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Triatleta disputa provas de muletas e sem um pedaço do pulmão

Fábio Rigueira se tornou o primeiro brasileiro a completar de muletas a prova do Ironman

Josué Seixas
Maceió

Primeiro, o baiano Fábio Rigueira descobriu que tinha câncer. Brincando com os amigos, aos oito anos, ele caiu e foi ao hospital, com dores em sua perna esquerda.

Os exames indicaram um tumor maligno no osso, e os médicos recomendaram a amputação da perna e quimioterapia. Pouco tempo depois, foi descoberta uma metástase, quando o câncer se espalha para outras partes do corpo. Fábio então enfrentou outra cirurgia, na qual perdeu parte do pulmão direito.

Quase 40 anos mais tarde, em 2018, ele se tornou o primeiro brasileiro a completar de muletas a prova do Ironman (uma das modalidades mais famosas do triatlo), segundo os organizadores da edição nacional. Repetiu o feito em maio e agosto de 2019.

Esporte que reúne natação, ciclismo e corrida, o triatlo envolve diferentes níveis. A menor prova é a de sprint (750 metros de natação, 20 km de ciclismo e 5 km de corrida) e a mais extensa é o Ultraman, que é feita em três dias (10 km de natação, 421 km de ciclismo e 84 km de corrida).

Fábio Rigueira durante prova de triatlo em Maceió
Fábio Rigueira durante prova de triatlo em Maceió - Igor Lessa - 4.ago/19

No Ironman, a segunda maior, o atleta deve cumprir 3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42 km de corrida.

A rotina do baiano de 46 anos consiste em acordar às 3h, treinar das 4h às 7h, trabalhar como assistente administrativo das 7h30 às 17h e voltar a treinar das 17h30 até 21h.

A vida dele como atleta começou quando, já amputado, ganhou uma bicicleta do pai. Se sentisse que iria cair, conta, recorria a um muro para se apoiar. "Depois, comecei a descer a ladeira sem me encostar. E, aí, consegui subir a ladeira pedalando, confiando, e fui passear na rua", conta.

Os tios José Newton, praticante de triatlo, e Laerte, ciclista, ensinaram a técnica e ainda hoje acompanham a trajetória do sobrinho.

Por morar perto da praia em Salvador, Fábio também aprendeu a nadar. Para o Ironman, o maior desafio estava na corrida. "Como eu vou completar essa parte da prova?", ele se perguntava.

Assistindo a uma reportagem com a triatleta Fernanda Keller, que prepara pessoas para o Ironman, viu que era possível. Adriele Silva, atleta biamputada que já disputou o evento, serviu como inspiração. Mas o que facilitou as coisas foi um outro esporte.

"Eu estava ajudando um amigo meu a construir um time de futebol de amputados aqui em Salvador. Comecei a correr no campo e fui vendo como meu corpo entendia o movimento. Quando vi que era possível, fui atrás de um profissional que me acompanha até hoje", diz.

A ajuda permite que ele não desgaste a perna direita, musculatura mais exigida e suscetível a câimbras na corrida.

Como o local amputado é muito curto, a prótese causa desconforto. Por isso, ele prefere muletas. Fábio sempre andou de ônibus ou de bicicleta, até ganhar um carro há pouco tempo. São 10 km de casa para o trabalho e, quando a grana está curta, ele vai pedalando. "É um treino a mais."

Difícil mesmo é ter dinheiro para as inscrições das competições e as despesas das viagens. O atleta afirma que tem o apoio de lojas, que ajudam com alguns custos, manutenção da bicicleta e de roupas.

"Quando disputei meu primeiro Ironman, coloquei todo o meu dinheiro no projeto e não foi suficiente. Fiz uma vaquinha online e consegui competir. Hoje, eu continuo a batalhar porque vejo minha história inspirando outras pessoas", diz.

O baiano não precisa mudar muita coisa para competir. Na bicicleta, é só remover o pedivela [peça onde se prende o pedal] do lado esquerdo. Para nadar, ele prende uma borracha na perna direita. Já as muletas fabricadas no Brasil são pesadas e desconfortáveis. Por isso, Fábio importou da Espanha muletas à base de fibra de carbono, que custam quase 20 vezes mais.

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