Microsoft acusa Rússia de ataque hacker a entidades antidoping

País corre risco de suspensão de eventos esportivos, como a Olimpíada de 2020

Nicole Perlroth Tariq Panja
Nova York | The New York Times

Hackers empregados pelo governo russo atacaram as redes de computação de pelo menos 16 organizações esportivas e antidoping nacionais e internacionais, afirmou a Microsoft na segunda-feira (28).

Os ataques foram as mais recentes em uma série de ações cibernéticas russas contra políticos estrangeiros, dirigentes esportivos e dirigentes de organizações antidoping.

Os ataques aconteceram em um momento no qual a Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês) está enfrentando as consequências do escândalo de doping russo de 2015, que ganharam vulto nos últimos meses depois que dirigentes da Wada descobriram que exames antidoping nos quais atletas russos haviam sido apanhados foram apagados de um conjunto de dados crucial.

Yury Ganus, presidente da Rusada, a Agência Antidoping da Rússia
Yury Ganus, presidente da Rusada, a Agência Antidoping da Rússia - Dimitar Dilkoff - 22.out.19/AFP

De acordo com a Microsoft, que ajuda a proteger algumas dessas organizações contra ataques cibernéticos, os ataques russos começaram em 16 de setembro, dias antes que a Wada anunciasse que a Rússia poderia enfrentar novas punições por inconsistências em seus dados sobre exames de drogas.

A Microsoft não identificou nominalmente as vítimas dos ataques cibernéticos, mas confirmou que alguns dos ataques russos foram bem sucedidos.

A companhia identificou a origem dos ataques como um notório grupo de hackers patrocinados pelo Estado russo, conhecido como Fancy Bear. Trata-se de um dos dois grupos relacionados ao governo russo que responderam pela ação de hackers contra o Comitê Nacional do Partido Democrata americano em 2016, bem como por ataques cibernéticos contra autoridades esportivas e antidoping, entre 2014 e 2018.

Os ataques resultaram no indiciamento de sete agentes de serviços de inteligência russos, em 2018, acusados de invadir computadores de dirigentes esportivos e de organizações antidoping, bem como de divulgar emails pessoais de dirigentes de organizações antidoping e históricos médicos pessoais de atletas ocidentais. Os ataques aconteceram em meio a críticas crescentes à Rússia por seu programa de doping, patrocinado pelo Estado, ativo por muito anos.

Os mais recentes ataques cibernéticos russos podem influenciar a decisão da Wada quanto a punir ou não a Rússia por possível manipulação de dados, uma das questões centrais no escândalo de doping de 2015.

A promessa da Rússia de que entregaria os dados sobre o caso teve posição central na decisão da Wada de revogar a suspensão que pendia sobre a agência antidoping russa, no final de 2018. Essa determinação pôs fim a três anos de suspensão impostos à agência depois da descoberta de um dos esquemas de trapaça mais gritantes da história, que corrompeu o resultado de diversos eventos esportivos internacionais, entre os quais diversas edições dos Jogos Olímpicos.

Como resultado do escândalo, os atletas russos foram proibidos de competir sob a bandeira de seu país na Olimpíada de Inverno de 2018, em Pyeongchang, Coreia do Sul.

Nos últimos meses, uma equipe de investigação da Wada descobriu incompatibilidades entre um conjunto de dados recebido de um denunciante em 2017 e dados submetidos pelas autoridades russas em janeiro.

Os exames antidoping em que atletas russos haviam sido apanhados tiveram seus resultados apagados do conjunto de dados russos. No mês passado, os dirigentes da Wada deram aos russos um prazo de três semanas para explicar essas discrepâncias. A Wada ainda não decidiu se aceitará as explicações russas.

Atletas russos competiram sob a bandeira do Comitê Olímpico Internacional em Pyeongchang-2018
Atletas russos competiram sob a bandeira do Comitê Olímpico Internacional em Pyeongchang-2018 - David W Cerny - 25.fev.18/Reuters

Uma porta-voz da Wada disse que estava ciente das revelações da Microsoft na segunda-feira, mas que não existiam provas de que os sistemas da agência tivessem sido violados como parte do ataque.

Travis Tygart, presidente-executivo da Agência Antidoping dos Estados Unidos (Usada, na sigla em inglês), disse que sua organização sofreu o que parece ter sido um ataque deliberado para tentativa de obtenção de senhas pelo método conhecido como “força bruta”, no começo de outubro.

“Não houve penetrações e entramos em contato com toda a nossa comunidade”, disse Tygart na segunda-feira. Ele afirmou que os ataques do Fancy Bear representam “a nova normalidade”.

