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Com leucemia, técnico treina do hospital e une cidade na Itália

Técnico do Bologna FC, Mihajlovic mantém trabalho no clube durante tratamento

Klaus Richmond
Santos

Os dizeres "We are one" (que traduzido significa "Nós somos um") estampados no centro de treinamento do Bologna FC, em Casteldebole, e no estádio Renato Dall'Ara, ganharam sentido neste temporada, com a chegada do sérvio Sinisa Mihajlovic, 50, ao time da cidade de 400 mil habitantes.

Miha, como é chamado carinhosamente por torcedores, tinha um enorme desafio pela frente quando aceitou assumir o Bologna em 28 de janeiro deste ano.

O clube ocupava a antepenúltima colocação no Italiano, não vencia um jogo desde novembro e, um dia antes de anunciá-lo, havia sido goleado por 4 a 0 em casa pelo Frosinone, recém-promovido à Série A.

Quase quatro meses depois, ele conduzia a equipe a um empate heroico por 3 a 3 com a Lazio, em Roma. O resultado evitou o rebaixamento a uma rodada do fim do campeonato.

"A salvação foi um milagre", disse logo após a partida.

Alberto Lingria - 30.ago.2019/Xinhua
Sinisa Mihajlovic, do Bologna FC, celebra gol da equipe no Campeonato Italiano - Sinisa Mihajlovic, do Bologna FC, celebra gol da equipe no Campeonato Italiano

Ex-jogador conhecido pelo raro talento nas cobranças de faltas —atuou na Roma, Sampdoria, Lazio e Inter de Milão—, Mihajlovic conseguiu a façanha que mais o orgulha nos 13 anos de carreira como técnico. 

"O que ele fez foi algo incrível, logo caiu nas graças de todos aqui. A torcida se apaixonou por ele", diz o goleiro Angelo da Costa, 35, há cinco temporadas no Bologna.

Tudo parecia perfeito para o treinador, que tinha contrato renovado até 2022. Em julho, os jogadores se apresentaram para a pré-temporada. Mihajlovic, porém, não apareceu.

Onde está o técnico?, perguntaram. Os dirigentes presentes disseram que ele estava com febre e chegaria em breve.

Três dias depois, atletas, funcionários e membros da comissão técnica foram convocados para uma sala. Na mesa, apenas um computador para uma conferência por vídeo.

"Quero contar algo a vocês antes de todos porque viraram parte da minha família nesses últimos meses. Estou com uma grave doença, mas vamos atacar e vencer isso juntos", disse o treinador, interrompendo a fala para chorar.

"Ali não teve jeito, éramos mais ou menos 40 pessoas chorando. Ele sempre aparentou ser um homem muito forte, não dava para acreditar", lembra da Costa.

Mihajlovic recebeu diagnóstico de uma leucemia mielóide aguda, um tipo de câncer no sangue. Ele não apresentava qualquer sinal que o fizesse desconfiar da doença. Durante as férias, viajou com a família, jogou futebol e praticou stand up paddle. Descobriu a doença ao realizar exames de rotina.

"Respeito a doença, mas vou encará-la com o peito estufado e olhando nos olhos, como sempre fiz", disse à época.

Mais do que a coragem para encarar a doença, Mihajlovic descobriu não estar sozinho. Mobilizou clube, funcionários, jogadores e cidade a fazerem o improvável:"‚continuar à frente da equipe.

"Existe uma ligação muito forte entre nós e o treinador. Não lutamos mais simplesmente pela salvação na Série A ou por classificação a uma competição europeia, mas por ele", disse o atacante italiano Nicola Sansone à Folha.

O Bologna mudou a rotina para que Mihajlovic pudesse trabalhar. Espalhou inúmeras câmeras ao longo dos três campos do centro de treinamento de Casteldebole para transmitir em tempo real as imagens de cada atividade.

Com um computador no hospital e em contato direto com seus assistentes por telefone, ele passa informações aos jogadores, corrige posicionamentos e participa ativamente do dia a dia da equipe.

"Não podemos fazer nada de errado que ele já fala", relata da Costa. "Ele liga e chama algum jogador individualmente para conversar", completa.

O clube viu aumentar o número de sócios e de carnês comprados para jogos durante a temporada.
Em 25 de agosto, após 40 dias de tratamento intensivo no hospital, com sessões de quimioterapia, o técnico viajou cerca de 145 quilômetros para dirigir a equipe na estreia da temporada, contra o Hellas Verona.

Doze quilos mais magro, sem cabelo e com um boné, Mihajlovic chegou ao estádio de máscara. Só teve autorização dos médicos para tirá-la ao entrar no gramado. O jogo terminou empatado em 1 a 1.

Na partida seguinte, cinco dias depois em Bologna, o técnico foi aplaudido de pé por todo público presente no estádio Renato Dall'Ara. Faixas com os dizeres "combatemos juntos essa batalha" e "por Sinisa e pela camisa" foram exibidas.

Mihajlovic recebeu no último domingo (6) permissão dos médicos para acompanhar mais um jogo no estádio. Desta vez, empate por 2 a 2 com a Lazio, time que mais atuou na Itália. Antes do jogo, torcedores se uniram e fizeram uma peregrinação para orarem pelo treinador.

Segundo a família do sérvio, Mihajlovic tem respondido bem ao tratamento. O Bologna o espera.

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