Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Na Copa do Mundo de Rúgbi, Japão recebe fãs mais beberrões do esporte

País sede do torneio está se preparando para uma possível escassez de cerveja

Joshua Robinson Miho Inada
The Wall Street Journal

O Japão sabia há uma década que sediaria a Copa do Mundo de Rúgbi deste ano. Mas só alguns meses antes do pontapé inicial a cidade de Kobe percebeu o que isso lhe reservava. Cerca de 36 mil torcedores da Irlanda, Inglaterra, Escócia e África do Sul estavam a caminho. Sendo torcedores de rúgbi, eles com certeza chegariam perigosamente sedentos.

O conselho de turismo de Kobe precisava informar a cidade. Em um seminário em maio, restaurantes, bares e hotéis foram instruídos a se preparar para uma corrida a toda forma de bebida envolvendo lúpulo e malte, quente ou fria. O conselho escreveu em um panfleto informativo que "as potências mundiais do consumo da cerveja estarão reunidas em Kobe?!"

Torcedores da Irlanda bebem e cantam na partida contra a Escócia, pela Copa do Mundo de Rúgbi
Torcedores da Irlanda bebem e cantam na partida contra a Escócia, pela Copa do Mundo de Rúgbi - Behrouz Mehri/AFP

Os palestrantes do seminário explicaram que os irlandeses bebem duas vezes mais cerveja que o japonês médio e alertaram que ingleses, escoceses e sul-africanos não ficavam muito atrás. Para qualquer estabelecimento cujo negócio envolvesse servir bebidas, o conselho oferecia uma orientação: prepare quatro ou cinco vezes mais cerveja do que costuma.

"Enfatizei no seminário que os torcedores de rúgbi bebem o dia inteiro", disse Naofumi Machidori, funcionário da prefeitura de Kobe.

Em um país que se orgulha de estar preparado para toda espécie de desastre natural, uma seca de cerveja causada pelo rúgbi não representa um temor ocioso. Dois anos atrás, o estoque de cerveja do Estádio Internacional de Yokohama acabou na metade de uma partida. Não por coincidência, o Japão estava enfrentando a Austrália.

Assim, o país anfitrião tomou medidas sérias para garantir que o torneio de seis semanas atenda às demandas dos torcedores mais beberrões do esporte. Os bares de todo o país funcionam até mais tarde nos dias de jogos. Os governos municipais organizaram bares de emergência para manter as torcidas lubrificadas a caminho dos estádios. E a fabricante de cerveja Kirin mais que triplicou sua produção da cerveja Heineken, a cerveja oficial da Copa do Mundo de Rúgbi.

"Falamos muito sobre cerveja", disse Brett Gosper, vice-presidente de operações da World Rudgy, a organização que comanda o esporte. "Para nós, importava educar os locais dos jogos e os governos das cidades sobre o que acontece em um evento internacional de rúgbi. Temos uma grande audiência itinerante, e ela bebe muita cerveja".

A cerveja é tão parte da cultura do rúgbi quanto a lama, os machucados e as cicatrizes. Não há como escapar disso. Ela flui livremente nas arquibancadas durante os jogos, e seu cheiro pende no ar. No Estádio Twickenham, em Londres, um dos lares espirituais do esporte, os bares das arquibancadas costumam ficar cheios e barulhentos até bem depois do apito final. Mesmo os jogadores de times rivais costumam se reunir para uma cerveja depois de tentar arrancar as cabeças uns dos outros durante a partida.

Masaki Fiji, torcedor veterano da seleção nacional de rúgbi do Japão, experimentou de perto essa cultura na partida de abertura da Copa entre Japão e Rússia, na sexta-feira. Depois de tomar uma ou duas cervejas para relaxar antes do jogo, ele se acomodou no estádio e concentrou suas atenções na partida. A única coisa que o levava a alterar o foco eram os ruidosos e beberrões torcedores russos em sua fila, reciclando cerveja em ritmo tão rápido que tropeçavam nele a cada vez que passavam correndo para ir ao banheiro.

"Nós japoneses não somos capazes de beber tanto assim", disse Fujiu.

Mas os torcedores de rúgbi sul-africanos são. Dentro do Estádio Internacional de Yokohama no final de semana de abertura da Copa, Steve Evans e seus dois filhos adultos carregavam cada qual seis latas de 500 ml de cerveja para seus assentos, em embalagens de papelão, para a partida do Springboks contra a Nova Zelândia. Só por garantia. Eles não queriam repetir o risco da calamidade que sofreram no voo ao Japão, cujo estoque de cerveja se esgotou na metade da viagem. Especialmente, disse Evans, quando a cerveja é tão "fundamental" para a apreciação do esporte.

"Nós provavelmente beberemos umas oito durante o jogo, e depois continuaremos", ele acrescentou.

Os torcedores do rúgbi não se limitam a beber muito. Também bebem rápido. O que é menos que ideal em um país que serve cerveja em copos pequenos. Assim, para ganhar algum tempo para os bares e restaurantes entre cada rodada, as fabricantes de cerveja japonesas Asahi e Suntory os aconselharam a usar canecas para atender os visitantes estrangeiros.

Nem todo mundo será capaz de lidar com o problema. Yasunori Kanemura, que dirige um bar cujo tema é o rúgbi em Kobe, sabe que pode enfrentar dificuldades. Seu estabelecimento só acomoda 15 pessoas, e ele não tem espaço para armazenar barris adicionais de cerveja.

Isso não é problema para um pub de tema britânico chamado Hub, em Yokohama. Informados sobre a potencial escassez de cerveja, os empregados empilharam barris em volta do balcão para os torcedores locais e estrangeiros que foram lá a fim de assistir Austrália e Fuji. O gerente do bar, Hiroki Watanabe, disse que seu estoque de cerveja era 10 vezes maior que o usual, para evitar falta de produto.

"Vamos garantir que isso não aconteça", ele disse.

Watanabe afirmou que nos dois primeiros dias do torneio, os torcedores britânicos pareciam ser os bebedores mais entusiásticos, e que alguns deles tomaram até 10 canecos de cerveja cada –um cliente japonês típico pediria um ou dois. Não que ele esteja reclamando.

"É pena que a Copa do Mundo só dure até o começo de novembro", disse Watanabe.

Tradução de Paulo Migliacci

Erramos: o texto foi alterado

A França venceu a Argentina, não o contrário, conforme dizia a galeria que acompanha este texto. A informação foi corrigida.

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