Descrição de chapéu The New York Times

Era ofensiva da NFL revoluciona várias funções no futebol americano

Além dos badalados quarterbacks, esporte mexe com a dinâmica de outras posições

Nova York | The New York Times

Os ataques modernos da NFL optam primeiro pelo passe em quase todas as descidas. O foco no jogo aéreo transformou os quarterbacks em deuses, com movimentos velozes de arremesso, e fez dos wide receivers verdadeiras divindades da end zone —e com os passos de dança necessários para confirmar esse status.

Mas a evolução ofensiva do futebol americano profissional também resultou em revolução em outras posições. O linebacker central, sempre encarregado de parar corridas, no passado um arquétipo entre os jogadores de defesa da NFL, se transformou em um esperto e versátil jogador multitarefas que também pressiona o quarterback e defende contra o jogo de passes.

Os safeties foram forçados a desenvolver habilidades híbridas: acompanhar as corridas dos velozes tight ends adversários pelo campo todo e aprender a forçar a linha de scrimmage na defesa contra corridas. Os fullbacks continuam a ser jogadores durões encarregados das tarefas brutas, mas agora eles vêm em diferentes tamanhos e com talentos distintos.

A lista segue. O slot cornerback, no passado um reserva, agora é titular, para todos os fins práticos. Os linemen ofensivos internos, sempre anônimos, são muito procurados e celebrados entre os colegas.
Assim, é fato, os glamorosos quarterbacks continuam a receber toda a atenção. Mas o jogo está mudando em muitas posições. Você só precisa saber onde olhar.

O quarterback Patrick Mahomes, do Kansas City Chiefs, principal revelação da última temporada da NFL
O quarterback Patrick Mahomes, do Kansas City Chiefs, principal revelação da última temporada da NFL - Peter Aiken - 24.ago.19/AFP

Lineman ofensivo interior - Quenton Nelson, Indianapolis Colts

O trabalho de um guard costumava ser o de simplesmente ficar no caminho —um corpo robusto para abrir um espaço para um running back, ou um defensor firme ajudando a segurar a linha contra tentativas adversárias de interferir com o passe.

Quenton Nelson, do Colts, prefere empurrar os adversários que correm em sua direção para trás, até cair em cima deles, o chamado "bloqueio panqueca". Ainda que às vezes nem isso baste para Nelson, um dos raros calouros escolhidos para o time da NFL como guard, na temporada passada.

"Ele gosta de ficar sentado em cima do adversário depois que o derruba, como um leão no Serengeti [região na Tanzânia e no Quênia] sentado orgulhosamente sobre sua presa", disse Brian Baldinger, ex-lineman ofensivo da NFL e hoje comentarista da NFL Network.

Colegas de time dizem que Nelson volta ao huddle, depois dessas jogadas, com um sorriso no rosto, o que Nelson contesta.

"Eu certamente gosto, mas não diria que fico com um sorriso no rosto", disse Nelson. "Não tenho tempo para ficar feliz a respeito. Há sempre a próxima jogada".

Nelson foi a sexta escolha no draft de 2018, uma posição incomumente alta para um lineman ofensivo interior (ele foi o segundo jogador dessa posição a ser escolhido tão cedo desde 2001). Mas os dias em que guards e centers eram escolhidos só para preencher espaços no meio da linha —enquanto os tackles, nas pontas, eram elogiados e cultivados— ficaram no passado. Especialmente se alguém como Nelson, um jogador de 1,95 m e 150 kg, escolhido por unanimidade para o time da liga quando defendia a Universidade Notre Dame, está disponível.

"Com os times da NFL agora colocando alguns de seus maiores, mais fortes e mais rápidos jogadores de pressão contra o passe no meio, como nose tackles, é melhor selecionar alguém como Nelson com a sexta escolha, se ele estiver disponível", disse Bob Wylie, que alguns meses atrás deixou o Cleveland Browns depois de quase 40 anos como treinador de linha ofensiva no futebol americano universitário e profissional. "Ele é um dos dois ou três caras da liga capaz de executar um bloqueio individual e, sem ajuda, realmente derrubar o adversário".

Para Nelson, esse é o imperativo do que ele chama de "combate pessoal".

"Tento impor minha vontade aos oponentes", ele disse. "Se o cara que você marca não consegue fazer jogadas, fica frustrado. A motivação dele diminui. Isso fica visível".

Os jogadores que se posicionam atrás de Nelson, especialmente o quarterback, colhem os benefícios, o que hoje em dia costuma ser o objetivo final. Nelson certamente vai tornar mais fácil a vida do quarterback Jacoby Brisset, que herdou o posto de titular do Colts quando Andrew Luck inesperadamente anunciou sua aposentadoria, no mês passado.

"Os quarterbacks atuais aprenderam a lidar com a pressão vinda da periferia", disse Baldinger. "O que realmente os incomoda é não poderem avançar no pocket por conta de pressão que venha pelo meio. É para isso que alguém como Nelson é valioso. Às vezes, ele bloqueia dois caras em uma jogada. Ele é como um bom encanador, remendando cada vazamento".

