Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Ser neozelandês é quase regra para treinar na Copa do Mundo de rúgbi

Treinadores do país mais vitorioso comandam 7 das 20 seleções no torneio

Joshua Robinson
Londres | The Wall Street Journal

Se os 20 últimos anos nos ensinaram alguma coisa, é que a Copa do Mundo de Rúgbi consiste essencialmente de seis semanas de esforços para descobrir se alguém é capaz de derrubar a Nova Zelândia. A resposta em geral é não.

Os All Blacks são a seleção nacional mais poderosa que o esporte já viu. Venceram a Copa do Mundo três vezes e são fortes favoritos a um quarto título. A última vez que a Nova Zelândia perdeu uma partida no torneio, a maior parte de sua atual seleção estava no segundo grau.

Assim, para reduzir a desvantagem ante os neozelandeses, outras seleções se voltaram à solução mais prática que encontraram: contratar um treinador vindo da Nova Zelândia. Quando a Copa do Mundo começar, na sexta-feira (20), 7 dos 20 treinadores de seleções serão neozelandeses, além de pelo menos uma dúzia de auxiliares.

O técnico neozelandês do Japão, Jamie Joseph, durante treino dos anfitriões da Copa do Mundo
O técnico neozelandês do Japão, Jamie Joseph, durante treino dos anfitriões da Copa do Mundo - Odd Andersen/AFP

Com uma população de 4,8 milhões de pessoas, isso significa que 1 de cada 700 mil neozelandeses está treinando uma seleção na Copa do Mundo de Rúgbi. As seleções de outros países comandadas por treinadores da Nova Zelândia são Fiji, Geórgia, Irlanda, Samoa, País de Gales e a do país anfitrião, o Japão.

"Tentar fazer coisas que ninguém jamais fez é um marco do que o povo neozelandês busca", disse Steven Hansen, treinador dos All Blacks. "Deixamos nossas terras e nos assentamos em um pais no extremo sul do planeta".

No nível mais básico, que equipes busquem progredir com ajuda de treinadores neozelandeses faz perfeito sentido. Se alguém estivesse disputando a copa do mundo do croissant, provavelmente buscaria um treinador francês. E para um país disputando a Copa do Mundo de Rúgbi —e que não tenha qualquer implicância histórica com a Nova Zelândia—, a lógica é a mesma: o melhor é contratar um neozelandês.

O esporte pode ter sido inventado nos gramados da Inglaterra, mas ninguém o aperfeiçoou como os All Blacks. Sua porcentagem histórica de vitórias é de 77%. O time combina estilo, capacidade atlética e criatividade ofensiva de uma forma que torna assisti-los eletrizante e faz deles favoritos automáticos não importa quem seja o adversário.

Jogadores da seleção da Nova Zelândia durante treino no Japão
Jogadores da seleção da Nova Zelândia durante treino no Japão - Charly Triballeau/AFP

Mas muito poucos esportes viram uma tal diáspora de treinadores. Mesmo o World Baseball Classic —talvez o mais americano dos torneios esportivos internacionais— tinha proporção menor de treinadores nascidos nos Estados Unidos do que os 35% de treinadores neozelandeses na Copa do Mundo de Rúgbi.

Essa corrida do rúgbi internacional por talentos neozelandeses não está acontecendo em um vácuo. É uma consequência do rúgbi de clubes na Nova Zelândia, recheado de talentos, no qual treinadores neozelandeses são mais populares que uma cerveja no pós-jogo.

Na temporada passada do Super Rugby, a liga que une os melhores times do hemisfério sul, 8 dos 15 treinadores eram neozelandeses. Mesmo a Copa dos Campeões do Rúgbi Europeu, o torneio equivalente no hemisfério norte, viu neozelandeses comandando um quarto de seus times.

Mas no cenário internacional, uma comissão técnica neozelandesa não basta se você não tiver jogadores neozelandeses. Tonga, por exemplo, que tem Dan Cron, antigo integrante dos All Blacks, como treinador assistente, recebeu um lembrete violento disso em uma partida contra a Nova Zelândia alguns dias atrás.

"Perder por 92 a 7 é um grande fator de motivação", disse Cron, cuja pai é o coordenador dos forwards dos All Blacks. "Jogadores não gostam de perder por um placar como esse, especialmente se o jogo é transmitido pela TV nacional."

TJ Perenara, dos All Blacks, é agarrado por jogadores de Tonga durante amistoso
TJ Perenara, dos All Blacks, é agarrado por jogadores de Tonga durante amistoso - Michael Bradley - 7.set.19/AFP

Assim, para a maioria dos neozelandeses que estão se aventurando em outras terras, a missão na verdade é levar uma pitada do conhecimento neozelandês sobre o rúgbi a países onde o esporte é menos desenvolvido. Joe Schmidt e Warren Gatland, que comandam as seleções da Irlanda e do País de Gales, respectivamente, são mais exceções que a regra.

Um exemplo mais típico é o anfitrião, Japão. Os japoneses contrataram Jamie Joseph, que jogou pelos All Blacks, em 2016, na esperança de passar da fase de grupos na Copa do Mundo de Rúgbi pela primeira vez na história.

"Nosso jogo se baseia em velocidade, talento e estrutura", disse Joseph. "Mas a diferença-chave este ano é que estamos em forma boa o bastante para disputar as partidas. Estamos treinando em um nível de intensidade 25% mais alto que o das partidas. Acho que essa é nossa principal arma."

A área em que muitos países podem não conseguir recuperar o atraso com relação à Nova Zelândia é o desenvolvimento de talentos. O manancial neozelandês parece nunca se esgotar. Quando vestem a idolatrada camisa preta, os jogadores jovens já conhecem o estilo de jogo dos All Blacks e o nível de excelência da equipe. Em um país de população semelhante à do Alabama, o treinamento, em todas as categorias, tem muito a ver com isso.

O outro aspecto é a cultura neozelandesa. Ainda que a prática do rúgbi agora perca em número de atletas para a do futebol, de acordo com um estudo da Sport New Zealand, o esporte continua a atrair os melhores atletas jovens.

Na Nova Zelândia, pouca coisa significa mais do que uma convocação para os All Blacks, no qual cada jogador a representar o país tem um número único colocado em seu uniforme. É uma seleção para a qual qualquer derrota é catastrófica. Apesar de todo o conhecimento que exporta sobre o rúgbi, a Nova Zelândia sabe que nenhum outro país exige tanto de sua seleção.

"A Copa do Mundo é o maior palco do rúgbi, mas tenho certeza, por experiência própria, que usar a camisa preta sempre traz pressão", disse Anton Lienert-Brown, center dos All Blacks. "A expectativa é sempre de que não só ganhemos, mas ganhemos bem".

A ironia é o vasto número de pessoas que portam o mesmo passaporte que o dos integrantes dos All Blacks e estão tramando como deter os neozelandeses.

Copa do Mundo de Rúgbi 2019

Quando: 20 de setembro a 2 de novembro

Onde: Japão

Fórmula de disputa: as equipes se enfrentam em seus grupos, e as duas melhores de cada um se classificam para as quartas de final

Grupo A: Irlanda, Escócia, Japão, Rússia e Samoa
Grupo B: Nova Zelândia, África do Sul, Itália, Namíbia e Canadá
Grupo C: Inglaterra, França, Argentina, EUA e Tonga
Grupo D: Austrália, País de Gales, Geórgia, Fiji e Uruguai

Onde ver: a ESPN transmitirá 48 jogos ao vivo, que começarão entre 1h40 e 7h45 (horários de Brasília)

Tradução de Paulo Migliacci

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