Amigos de infância, Diniz e Carille se diferenciam em estilo e carreira

Técnicos duelam neste domingo (13), no clássico entre São Paulo e Corinthians

Alex Sabino Luciano Trindade
São Paulo

A quadra do Círculo dos Trabalhadores Cristãos, ginásio na Vila Ema, zona leste de São Paulo, era um dos lugares preferidos de Fábio Fernando na infância, no início da década de 1980. Foi lá que a dupla deu os primeiros passos no futsal, esporte que mais tarde influenciaria o futuro profissional dos dois.

Fábio tinha menos habilidade com a bola nos pés e acabou virando zagueiro. Fernando a tratava com mais carinho e construiu carreira como meia-atacante. Essa diferença acabaria determinante para fazê-los seguirem caminhos parecidos no futebol, mas com perfis diferentes.

Fábio se transformou em Carille, 45 anos, técnico do Corinthians, equipe na qual implementou um estilo marcador, aguerrido, parecido com o jeito que ele se comportava quando era jogador. Já Fernando Diniz, 46, treinador do São Paulo, está no início de uma trajetória no time tricolor no qual tenta executar o seu estilo, com toque de bola e futebol ofensivo. 

Fernando Diniz (à dir.) conversa com Fábio Carille no CT do Corinthians, quando o atual treinador do time alvinegro ainda era auxiliar de Tite
Fernando Diniz (à dir.) conversa com Fábio Carille no CT do Corinthians, quando o atual treinador do time alvinegro ainda era auxiliar de Tite - Daniel Augusto Jr. - 12.mai.16/Ag. Corinthians

Neste domingo, às 18h, no estádio do Morumbi, os dois vão se reencontrar no clássico pela 25ª rodada do Brasileiro.

Será a segunda vez que os amigos se enfrentarão. A primeira ocorreu no ano em que Carille estreou como treinador, em 2017, quando o Corinthians venceu o Audax por 1 a 0, pela 1ª fase do Paulista. 

A equipe de Osasco foi a que deu projeção a Diniz. Em 2016, ele levou o clube à final do Estadual e terminou na segunda colocação, derrotado pelo Santos --empatou o jogo de ida por 1 a 1 e perdeu o duelo de volta, por 1 a 0. 

Mesmo sem o título, o Audax de Diniz conseguiu feitos para se orgulhar. Além de eliminar o São Paulo, nas quartas de final, e o Corinthians, na semi, foi aplaudido pela torcida santista durante a entrega de medalhas, em reconhecimento ao futebol apresentado pelos jogadores.

Desde que saiu da equipe de Osasco, Diniz não conseguiu o mesmo sucesso. Ele ainda busca o primeiro título como treinador e teve passagens instáveis por Atlhetico-PR, onde ficou 6 meses, e Fluminense, 9 meses.

Na equipe são-paulina, ele acredita que seu plano de jogo terá mais chances de êxito. "O meu trabalho é para tirar o melhor dos jogadores. O DNA do São Paulo tem muito a ver comigo. O São Paulo do Telê [Santana]", disse durante sua apresentação, no dia 19 de setembro.

Para fazer os atletas renderem o máximo que podem, além do treinamentos, aposta em trabalhos de orientação psicológica. Ele é formado em psicologia e diz tentar humanizar a profissão do atleta do futebol. "O jogador não é uma máquina feita para só ganhar e dinheiro", afirma.

Carille não é adepto de técnicas de motivação ou psicologia. O foco de seu trabalho está no campo, nos treinos. No futebol, tem um estilo mais pragmático, com o qual tem se sobressaído.

À frente do Corinthians, conquistou um tricampeonato paulista (2017/2018/2019), além do Campeonato Brasileiro de 2017.

Atualmente, a equipe alvinegra é a quarta colocada do torneio Nacional, com 43 pontos, três a mais do que o quinto colocado, o São Paulo. Os dois rivais vêm de empates na última rodada, os alvinegros com o Athletico-PR, 2 a 2, e os tricolores com o Bahia, 0 a 0.

O treinador corintiano já ressaltou as características do amigo. Fez isso, inclusive, ao comentar sobre o início do trabalho de Jorge Sampaoli no Santos, em março deste ano. Apesar de reconhecer a qualidade do argentino, ele se irritava quando ouvia que o estilo dele era inovador para o futebol brasileiro.

"Por características, não deve ter 5% de técnicos que façam o que o Sampaoli faz. Mas [falar em inovação] é falta de respeito com o que o Fernando Diniz fez no Audax", afirmou.

Uma das marcas do amigo do corintiano no time de Osasco era a posse de bola. A equipe chegou à decisão do Estadual de 2016 como a que mais trocou passes certos, com 8.191 toques. O Santos, rival nas finais, era o terceiro da estatística, com 7.189. No segundo e decisivo duelo, mesmo derrotado, o Audax teve 68% de posse.

Na vitoriosa campanha do Brasileiro de 2017, o Corinthians teve um estilo oposto ao do Audax de Diniz. Era uma equipe que fazia um gol e passava o resto do jogo sofrendo pressão dos adversários. Tanto que, das 21 vitórias que teve na competição, 10 foram pelo placar mínimo. No Paulista daquele ano, também vencido pelos corintianos, 6 das 10 vitórias foram por 1 a 0.   

Na campanha do vice Estadual, em 2016, o Audax venceu oito jogos e, em todos eles, marcou mais de um gol.

A mentalidade diferente de cada um deles não os impediu de manter uma amizade ao longo dos anos, mesmo com o distanciamento. Alegam a distância e a falta de tempo em decorrência de treinos e viagens para não se encontrarem.

Na adolescência, foram contemporâneos nas categorias de base do Juventus. Curiosamente, nunca se enfrentaram como atletas. 

Neste domingo, estarão em lados opostos. Fábio tentará neutralizar o esquema ofensivo do amigo Fernando, que ainda pena para implementar seu estilo do São Paulo. 

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