga, rivalidades e controvérsias, brigas quanto a transferências e brigas internas, tudo isso concentrado em uma só semana. Chegar ao local já é cansativo. Mas isso é só o começo.

Nevoeiro e controvérsia

Sediar o campeonato groenlandês é causa de grande orgulho e de muita pressão. Todos os jogos são transmitidos pela rede nacional de TV da Groenlândia. Por uma semana, os olhos do país —a Groenlândia tem cerca de 56 mil habitantes, a população de uma cidade pequena, espalhada pela maior ilha do planeta— estarão concentrados em Sisimiut.

Para René Lennart Frederiksen, é crucial que tudo corra bem. Diretor do time local, que não conseguiu classificação para o campeonato deste ano, ele dedicou as últimas semanas a garantir que tudo estivesse preparado para as equipes classificadas: verificou o campo de grama artificial, encontrou locais para hospedar os times. Mas antes que a bola entrasse em jogo surgiu um problema.

Com um prazo tão curto para disputar o campeonato, e uma agenda tão lotada, os seis times classificados em geral reservam um tempo longo para a viagem. O time de Mathaussen, Equaluk 54, tinha a maior distância a percorrer, da ponta sul da Groenlândia à sua costa oeste. Os times de Ilulissat e de Qeqertarsuaq viajaram rumo ao sul em águas ocupadas por icebergs, em seu caminho para Sisimiut.

O verão foi incomumente quente —o mais quente de que muita gente consegue se lembrar, e houve incêndios na vegetação das colinas em torno da cidade—, mas ainda assim estamos falando da Groenlândia. O clima continua a ser imprevisível. Na noite anterior ao início do torneio, com cinco dos seis times já alojados em segurança, chegou o nevoeiro.

Isso acontece a intervalos de alguns dias: uma nuvem branca e baixa sobre o mar, que se aproxima inexoravelmente da costa. Ao atingir a terra, o nevoeiro transforma tudo —horizonte, paisagem e o —mar— em uma mancha cinzenta indistinta. A visibilidade é reduzida a alguns poucos metros. A temperatura cai, e a pista de pouso a alguns quilômetros da cidade se fecha.

E desta vez o nevoeiro apanhou não só um grupo de árbitros e uma delegação da federação groenlandesa de futebol, KAK, mas todo um time. E não era qualquer time.

A Groenlândia não é integrante da Uefa, a organização que comanda o futebol europeu, ou da Fifa, que organiza a Copa do Mundo. Seus times são amadores e não participam de competições internacionais. Mas nesse ecossistema isolado, o B-67 —o campeão de 2018 e vencedor de 8 dos 10 últimos títulos da Groenlândia— é a seleção brasileira, o Real Madrid.

O B-67 inspira relutante admiração em seus adversários. Tem os patrocinadores mais generosos, e assim ocupa as melhores acomodações a cada ano. Tende a ser o time mais bem preparado. Atrai os melhores jogadores. "Eles são os mais profissionais", disse Hans Brummerstedt, que jogou anos pelo B-67 antes de se transferir a outro time de Nuuk, o GSS. Mas desta vez, seu planejamento foi menos que perfeito. O B-67 ainda estava em Nuuk quando chegou o nevoeiro. O time não chegou no domingo. Se não conseguisse chegar na segunda, em tempo para sua primeira partida —não há tantos aviões assim na Groenlândia—, o jogo teria de ser adiado.

Em uma reunião naquela noite, os cinco outros times foram inflexíveis: o B-67 deveria perder os pontos da partida. A federação discordou. Determinou que o jogo seria realizado no sábado, normalmente um dia de descanso antes da final.

Torcedores acompanham o duelo entre G-44 (azul) e IT-79 (rosa) do topo do penhasco. O G-44 terminou sem segundo lugar, e o IT-49 em terceiro Kieran Dodds - Kieran Dodds/NYT

Mas antes que essa decisão fosse tomada, o B-67 decidiu não correr riscos e fretou um barco em Nuuk, em lugar de esperar por um voo. Chegou às 3h da terça-feira, com apenas algumas para dormir antes de começar sua defesa do título e seu esforço para manter seu ar de supremacia.
Não foi um começo auspicioso para o campeonato, mas Frederiksen, o diretor local, não se deixou perturbar. "Isso é a Groenlândia, ele disse, dando de ombros, sem desviar os olhos do campo. 
 

