Descrição de chapéu The New York Times

Mel ajuda ginastas a ter firmeza em apresentações do Mundial

Atletas usam alimento nas mãos para competir nas barras paralelas

Danielle Allentuck
Nova York | The New York Times

Sam Mikulak, hexacampeão nacional de ginástica dos Estados Unidos, sempre segue a mesma técnica antes de subir às barras paralelas. Aplica um pingo de mel em uma de suas palmas e esfrega as mãos até que elas estejam suficientemente grudentas. Em seguida, vai ao barril de giz e mergulha as duas mãos nele, cumprimenta os jurados, respira fundo e agarra as barras, pronto para começar sua série.

"É ouro", ele disse, sobre o mel.

Mikulak não está sozinho em suas preferências. Ainda que pouca gente conheça essa técnica fora de seu esporte, é grande o número de ginastas masculinos que aplicam mel nas suas mãos antes de decolar.

"Para mim, acho que é uma coisa mental", disse Donothan Bailey, que foi selecionado nove vezes para a equipe nacional de ginástica dos Estados Unidos. "Sinto que, se não passar mel nas mãos, a série vai ser péssima."

O ginasta Danell Leyva, dos Estados Unidos, carrega sua garrafa de mel na Olimpíada do Rio - Ben Stansall - 16.ago.16/AFP

No Mundial de Ginástica, em Stuttgart, na Alemanha, mais de uma dúzia de garrafas de mel podem ser vistas alinhadas ao lado das barras paralelas, prontas para uso.

"Para mim, o mel orgânico é o melhor", disse Trevor Howard, membro da equipe americana que competirá na Alemanha. "Quanto mais escuro, melhor."

"Não, não o orgânico", disse Akash Modi, outro integrante da equipe. "Na minha opinião, quanto mais açucarado, melhor."

No entanto, o mel raramente é usado pelas mulheres da ginástica, que não competem nas barras paralelas. Nas barras assimétricas, as manobras que elas executam envolvem mudanças de pegada e largar a barra ocasionalmente, e mãos grudentas não são vantagem para isso.

Em lugar disso, elas usam munhequeiras de couro. Algumas atletas, como Riley McCusker, integrante da equipe feminina de ginástica dos Estados Unidos, colocam algumas gotas de mel em garrafas de água e aspergem a mistura sobre as munhequeiras. Maggie Haney, a treinadora de McCusker, disse que a ideia lhes ocorreu quando viram equipes adversárias usando mel em competições internacionais.

"Os segredos aprendemos com outros países...", disse Haney.

Riley McCusker mistura mel na água e asperge nas munhequeiras - Jay Biggerstaff - 9.ago.19/USA Today

Mark Williams, treinador chefe da equipe masculina americana no Mundial, é uma das pessoas mais bem informadas do mundo sobre o histórico do mel na ginástica. Ele competia nas décadas de 1970 e 1980, quando a prática surgiu.

Até lá, os homens recorriam apenas ao giz nas mãos. Mas, na década de 1970, as séries se tornaram mais desafiadoras e eles precisavam encontrar uma maneira melhor de manter a pegada. Os ginastas faziam manobras na barra paralela que exigiam uma pegada firme, como o "gigante", que muitas vezes começa com o atleta posicionado de cabeça para baixo sobre uma uma barra, em parada de mão, o que é seguido por um giro sobre as barras e um retorno à posição inicial na barra oposta.

A opção pelo uso de material aderente pode ser traçada às equipes de ginástica da União Soviética, disse Williams, ainda que os soviéticos não usassem mel, que era caro e raro demais em sua terra natal. Para conseguir mais adesão, eles desenvolveram uma combinação de açúcar e água fervente.

Williams atribui a Bart Conner, ganhador de dois ouros na Olimpíada de 1984, a adaptação da ideia soviética com um jeitinho americano.

"Conner simplesmente usou Coca-Cola em lata para umedecer as mãos", disse Williams, que também é treinador da equipe masculina de ginástica da Universidade do Oklahoma. "Quando a bebida secava, o açúcar tornava as mãos grudentas."

Outros atletas tentaram amido de milho, com a marca Karo como opção mais procurada. Por volta da metade da década de 1980, a transição estava concluída: do açúcar ao amido de milho ao mel.

"Aparentemente, a consistência do mel faz com que ele se torne adesivo e depois seque; o mel nunca é escorregadio", disse Williams. "É adesivo o bastante para que os atletas tenham pegada melhor."

O ginasta Kanji Oyama prepara uma mistura própria, combinando mel e amido de milho. A substância é muito apreciada pelos seus colegas de modalidade no Centro de Treinamento Olímpico e Paralímpico dos Estados Unidos em Colorado Springs.

"Ele prepara uma combinação maravilhosa", disse Mikulak. "É uma mistura exclusiva, o especial de Kanji."
Ainda que ele não faça questão de uma mistura especial, o "especial de Kanji" é sempre a primeira escolha de Mikulak. "Quando ele tem o produto, sempre uso", disse Mikulak.

Sam Mikulak gosta do composto preparado pelo colega Kanji Oyama - Lionel Bonaventure - 7.out.19/AFP

Em competições, os atletas levam suas variedades preferidas, para que não precisem se preocupar com encontrar o mel certo em um território desconhecido.​

Há riscos. Howard certa vez cometeu o erro de carregar seu mel em uma mala de mão, e o produto foi confiscado por agentes da Administração de Segurança do Transporte (TSA, na sigla em inglês) americana. "A TSA confisca o mel se você se esquece. Você precisa se adaptar à situação", disse.

Os ginastas e treinadores limpam as barras paralelas com uma toalha antes das séries, e com isso todos começam com o aparelho limpo. Ainda que o acúmulo de resíduos de mel no equipamento possa ser problema, os treinadores dizem que o material endurece, descasca e cai com o tempo.

Mikulak diz que uma garrafa de mel dura cerca de dois meses. Além dos estoques individuais dos atletas, a Universidade do Oklahoma tem uma garrafa coletiva para a equipe. Segundo Williams, a garrafa precisa ser enchida a cada duas semanas.

No final do dia, depois de sessões longas de treinamento, disse Williams, os ginastas levam as garrafas de mel para casa e as usam em sua alimentação.

"O gosto é bom", disse Howard.

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