Yury Ganus, presidente da agência antidoping russa, disse na segunda-feira que ele não havia sido informado de quaisquer ataques cibernéticos. Ganus declarou ao The New York Times no começo de outubro que suspeitava que as autoridades russas estivessem monitorando seus telefonemas e mensagens, depois de ele ter afirmado publicamente que milhares de mudanças haviam sido realizadas no banco de dados sobre resultados antidoping de atletas, para ocultar os casos em que estes foram apanhados nos exames.

Ganus disse que a questão dos dados é “a mais crítica desde que começou a crise do doping”.

Qualquer punição na nova investigação da Wada poderia envolver a exclusão de atletas russos de grandes eventos esportivos internacionais.

“O mundo está aguardando com muita expectativa a Olimpíada de Tóquio em 2020, e consideramos importante revelar as informações que detínhamos sobre essa nova rodada de atividades”, disse Tom Burt, vice-presidente de segurança e confiança de clientes na Microsoft, em declaração na segunda-feira.

Talvez a mais chocante entre as descobertas reveladas pela Microsoft seja o fato de que o grupo de hackers que trabalha para o Estado russo não parece embaraçado, mesmo depois de ter sido apanhado repetidamente ao cometer irregularidades.

O grupo já foi identificado como tendo agido contra diversas organizações. Diversos integrantes foram indiciados. A Microsoft chegou a recorrer à Justiça para assumir o controle de domínios de web criados para atrair pessoas e expô-las às ações nocivas do grupo.

Mesmo assim, o Fancy Bear continua seus ataques sem se abalar, agindo contra forças que percebe como hostis à Rússia ou contra aqueles que trabalham para expor a manipulação russa de exames antidoping.

Dirigentes dos serviços de inteligência dos Estados Unidos estudaram os repetidos ataques a alvos relacionados ao doping cuidadosamente, tentando extrair lições antes da eleição presidencial de 2020 —um assunto que cativa os russos tanto quanto os hábitos de seus adversários no esporte.

No mais recente caso, a Microsoft disse que os hackers russos atacaram alvos por meio de uma combinação de emails nocivos, falsos personagens, senhas roubadas e “malware”. Além dos métodos usuais, a Rússia enviou espiões ao Rio de Janeiro, na Olimpíada de 2016, e para Lausanne, Suíça –a sede do movimento olímpico internacional, onde eles usaram as mesmas redes wifi empregadas pelas autoridades antidoping que estavam investigando as acusações sobre doping russo.

A Microsoft disse na segunda-feira que havia alertado todos os seus clientes que foram alvos de ataque e que estava trabalhando com aqueles que solicitaram ajuda para proteger sistemas e contas comprometidos.

Entenda o escândalo de doping russo

Como começou o escândalo?
O canal alemão ARD exibiu em dezembro de 2014 um documentário em que denunciava um esquema de doping na Rússia com depoimentos de um ex-funcionário da agência antidoping russa (Rusada) e de uma atleta. Depois disso, a Wada (Agência Mundial Antidoping) iniciou uma investigação e encontrou uma série de irregularidades que indicavam que casos de doping foram ocultados pelas autoridades do país com a conivência da Rusada

Quais foram as principais punições aplicadas?
A Rusada eolaboratório russo antidoping foram descredenciados pela Wada. Dirigentes e treinadores
envolvidos no caso foram banidos do esporte e 111 foram impedidos de competir nos Jogos Olímpicos de 2016 devido ao escândalo. Após revisão dos testes realizados nos Jogos de Pequim-2008 e Londres-2012, 109 medalhas foram cassadas, sendo 41 de atletas russos. O Comitê Olímpico Russo foi suspenso pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) no fim de 2017 eopaís não pôde ser representado nos Jogos de Inverno de 2018

Qual é a situação atual?
Em setembro de 2018 a suspensão da Rusada foi revogada pela Wada sob a condição de que a
agência tivesse acesso ao laboratório antidoping de Moscou. O país, porém, não respeitou a data limite de 31 de dezembro daquele ano para entregar dados do seu laboratório. Em fevereiro, a agência finalmente
conseguiu acesso ao local e obteve dados de 2.262 amostras de doping. No entanto, a Wada descobriu
que algumas dessas amostras foram manipuladas e alteradas, levantando novas suspeitas sobre a Rusada e abrindo caminho para uma nova punição à Rússia nos Jogos de Tóquio-2020

Tradução de Paulo Migliacci

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