Racistas não merecem ter mídia, diz jogador de vôlei Wallace

Chamado de macaco em 2012, atleta da seleção afirma que hoje ignoraria ofensa

Daniel E. de Castro
São Paulo

Chamado de macaco por uma torcedora em Belo Horizonte durante partida da Superliga em 2012, o jogador de vôlei Wallace Leandro de Souza, que defendia o Cruzeiro na ocasião, ficou indignado ao ter sido vítima da injúria racial.

"É revoltante escutar uma coisa dessas, não dá para aceitar. Foi até melhor eu não ter conseguido ver a pessoa [que o ofendeu], pois eu poderia ter perdido a cabeça na hora", afirmou após aquele jogo.

Sete anos depois, o atleta enxerga o tema do racismo no esporte, sobre o qual pouco falou após aquele episódio, de uma forma diferente. "Se naquela época eu tivesse a cabeça de hoje, fingiria que não era comigo. As pessoas que tentam denegrir dessa forma não merecem ter mídia", ele diz à Folha.

Aos 32 anos, o oposto do Sesc RJ e campeão olímpico com a seleção brasileira em 2016 se considera uma espécie de termômetro da equipe que buscará mais uma medalha de ouro nos Jogos de Tóquio, no ano que vem. "Se os jogadores veem que estou bem, o time inteiro vai bem. Mas se eu estou mais ou menos, o time cai também", afirma.

Prestes a ser pai pela segunda vez, ele foi liberado dos próximos compromissos da seleção neste ano (Sul-Americano e Copa do Mundo) e retornará ao grupo em 2020.

Você sempre jogou no Brasil e neste ano vai para sua 14ª temporada na Superliga. O que pode melhorar no vôlei brasileiro? Tinha que ter video chek [revisão de jogadas por vídeo] em todos os jogos [na última edição, a tecnologia esteve disponível na fase final]. O vôlei está muito rápido, e é complicado cobrar demais da arbitragem. Fica difícil até para o juiz de linha, que está na cara do negócio. É um mal necessário, mas não tem como, porque uma bola pode decidir o jogo. Esse seria um grande avanço para a nossa Superliga.

No torneio pré-olímpico, em agosto, o Brasil saiu perdendo por 2 sets a 0 para a Bulgária e virou a partida, garantindo vaga em Tóquio-2020. A camisa do Brasil ainda pesa nessas horas? Nos dois primeiros sets, os caras cagaram se a gente era Brasil ou não era. Não sei até que ponto chega a pesar a camisa, porque é muito mais fácil jogar sem responsabilidade. O pensamento do brasileiro é que ganhar da Bulgária é uma obrigação, mas hoje o vôlei está completamente diferente, e outras seleções ficaram muito mais fortes.

O Brasil chegou desacreditado ao último Mundial, quando ficou em segundo, e à última Olimpíada, que venceu. A que se devem esses resultados até certo ponto inesperados? Ninguém acredita muito no Brasil, dizem que só perde, mas nos últimos quatro anos sempre chegamos às principais finais e contra times diferentes, mas nego não valoriza mais isso, só valoriza quando ganha. Quando perde, não presta, diz que tem que tirar todo mundo e fazer renovação. Mas a gente sempre está chegando porque o time treina demais, sempre se doando ao máximo, independentemente do resultado.

Wallace comemora ponto durante jogo da etapa final da Liga das Nações 2019, em Chicago
Wallace comemora ponto durante jogo da etapa final da Liga das Nações 2019, em Chicago - FIVB - 13.jul.19

O que muda no potencial de ataque do Brasil com a chegada do Leal [ponteiro cubano naturalizado brasileiro]? Sem sombra de dúvidas, o Leal é um jogador que qualquer seleção gostaria de ter. Acho que ele está começando a entender como funciona a seleção brasileira, e se ele realmente incorporar a coisa vai ser uma baita ajuda para a gente, como foi no jogo contra a Bulgária. Ele segurou a bronca e foi um cara imprescindível. Eu conversei com ele sobre a questão de não começar sempre jogando. Para ele, estava um pouco mais complicado de entender, porque sempre foi titular por onde passou. Mas eu e o Bruno [levantador e capitão do time] falamos para ele que era um processo, que é assim mesmo e que ele tem que entender.

Qual é o papel de liderança do Bruninho na seleção? É um cara essencial, que consegue dar injeção de ânimo e chamar o time. Não dá para mudar as origens dele de cobrar. Se você for ver, ele fica doido igual ao pai [o ex-técnico da seleção Bernardinho], mas a gente já sabe lidar, então é tranquilo [risos].

E o seu papel na equipe brasileira atualmente, como você enxerga? Às vezes não tenho desempenhado o meu melhor voleibol, mas estou sempre fazendo o meu máximo dentro de quadra. Acho que no ano passado, sem atacantes de força na seleção, ficou mais pesado, era mais difícil de rodar a bola. Este ano está diferente, porque agora temos vários atacantes de força, e aí fica mais tranquilo para mim. Sei muito bem o que tenho que fazer para chamar as pessoas. O Bruno é um líder, e eu sou um cara que, se os jogadores veem que estou bem, o time inteiro vai bem. Mas se eu estou mais ou menos, o time cai também.

Você é uma espécie de termômetro da equipe? Exatamente. O Maurício [Souza, central da seleção] fala que, se eu mostrar um sinal de fraqueza, o time vai junto comigo e nada anda para frente.

O oposto Wallace e o ponteiro Leal durante treino da seleção brasileira de vôlei na Polônia, antes da Liga das Nações 2019
O oposto Wallace e o ponteiro Leal durante treino da seleção brasileira de vôlei na Polônia, antes da Liga das Nações 2019 - Divulgação - 28.mai.19/CBV

Você foi vítima de racismo durante um jogo no Brasil em 2012. Isso voltou a acontecer na sua carreira ou o marcou de alguma forma? Eu sinceramente nem gosto de falar sobre o assunto, porque passou. Foi uma questão de momento. Eu era moleque e não sabia lidar com aquela situação. Se acontecesse hoje, eu faria igual ao Daniel Alves, que [durante um jogo em 2014] comeu a banana [atirada em sua direção] e saiu jogando. Eu daria risada e faria o mesmo. Eu não sou macaco, se o cara me chamar de macaco, fazer o quê? Eu cago para um cara desses. Se naquela época eu tivesse a cabeça de hoje, fingiria que não era comigo. As pessoas que tentam denegrir dessa forma não merecem ter mídia.

Suas opiniões sobre política ganharam repercussão em 2018, após você declarar apoio ao então candidato à Presidência Jair Bolsonaro. Você sente que passou a ser cobrado por essas posições? Eu evito falar sobre isso. Nem Jesus agradou a todos e não sou eu que vou agradar. Eu não ligo para o que os outros falam ou pensam. Não foi o meu voto que fez o cara ser presidente. Não devo satisfação a ninguém.

Você tem uma avaliação sobre a política esportiva deste governo até agora? Nem queria comentar sobre isso porque depois pode gerar mais polêmica. Não estou a fim disso.

Wallace Souza, 32

Nascido em São Paulo em 1987, o oposto acumula duas medalhas olímpicas com a seleção brasileira de vôlei (prata em Londres-2012 e ouro no Rio-2016) e dois vice-campeonatos mundiais (2014 e 2018). Sempre defendeu clubes brasileiros. Pelo Cruzeiro, foi tetracampeão da Superliga e bicampeão mundial. Saiu da equipe mineira em 2016 para defender o Taubaté e desde a temporada passada está no Sesc RJ.

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