Promessa some, e Santos não consegue vingar geração promissora

Atrito na renovação de contrato faz camisa 10 de 17 anos abandonar treinos

Klaus Richmond
Santos

Dias antes de viajar para assinar contrato com o Santos, em dezembro de 2018, o técnico Jorge Sampaoli enviou da Argentina uma mensagem de áudio ao presidente José Carlos Peres.

O técnico pedia um levantamento minucioso com informações de todos os jogadores com quem poderia trabalhar no novo clube. Chamou a sua atenção na lista os nomes de Kaio Jorge, Sandry e Giovanni Manson Ribeiro, todos na época com 16 anos.

Passados pouco mais de nove meses, Sampaoli jamais conseguiu testar como queria o trio de atletas promissores. Sandry foi pouco utilizado pela indefinição na renovação de seu contrato, e Giovanni não aparece desde maio para treinar no clube.

A jovem promessa do Santos, Giovanni Manson Ribeiro, que deve deixar o clube
A jovem promessa do Santos, Giovanni Manson Ribeiro, que deve deixar o clube - Pedro Ernesto Guerra Azevedo/ Santos FC

“Para nós está definido, o Giovanni não está mais no Santos. Saímos do clube por não chegarmos a um acordo para a assinatura do contrato profissional”, disse André Ribeiro, pai do atleta. Segundo ele, a equipe foi notificada em abril.

O caso não é exceção. A gestão de Peres teve problemas para renovar com todas as principais promessas da geração de atletas nascidos em 2002, considerada por dirigentes e treinadores como uma das mais talentosas da história recente santista.

Giovanni era o camisa 10 da safra. Ele chegou ao clube em 2012 e já disputou duas edições da Copa São Paulo, além de acumular convocações para seleções sub-15 e sub-17.

“Vi ele fazer coisas incríveis. Era calmo e tímido fora de campo, mas dentro se tornava um monstro, um jogador extremamente competitivo. De uma inteligência e genialidade como poucos que já vi”, afirmou o técnico Luciano Santos, responsável por sua aprovação.

A relação com o clube foi rompida na tentativa de assinatura do primeiro contrato profissional, quando o estafe do jogador alegou ter sido esquecido.

“O Santos só fez uma proposta muito abaixo do que esperávamos, mas muito mesmo. Fizemos uma reunião, e eles nos jogaram um contrato pronto na mão. Tudo para eles e nada para nós. Depois, nunca mais nos procuraram”, disse o pai do jogador.

Giovanni deixou o clube com base no regulamento da Fifa, que diz que contratos para jogadores menores de 18 anos não podem ser superiores a três anos de duração. Pela interpretação de seus advogados, ele já teria cumprido esse tempo.

A lei brasileira prevê cinco anos como prazo máximo, mas explica no próprio Regulamento Nacional de Registro e Transferências de Atletas de Futebol que, em caso de litígio submetido a órgão da Fifa, somente serão considerados os três primeiros anos.

“Há uma contradição entre a legislação brasileira e a da Fifa. Com isso, entendemos que a da Fifa se sobrepõe à Lei Pelé. Portanto, ele pode assinar com um clube do exterior”, defendeu o advogado do jogador, Breno Tannuri.

Nesses casos, a Fifa prevê uma indenização pelos investimentos do clube formador.

Segundo Peres, o Santos tem sofrido as consequências dos valores estipulados na renovação de Kaio Jorge. A negociação para a assinatura do seu contrato se arrastou por meses. O jogador inclusive chegou a fazer uma carta de despedida do clube, irritado com a posição da diretoria.

O aceite aconteceu com salários de R$ 70 mil mensais, além de luvas e outras variações contratuais. Se ele chegar a 15 partidas como titular, os ganhos dobram para R$ 140 mil.

Em junho do último ano, pais de jogadores da base acusaram o Santos de assédio, alegando que teriam sido forçados a assinar o primeiro contrato profissional antes da disputa do Mundial sub-17, na Espanha. As propostas eram inferiores a R$ 5 mil por mês por três anos de contrato.

“Tempos atrás tivemos problemas de perder jogadores em viagens. Quando fomos para a excursão, chamei as pessoas responsáveis para fazermos o primeiro contrato profissional de cada um, mas não teve imposição, nada disso. Foi uma medida que tomamos para proteger o clube de assédio”, disse o diretor da base, Marco Maturana, à Folha em dezembro de 2018.

No início de agosto, o Santos anunciou a renovação de Sandry, outro jogador com quem teve longas tratativas. Ele chegou a desabafar pelo fato de treinar em horários alternativos, às vezes sem nem sequer ter acompanhamento de profissionais do clube.

"O Sampaoli pediu para a gente acelerar essa negociação”, afirmou Peres ao anunciar à imprensa o acordo.

Já no caso de Giovanni, a promessa que sumiu, o Santos ainda aguarda uma solução e informou à reportagem que não se pronunciaria sobre o assunto.

Enquanto isso, o jovem treina com o auxílio de um preparador particular e aguarda o mês de janeiro, quando completará 18 anos, para buscar um novo time na Europa.

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