Documentário sobre paratleta abre mão de clichês de superação

Filme mostra cotidiano de Susana Schnarndorf, nadadora com doença degenerativa

Laura Castanho
São Paulo

Susana Schnarndorf era um nome consolidado do esporte brasileiro quando descobriu ter a síndrome de Shy-Drager, aos 37 anos, em 2005. Trata-se de uma doença degenerativa rara que desencadeia a atrofia de diversos sistemas do corpo, a começar pelo neurológico.

Pentacampeã mundial de triatlo, ela tinha disputado o Iron Man —competição mundial que inclui 3,8 quilômetros de natação, 180 quilômetros de ciclismo e 42 quilômetros de corrida— 13 vezes e vencido 6. No início da doença, não conseguia mais escovar os dentes sozinha.

Com a transição radical no estilo de vida, Susana trocou o triatlo regular pela natação paraolímpica. Também se mudou do Rio de Janeiro —onde viviam os três filhos e o ex-marido— para São Paulo, cidade com centro de treinamento de referência no paradesporto.

Os três anos que antecedem as Paraolimpíadas de 2016, que ela disputou aos 48 anos, são registrados no documentário “Um dia para Susana”, de Rodrigo Boecker e Giovanna Giovanini.

O filme teve pré-estreia realizada pela Folha na segunda-feira (30), no Espaço Itaú de Cinema do shopping Frei Caneca. Após a exibição, houve um debate com os diretores e a atleta, mediado pelo jornalista e colunista da Folha Jairo Marques.

 

“Tive que aprender a lidar com a perda todo dia”, afirmou Susana. Ela diz se esquecer, com frequência, que não nada como antigamente. “É um esporte de alto rendimento, como o Iron Man. É o mesmo nível de esforço [na natação paralímpica].”

A escala de deficiência física dos paratletas vai de S10 (menor nível de deficiência) a S1 (maior nível). Quando estreou no esporte paraolímpico, em 2010, Susana era classificada como S8; hoje, é uma S5.

A perda agressiva de mobilidade e capacidade pulmonar impulsiona o clímax do filme, quando a nadadora percebe que a doença se agravou e que ela precisará ser reclassificada após perder uma competição mundial em Glasgow (Escócia). Ao todo, ela já passou pelo processo de reclassificação de deficiência, considerado lento e complexo, sete vezes.

Apesar da condição física, a atleta alcançou sucesso como nadadora paraolímpica: foi campeã e recordista brasileira em diversas categorias e recebeu o prêmio de melhor atleta feminina no Prêmio Paralímpicos 2013. Na última edição das Paraolimpíadas, no Rio de Janeiro, foi medalhista de prata no revezamento 4 x 50 m junto da equipe brasileira.

A visibilidade de Susana, que se tornou conhecida no meio esportivo antes de adquirir a doença, é uma exceção entre os atletas paraolímpicos. Boa parte do filme consiste na nadadora assistindo à própria imagem na televisão, dando entrevistas, posando para retratos e revisando sua biografia autorizada em voz alta com a jornalista responsável por escrevê-la.

“Depois de tantos anos com a minha doença, me preocupo com o futuro bem menos do que antes”, disse a atleta. Ela ouviu de um médico há anos que um dia acordaria sem poder andar, o que a tirou o sono durante muito tempo. A rotina é ditada pela manifestação da doença durante cada dia. “Não consegui programar nada na minha vida porque nunca sei como vou acordar. Se eu chegar até o treino, já estou feliz para caramba.”

Segundo os diretores do documentário, a imprevisibilidade se refletiu na execução do filme, que começou a ser montado durante a gravação. “A gente teve que improvisar loucamente”, disse a diretora Giovanna Giovanini.

“Foi extremamente caótico. As coisas foram acontecendo, totalmente sem plano. Foi um sufoco para a gente também”, concordou Rodrigo Boecker, codiretor e marido de Giovanini.

De acordo com ele, havia um desejo claro desde o início da produção de fugir do clichê usual de filmes de pessoas com deficiência, que apresentam histórias inquestionáveis de superação. “A gente não tinha a intenção de fazer um filme sobre a deficiência. Nosso olhar era muito mais direcionado para a pessoa.”

Boecker relatou que a dupla definiu limites éticos logo no início das filmagens, como não pedir para Susana repetir frases ou movimentos para a câmera, e que aprendeu com ela a suspender seus julgamentos. “O humor da Susana estava sempre ali. Nem que a gente quisesse ia conseguir fazer um filme pesado, porque ela sempre vai fazer uma piada. Ela é totalmente indomável”, afirmou.

Por isso, comentou o diretor, não foi difícil alcançar um equilíbrio entre as cenas leves e os momentos “mais fundo do poço”, como a derrota em Glasgow ou as visitas aos filhos da atleta, que têm uma relação distante com a mãe. 

Esse é um dos pontos mais sensíveis do documentário e uma questão pendente na vida da atleta. Dos três filhos, a caçula, de 14 anos, fala pouco com Susana, e o do meio, de 17, cortou relações com a mãe há quatro anos.

“Eu só escutava coisa ruim de médico, não tinha uma luz no fim do túnel. Minha decisão —não sei se foi a certa— foi de privá-los o máximo de saber o que eu tinha na realidade”, disse a nadadora. “Hoje eles têm dúvida ainda se eu tive isso ou não.”

Prestes a fazer 52 anos, Susana se prepara para disputar as Paraolímpicas no ano que vem, no Japão. “O foco agora é Tóquio. Enquanto eu mexer uma orelha, vou continuar nadando”, afirmou. “Mas aí não pode botar touca, senão eu afundo.” O público caiu na risada.

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