Uma semana é muito tempo

A voz que atendeu o telefone no hospital foi brusca. O hospital havia recebido dois telefonemas em rápida sucessão, sobre mais dois jogadores lesionados no campo de futebol. A paciência estava se esgotando, e a simpatia também.

"Eles disseram que têm outros pacientes para tratar", informou Kuutak Olsen, jogador e treinador do GSS, que fez o segundo telefonema. "Disseram que enviariam uma ambulância, desta vez, mas que depois disso só virão em caso de fratura". Isso aconteceu na tarde de terça-feira. Era o segundo dia do campeonato.

Na maioria das ligas de futebol do planeta, coroar um campeão leva quase o ano todo. Na Premier League da Inglaterra, a temporada se estende de agosto a maio. Assim, jogar toda uma temporada em uma semana é um teste de resistência para todos os envolvidos.

Há o exemplo de Hans Frederik Olsen, enviado de Nuuk para cobrir o campeonato como narrador. Esse é seu sonho de infância, ele disse, mas é trabalhoso: narrar três jogos por dia o mantém no microfone das 15h às 21h. "Para ele é mais difícil", disse Andreas Paulsen, o comentarista. "Eu não preciso falar tanto".

Há o caso de Kasper Bro Rasmussen, fisioterapeuta dinamarquês que se mudou para a Groenlândia um ano atrás —a ideia parecia "uma aventura", ele disse— e serve como um dos quatro árbitros do torneio.

Deveria haver mais juízes, mas o nevoeiro causou atrasos e dois deles não chegaram. Rasmussen conclui seu turno no hospital às 16h, vai de bicicleta para o campo de futebol, coloca o uniforme, apita um jogo e trabalha como bandeirinha no seguinte.

Há os voluntários locais, desempenhando todos os papéis imagináveis, quer seja vender café muito amargo e bolos caseiros aos torcedores, trabalhar como locutores, registrar estatísticas oficiais ou hastear bandeiras groenlandesas e instalar placas de publicidade nas cercas montadas para manter cães de trenó e "snowmobiles" fora do gramado no inverno.

O estádio tem cerca para manter cães de trenó e 'snowmobiles' (moto de neve) fora do gramado no inverno, na cidade de Sisimiut, a sede do campeonato de futebol da Groenlândia. - Kieran Dodds/NYT

E há a cidade como um todo: as famílias que fornecem comida para os times, os telefonistas atarefados do hospital, a equipe da padaria que trabalha sem pausa no horário de almoço.

No entanto, são os jogadores que mais sofrem as consequências. Os cinco jogos em cinco dias são rápidos e duros. Lesões são comuns, e inevitáveis, e o tratamento é o que quer que esteja disponível —analgésicos, bandagens, um banho de gelo improvisado nas águas árticas da baía de Baffin. Depois, os jogadores ficam sem cuidados. Só nos casos mais sérios é considerado aceitável incomodar o hospital.

Um dos jogadores lesionados na terça-feira foi Mathaussen. Era sua primeira oportunidade de começar como titular, na sua primeira participação no campeonato nacional, depois de três dias de viagem e resultando em duas semanas longe da família. Ele saiu machucado depois de apenas alguns minutos em campo.

Quando chegou ao hospital, foi informado de que sua lesão era séria. Sua perna foi imobilizada e ele recebeu muletas. O torneio estava encerrado para ele. Mas não seria possível voltar para casa antes que o time concluísse sua participação, e de qualquer jeito ele queria ficar para torcer. "Vou ficar e assistir", ele disse. "É assim que as coisas são, quando você joga futebol no fim do mundo". 
 