"Todos os times atuais querem um guard como ele".

Ed Oliver, do Buffalo Bills, tenta passar por Quenton Nelson, do Indianapolis Colts, em jogo da pré-temporada
Ed Oliver, do Buffalo Bills, tenta passar por Quenton Nelson, do Indianapolis Colts, em jogo da pré-temporada - Brett Carlse - 8.ago.19/AFP

Linebacker que cobre passes - Deion Jones, Atlanta Falcons

Às vezes, os ataques alinham wide receivers contra Deion Jones, um linebacker central que se tornou astro do Atlanta Falcons, procurando uma vantagem na cobertura. Quando calouro, em 2016, ele prometeu ao treinador Dan Quinn que não seria necessário reforçar a linha com um defensive back —ele era capaz de cuidar do problema. Agora, quando isso acontece, Jones só sorri.

"Gosto de enfrentar caras que supostamente não costumo encarar diretamente, e de me dar bem quando o faço", disse Jones em entrevista por telefone.

Com 1,85 m e 101 kg, Deion Jones é extraoficialmente o mais rápido dos linebackers centrais da liga. Ele usa essa velocidade para cobrir e convergir, para perseguir os jogadores de posições híbridas para os quais os quarterbacks agora fazem passes —running backs velozes como Christian McCaffrey, do Panthers, ou tight ends grandalhões e bons recebedores de passes como Travis Kelce, do Chiefs.

Poucas defesas dispõem de linebackers rápidos, longos e atléticos o bastante para marcar esses dois tipos de oponentes.

"Você precisa ser capaz de marcar o jogo de passe, se quer durar na liga, porque as coisas ficam difíceis se não o faz", disse Quinn em entrevista por telefone. "No passado, poderíamos ter dito que ele é um jogador de primeira ou segunda descida. Agora não se pode mais dizer isso".

Jones joga nas três descidas porque Quinn confia nele para fazer cobertura e para tackles, que garantem que um passe de cinco jardas seja só um passe de cinco jardas. Ele sempre foi veloz: o pai de Deion, Cal, o apelidou de Debo, uma combinação de Deion Sanders e Bo Jackson.

O Falcons viu Jones correr 40 jardas em 4s38 em seu "pro day" —velocidade semelhante à de outro astro da Universidade Estadual da Louisiana, Odell Beckham Jr., no dia de testes de calouros da liga em 2014— e percebeu a força que ele poderia se tornar.

Desde que Atlanta selecionou Jones na segunda rodada do draft de 2016, só Alec Ogletree, do Giants, fez tantas interceptações (oito), de acordo com o Pro Football Reference, ainda que Jones tenha ficado fora de 10 jogos na temporada passada com uma lesão no pé. Os 27 passes defendidos por ele no período só ficam abaixo dos números de Ogletree. O Falcons provou o quanto aprecia Jones ao assinar uma extensão de contrato de quatro anos e US$ 57 milhões com ele em julho.

Quinn vem percebendo mais e mais jogadores semelhantes, desenvolvidos para combater os ataques agressivos do futebol americano universitário, estão emergindo como perspectivas robustas para a NFL.

Nos dois últimos anos, três times usaram escolhas entre as 10 primeiras do draft para selecionar jogadores que viam como essenciais para jogadas de cobertura: Roquan Smith (Bears, 2018), Devin White (Buccaneers, 2019) e Devin Bush (Steelers, 2019).

O notável, disse Quinn, é que se qualquer desses jogadores tivesse chegado ao período de preparação de pré-temporada do 49ers em 2001, o primeiro ano em que ele trabalhou como treinador na NFL, eles teriam sido classificados como safeties. Isso mudou. Agora eles parecem ser o presente, e futuro, dos linebackers internos.

Desmond King, do Los Angeles Chargers, marca Tre'Quan Smith, do New Orleans Saints, em jogo da pré-temporada
Desmond King, do Los Angeles Chargers, marca Tre'Quan Smith, do New Orleans Saints, em jogo da pré-temporada - Kirby Lee - 18.ago.19/USA Today Sports

Slot cornerback - Desmond King, Los Angeles Chargers

O Chargers classifica Desmond King como cornerback apenas para se enquadrar ao vocabulário tradicional do futebol americano. No esquema de jogo deles, há jogadas em que ele atua como linebacker. Em outras, ele joga como safety. De vez em quando, ele pressiona o quarterback adversário, do slot. Faz tackles. Faz bloqueios e apoia a defesa contra corridas.

Esses são os deveres de um nickelback moderno, uma posição que evoluiu de especialidade de terceira descida para componente indispensável de defesas que buscam combater a revolução do passe na NFL.

Na temporada passada, 67% de todas as jogadas ofensivas envolviam pelo menos três recebedores, de acordo com o Football Outsiders Almanac —em 2013, a proporção era de 58,8%. Mais que nunca, os times valorizam passes mais curtos e colocam seu melhores recebedores para jogar por dentro a fim de desgastar as defesas.

