Descrição de chapéu Copa Libertadores

Gallardo alia exigência e sensibilidade para manter sucesso do River

Técnico está no clube desde 2014 e vai em busca de sua terceira Libertadores

São Paulo

O volante uruguaio Camilo Mayada chegou ao River Plate (ARG) em 2015. Apesar de nunca ter sido titular indiscutível, tornou-se um coringa importante no elenco e homem de confiança do técnico Marcelo Gallardo. Atuou nas finais da Copa Libertadores de 2015 e 2018, ambas vencidas pelo clube –esta última sobre o rival Boca Juniors (ARG).

Um dia, durante treinamento do time, Gallardo notou que Mayada estava rendendo abaixo do normal. E suspeitava que a questão não era técnica. Em vez de cobrá-lo por mais intensidade ou parar o treino para corrigir erros do jogador, foi conversar com o uruguaio.

Descobriu que a irmã do atleta, Tatiana, vivia fase delicada de uma doença imunológica, problema que terminou resultando na morte dela, no ano passado. O caso ilustra a sensibilidade de Gallardo com os jogadores, uma das suas características marcantes, segundo pessoas que trabalharam com ele.

Seja ele titular, reserva ou um juvenil recém-promovido à equipe principal, como o próprio técnico foi um dia.

"Marcelo é um técnico que gere muito bem o grupo, lê e interpreta muito bem o momento dos atletas. Creio que toda essa inteligência, essa liderança que tem naturalmente, faz com que todos os jogadores elevem seu nível para o melhor funcionamento do time, independentemente dos nomes", diz à Folha o meia Ariel Rojas, 33, campeão da Copa Sul-Americana de 2014 com Gallardo e atualmente no Atlético Tucumán (ARG).

Gallardo celebra gol do River Plate sobre o Cerro Porteño na Copa Libertadores de 2019
Gallardo celebra gol do River Plate sobre o Cerro Porteño na Copa Libertadores de 2019 - Juan Mabromata/AFP

Desde 2014 no comando do River, o técnico de 43 anos tentará nesta terça-feira (22), diante do Boca Juniors, na Bombonera, confirmar a classificação à sua terceira final de Libertadores no comando do clube. A partida de ida, no Monumental de Nuñez, terminou 2 a 0 a favor de sua equipe.

Dono de dez taças nesses pouco mais de cinco anos à frente do time, Marcelo Gallardo conseguiu algo raro no futebol. Não só resistiu ao tempo, mas principalmente às trocas constantes de elenco.

Da final continental de 2015 para a de 2018, somente dois atletas titulares estavam em ambas: Maidana e Ponzio. Mayada, o terceiro que jogou as duas decisões, entrou durante a partida de volta contra o Boca no Santiago Bernabéu, em Madri.

Para driblar as seguidas transformações no grupo, o sucesso do técnico está fundamentado no convencimento dos atletas da ideia de jogo e protagonismo que ele, considerado por muitos torcedores o maior treinador da história do clube, imprimiu ao River Plate.

Influenciado por Alejandro Sabella e Marcelo Bielsa, com quem trabalhou na seleção argentina (o primeiro como assistente de Daniel Passarella, o segundo como técnico principal), foca os trabalhos do dia a dia na manutenção da posse de bola, mas sempre com o propósito de fazer o rival se desordenar e criar triangulações para chegar ao gol.

"Controlar e passar bem a bola é uma das premissas fundamentais para que depois todo o resto possa progredir. O River muitas vezes tem a bola, mas não tem somente a intenção de conservá-la, e sim de mover o rival, com movimentos que os jogadores já têm azeitados. Os passes entrelinhas, a corrida dos atacantes no espaço, os cruzamentos para trás, são coisas que ele vai trabalhando e dando as ferramentas ao jogador", conta Rojas.

Após o título da Libertadores em 2015, o jornalista argentino Diego Borinsky publicou o primeiro de seus dois livros sobre a trajetória do técnico no clube.

Em "Gallardo Monumental", Borinsky conseguiu um raro depoimento de Bielsa sobre o Muñeco (boneco, em espanhol), no qual o hoje técnico do Leeds United (ING) diz que Gallardo transferiu sua principal qualidade como jogador para o trabalho à beira do campo: a capacidade de prever a jogada e de fazer a leitura do jogo.

"[O auxiliar] Hernán Buján, que assiste aos jogos da arquibancada com um iPad e desce no intervalo para ajudar a corrigir as coisas, me disse que se assusta, porque por mais que [Gallardo] tenha os ajudantes, os analistas, ele diz que algo vai acontecer e acontece", afirma Borinsky, que falou com Buján para os dois livros.

Atento aos detalhes, Gallardo assiste a muitos jogos e vê continuamente os vídeos preparados pelo departamento de análise de desempenho. Com esse material, mostra para os atletas o que está bom e o que deve ser corrigido. Sempre com uma conversa frontal, olho no olho. Como aconteceu com Carlos Sánchez, hoje no Santos.

Sánchez, hoje no Santos, foi um jogador importante na conquista da Libertadores de 2015 pelo River
Sánchez, hoje no Santos, foi um jogador importante na conquista da Libertadores de 2015 pelo River - Eitan Abramovich/AFP

O volante uruguaio tinha acabado de voltar do futebol mexicano após uma temporada no Puebla (MEX). Gallardo mostrou a ele um vídeo com alguns de seus lances nos primeiros meses no River, quando disputou a segunda divisão pelo clube argentino antes de ir ao México, e elogiou o desempenho do meio-campista. Sánchez já estava se levantando da cadeira para ir embora, feliz, quando foi interrompido pelo técnico.

"Pare, Carlos. Pare um minuto que agora vamos mostrar o que não queremos que você faça", disse o Muñeco, antes de exibir um outro vídeo, desta vez com momentos em que Sánchez mostrava intensidade zero. Um dos auxiliares de Gallardo, inclusive, usou um exemplo para deixar ainda mais claro. "Marcava como Riquelme", ou seja, não marcava.

Hoje treinado por Jorge Sampaoli, o uruguaio marca as diferenças de perfil. "[Gallardo] É menos pilhado, mas briga muito também quando não acontecem as coisas conforme trabalhamos", afirma à Folha.

Exigente, mas ao mesmo tempo sensível, Marcelo Gallardo consegue convencer diferentes grupos de atletas de que é possível vencer –e continuar vencendo– com uma ideia. Quem ele não precisa convencer é o torcedor riverplatense, mais que orgulhoso do técnico que devolveu o clube ao topo da América.

Colaborou Klaus Richmond

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