Um prêmio que vale a pena ganhar

À noite, Hans Brummerstedt dorme em um colchão no chão do ginásio, cercado por seus colegas do GSS. Ele coloca os fones de ouvido. Todos estão tão cansados, depois de alguns dias de jogos, que em geral o aposento silencia lá para a meia-noite, mas há sempre sussurros, tosses, engasgos. Mesmo assim, ele acredita ter ouvido um barulho, como uma bola quicando sobre uma mesa de pingue-pongue. Infelizmente, Brummerstedt percebe no escuro, alguém deixou uma bola de pingue-pongue no ginásio, e os times decidiram jogar para passar o tempo.

Os jogadores passaram dois meses se preparando para o campeonato. A maioria joga futsal durante o longo e escuro inverno —o estilo de jogo groenlandês é surpreendentemente técnico, e mostra a experiência dos jogadores com a bola menor e mais pesada do futsal. Na primavera, eles se reúnem para treinar a céu aberto.

Há testes de jogadores, e todos os selecionados precisam pagar cotas para participar do time, em geral da ordem de US$ 75. Depois, eles treinam por algumas semanas, usualmente antes das eliminatórias regionais, que são disputadas em julho. Para muita gente, a semana do campeonato, em agosto, é o ponto alto do ano. "É, de fato", disse Pauli Thomsen, jogador do IT-79, um dos três times de Nuuk, "a Copa do Mundo".

Não é bem assim que o GSS trata o torneio. "Não viemos esperando vencer", disse Kuutak Olsen, colega de time de Brummerstedt. "Nem temos patrocinadores reais, porque não esperávamos nos classificar".

Eles dizem ter vindo pela diversão. As ambições do time não vão além de evitar o último lugar. Seus dias ecoam esse sentimento: acordam tarde, entre as 9h e as 10h, para compensar a fadiga do dia anterior.

Tomam café da manhã juntos na escola diante do ginásio onde dormem, e depois têm algumas horas livres. Depois do almoço, eles colocam os uniformes, fazem uma reunião curta do time e vão para o campo. No entanto, o GSS é uma exceção. A maioria dos times é mais disciplinada. O IT-79, campeão dois anos atrás, está hospedado em um jardim da infância não longe do ginásio. O andar de baixo serve como dormitório.

Em cima, uma sala de aula é usada para discussões táticas. Há um calendário impresso preso à parede, informando os jogadores sobre os planos do dia. Os horários estão marcados em intervalos de 30 minutos.

Cada dia reserva um horário para um almoço coletivo do time e caminhada por Sisimiut, antes de os jogadores colocarem os uniformes e subirem para ouvir a preleção tática do capitão e treinador Kaassannguaq Zeeb. No final da reunião, eles formam um círculo, com os braços sobre os ombros dos jogadores vizinhos, e soltam seu grito de guerra.

Sabem quanta coisa está em jogo. Sabem que seus amigos estão assistindo em casa. Veem que o Facebook está repleto de vídeos das partidas. Vídeos de jogadores que cometem erros, levam tombos ou fazem jogadas bonitas são compartilhados rápida e amplamente.

"Se você joga bem, as pessoas o param na rua e parabenizam", disse um jogador, Inuuteq Kreutzmann. "E se você for campeão, ainda mais".

Eles também sabem que o maior prêmio é mais duradouro que a fama viral. Além de uma medalha, cada jogador do time campeão ganha uma lâmina de arpão dourada, honraria conferida pela associação esportiva da Groenlândia. "É um prêmio importante", disse Brummerstedt.
Ele tem duas delas em casa, conquistadas quando defendia o B-67, e sabe o quanto custa obtê-las. Depois do campeonato deste ano, ele se mudará para Copenhague com a namorada, para estudos universitários. Não pretende levar muita coisa. Mas as lâminas de arpão viajarão com ele. "São especiais", diz. 

O vestiário dos atletas é composto por duas traves e revestido por lona, no estádio de Sisimiut - Kieran Dodds/NYT

Dedicação

Helga Zeeb usa uma camiseta vermelha e branca, um chapéu vermelho e branco e uma echarpe vermelha e branca, ao descer a encosta apressadamente. A estampa de seus brincos é um escudo vermelho e branco. Ela corre para passar pela área que serve como vestiário dos árbitros, e pela lanchonete, chegando aos bancos de reservas. E imediatamente começa a chorar. Zeeb se descreve, com um sorriso, como "torcedora maloqueira do G-44".