Para combater essa tática, as defesas se adaptaram ao usar slot cornerbacks como King, que executa as suas responsabilidades tão bem quando seus colegas, se não melhor. Ele só permitiu um touchdown vindo do slot em suas duas primeiras temporadas, de acordo com o Pro Football Focus, e entre os 37 jogadores que cobriram pelo menos 30 descidas naquele período, ele teve o melhor desempenho em cobertura.

"Se eu estivesse montando uma defesa agora, as posições mais importantes seriam a do slot cornerback e a do jogador que pressiona o passe", disse Matt Bowen, antigo safety da NFL e agora comentarista do programa "NFL Matchup", na ESPN.

Os melhores nickelbacks da liga tendem a ter características e antecedentes em comum —instintos superiores, dureza e rapidez em corridas curtas. Porque os times preferem cornerbacks grandes, altos e rápidos, jogadores de altura média como King, que tem 1,78 m e pesa 91 kg —ou outro astro de tamanho parecido, Chris Harris Jr., de Denver— tendem a ser escolhidos mais tarde no draft, quando o são. King achava que seria escolhido muito antes da quinta rodada, que foi quando o Chargers o selecionou em 2017.

Em Iowa, ele circulava livremente pela secundária, em geral patrulhando o lado de fora. O Chargers o percebia como um ativo valioso mas complicado. Mas se deixou cativar pelo jogador defensivo universitário do ano em 2015 e por sua explosão e talento com a bola (14 interceptações) e acreditava que o talento de King era transferível à NFL. King converteu duas de suas quatro interceptações em corridas de touchdown, contra Dak Prescott e Russell Wilson, e foi selecionado para o time da liga como defensive back e retornador de punts (segundo time).

"Você sempre tenta posicionar os caras para lhes dar a melhor chance de fazer o máximo possível de jogadas", disse Gus Bradley, o coordenador defensivo do Chargers, depois de um treino recente em Costa Mesa, Califórnia. "E queríamos vê-lo em volta da bola o máximo possível".

Enquanto continua a se ajustar, King estuda vídeos dos grandes cornerbacks do passado. Examina as blitze de Charles Woodson. Admira a paciência de Darrelle Revis. Tenta imitar o estilo físico de Ronde Barber.

Cada um deles ditou o padrão para sua posição, por algum tempo, e é isso que King tenta fazer.

O coordenador ofensivo Kellen Moore, do Dallas Cowboys, em jogo de pré-temporada
O coordenador ofensivo Kellen Moore, do Dallas Cowboys, em jogo de pré-temporada - Tom Pennington - 29.ago.19/AFP

Coordenador ofensivo "menino gênio" - Kellen Moore, Dallas Cowboys

A revolução ofensiva da NFL tem raízes mais profundas do que a narrativa das últimas temporadas sugeriria —os criadores do esquema Air Raid no futebol americano universitário acreditam que o Patriots venha seguindo um esquema semelhante há anos—, mas a ascensão de Sean McVay, o treinador do Los Angeles Rams, colocou os times de vigia, em busca do próximo menino gênio.

O entusiasmo resultou em uma linhagem de treinadores associados a McVay, 33. Seu antigo coordenador ofensivo, Matt LeFleur, foi contratado como treinador principal em Green Bay, e seu antigo treinador de quarterbacks, Zac Taylor, agora comanda o Cincinnati Bengals.

Nenhum time foi mais agressivo em sua busca do próximo jovem prodígio do que o Dallas Cowboys, que apontou Kellen Moore, 30, como seu novo coordenador ofensivo apenas dois anos depois de ele deixar os campos.

Moore deve selecionar as jogadas ofensivas, ainda que o treinador principal, Jason Garrett, tenha se encarregado disso em temporadas passadas.

Garrett não estava sozinho nessa preferência. Vinte dos 32 treinadores principais da NFL vieram do lado ofensivo, e pelo menos 15 deles devem chamar suas jogadas ofensivas em 2019. Kyle Shanahan, de San Francisco, e McVay chegaram a eliminar completamente a posição de coordenador ofensivo, em lugar de fingir que alguém mais comanda seus ataques.

Moore compartilha da distinção de ser um coordenador ofensivo chamando jogadas em sua primeira temporada com Byron Leftwich, 39, que faz parte da equipe de Bruce Arians em Tampa Bay. Os outros oito coordenadores ofensivos contratados por treinadores principais de mentalidade ofensiva para esta temporada não terão o privilégio de chamar jogadas.

A grande questão, quando a temporada regular começar, no entanto, é se Moore e Leftwich manterão seus poderes quando seus chefes se incomodarem com alguma coisa. A tendência a consolidar poderes no treinador chefe se desenvolveu por um motivo, afinal.

"Sei que as coisas serão difíceis em setembro", disse Arians a jornalistas recentemente. "Mas talvez eu me torne um administrador melhor do jogo porque não estarei xingando juízes e selecionando jogadas".

Benjamin Hoffman, Bill Pennington e Ben Shpigel

Tradução de Paulo Migliacci

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