Mais jovem executivo campeão brasileiro começou como gandula

Ítalo Rodrigues, 34, coordenou o futebol do Náutico na conquista da Série C

Alex Sabino
São Paulo

Assim que entrou na faculdade de educação física, em 2011, Ítalo Rodrigues colocou na cabeça que seu futuro estava no futebol. Pouco importava o fato de não ter praticado o esporte e a sua história discreta como jogador no futsal. Por causa do sonho, ele começou a bater em diferentes portas. A que se abriu foi a do Náutico.

“Consegui um estágio de três meses no sub-15. Passei dois meses e meio só correndo atrás de bola que ia parar no mato”, conta ele, que na época tinha 26 anos.

Em 2019, com 34 anos, Rodrigues tornou-se o mais jovem executivo de futebol na história do Campeonato Brasileiro a ser campeão. Ele foi responsável pela montagem do time pernambucano, que venceu a Série C.

Ítalo Rodrigues, executivo de futebol do Náutico, em sala do centro de inteligência do clube
Ítalo Rodrigues, executivo de futebol do Náutico, em sala do centro de inteligência do clube - Sérgio Bernardo-10.out.18/JC Imagem

A ideia do diretor era se transformar em treinador, função que chegou a desempenhar nas categorias de base. Em oito anos no Náutico, ele desempenhou diversas funções. Além do início como gandula dos treinos da categoria sub-15, também foi auxiliar, secretário e supervisor.

Estar sempre disponível o fez conhecer por dentro a estrutura do clube. A primeira vez que assumiu o cargo de executivo foi em 2016, aos 31 anos. Mas de maneira interina, apenas para quebrar o galho. Não pôde implantar filosofia alguma.

Rodrigues teve de se impor também diante de uma situação que não lhe era favorável. Negociar com jogadores, empresários, atletas, contratar treinador e ter bom desempenho em um clube tradicional, mas que há muito tempo não tinha bons resultados. Isso sem ter sido jogador, não possuir história no Náutico e ser mais jovem do que alguns atletas do elenco.

“Preconceito é algo que sinto na pele até hoje. Pela minha idade, por não ser um nome conhecido, por não ter sido ídolo do clube. Geralmente esse é o perfil de diretor ou executivo que os times buscam, não o meu. Tive de provar várias vezes que poderia dar resultado”, afirma.

Foi a partir do ano passado que ele teve a liberdade para encabeçar processos que antes eram amarrados pela diretoria executiva. Meses depois, o Náutico foi campeão pernambucano pela primeira vez após 13 anos de jejum. O acesso para a Série B escapou, mas chegou em 2019.

“Eu sinto que os títulos são respostas do que sempre tentei convencer as pessoas no clube: é preciso ter critérios definidos de trabalho, perfis definidos de jogadores e treinador. Para conseguir o acesso foi preciso trabalhar a médio prazo, o que não é fácil no futebol”, diz.

Ter passado por diferentes funções ofereceu perspectiva diferente daquela que o diretor-executivo de futebol costuma ter. O trabalho burocrático precisa ser valorizado, o que ele chama de “parte chata”. Sua função pode ser vista como, no essencial, a de contratar e vender jogadores, encontrar técnicos e depois demiti-los.

O olhar geral fez com que Rodrigues montasse a estrutura organizacional do clube, que voltou a jogar no estádio dos Aflitos, antiga reivindicação da torcida.

A Ítalo é creditada a volta do Náutico ao local construído em 1939 e casa histórica da equipe. A preferência até então vinha sendo pela Arena Pernambuco, inaugurada para a Copa do Mundo de 2014. O projeto sempre foi do presidente Edno Melo, que fez do retorno uma das promessas de campanha.

Como executivo que acredita ir na contramão do mercado por não ter sido jogador famoso ou ostentar passado relevante no futebol, ele opina que vários clubes cometem o erro de contratar técnicos apenas baseados no nome, sem qualquer outro critério relevante. Nos grandes do país, a fama pode ser o mais importante.

Jogadores do Náutico comemoram gol contra o Sampaio Corrêa na final da Série C
Jogadores do Náutico comemoram gol contra o Sampaio Corrêa na final da Série C - Reprodução/Twitter@nauticope

Para Ítalo Rodrigues, isso é um fator irrelevante, e ele usa a sua própria história para mostrar isso.

“O futebol é um jogo de xadrez. A gente vê equipes levando treinadores só pelo nome e para dirigir um elenco com perfis de jogadores montados por outro profissional. Se ele não souber jogar com as peças que têm, não vai conseguir nenhum resultado, e tem treinador que só sabe trabalhar com as peças dele", afirma.

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