Ela veio com o time de Qeqertarsuaq para o campeonato e estava acomodada na encosta que serve como arquibancada para os jogos. O seu grito de guerra, "G-44, G-44", em dinamarquês e inglês, contagiou a torcida local.

Chegando à lateral do campo, Zeeb busca os jogadores caídos e lhes oferece abraços calorosos de congratulação. Umas vitória na última partida da sexta-feira confirmou a presença do G-44 na final do domingo. Só mais tarde, sentada na varanda da casa de sua irmã em Sisimiut, enquanto o time come filés de carne de rena do lado de dentro, ela recupera a compostura. A devoção de Zeeb ao G-44 é absoluta: seu pai foi um dos fundadores do clube, e três de seus sobrinhos jogam nele.

Só resta decidir o adversário do G-44 na final. Falta apenas um jogo: a partida do sábado, adiada por conta do nevoeiro, entre o G-67, o Real Madrid da Groenlândia, e o N-48, o time que o B-67 derrotou na final do ano passado. É uma partida que, para alguns dos times presentes na competição, deveria ter sido vencida pelo N-48 por WO. Agora tudo depende de seu resultado.

Os envolvidos se preparam da melhor maneira possível. Rasmussen, o juiz, sai da cidade para alimentar seus cães de trenó. Os jogadores do N-48 jantam carne de foca na sexta-feira —"é bom para a energia", de acordo com Frederiksen—​ e depois caminham vagarosamente até o sopé do monte Nasaasaaq, que avulta sobre Sisimiut, na manhã de sábado. O time foi campeão da Groenlândia pela última vez em 2007. Essa é sua chance.

Frederiksen e sua equipe de voluntários não economizaram nos preparativos: o tema de Ennio Morricone para "Feios, Sujos e Malvados" estronda nos alto-falantes do gramado, assim como canções da banda groenlandesa Chilly Friday. A maioria dos outros times do campeonato está presente para assistir, com o pessoal uniformizado e posicionado na encosta.

O jogo termina sendo fácil. O N-48 passa por cima, faz 4 a 0 e nega ao poderoso B-67 uma vaga na final.

A torcida começa a se dispersar lentamente, voltando à cidade e à vida normal. Os jogadores do N-48 lotam carros e vão à praia, mergulhar as pernas na água fria para tentar se recuperar. Para eles, e todos os times, há mais uma noite a dormir em colchões, em alojamentos improvisados. Uma partida mais a disputar.

Durante os sete dias de torneio, os jogadores dormiram em colchões espalhados pelo chão de um ginásio na cidade de Sisimiut - Kieran Dodds/NYT

O N-48 derrota o G-44 na final, e o IT-79 fica com o terceiro lugar, superando o Real Madrid groenlandês. O GSS, de Brummerstedt, termina em último. Logo todos eles estarão voltando para casa, de novo no mar, prontos para recomeçar suas vidas.

O torneio começou há apenas sete dias, mas parece ter sido muito mais longo. Uma temporada de apenas uma semana de duração ainda é uma temporada. Parece levar meses. Antes do dia da final na noite de sábado, Frederiksen e um de seus voluntários saíram ao mar. O nevoeiro estava chegando de novo, mas eles queriam caçar focas.

A semana havia sido dura para Frederiksen, e ele queria relaxar. "Quando estou aqui", ele disse, inclinando as costas, com a arma engatilhada, "nada mais existe".

Com o barco balançando nas ondas e o rádio sintonizado em suaves baladas da Groenlândia, ele admitiu estar satisfeito com o resultado da semana, mas também disse estar feliz por ela estar chegando ao fim.

Ajudar o futebol a florescer aqui no fim do mundo requer muito de todos. Enquanto ele estava cuidando do torneio, sua parceira ficou tomando conta dos três filhos do casal. Ele disse que a compensaria.

"Eu já disse que no ano que vem não vou dedicar tanto tempo ao futebol", disse Frederiksen. Ele fez uma pausa, olhando para as ondas, para o nevoeiro. "Exceto para jogar".

Tradução de Paulo Migliacci

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