Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Presidente da Nike foi informado por técnico sobre esforços de doping

Relatórios de agência antidoping detalham conhecimento de Mark Parker

Sara Germano Joshua Robinson
Nova York | The Wall Street Journal

Emails citados em relatórios da agência antidoping dos Estados Unidos (Usada, na sigla em inglês) mostram que o presidente-executivo da Nike, Mark Parker, foi informado sobre experimentos para manipular o uso de substâncias de melhora de desempenho por atletas de pista.

Pelo que exibem as mensagens, o treinador Alberto Salazar, patrocinado pela Nike, falou com diversos executivos importantes da companhia —entre os quais Parker— a respeito desses experimentos.

Os relatórios, preparados pela Associação Americana de Arbitragem para a Usada, resultaram em suspensões de quatro anos para Salazar e para um médico patrocinado pela Nike, Jeffrey Brown. Eles mostram que Parker estava informado sobre o trabalho corrente de Salazar e Brown, descrito pela Usada como "orquestrar e facilitar conduta proibida relacionada a doping".

Os documentos também afirmam que pelo menos um dos experimentos da dupla —para determinar se a aplicação tópica de testosterona em forma de creme seria registrada em um teste de doping— foi conduzido em um laboratório na própria sede da Nike.

Mark Parker, presidente da Nike, diz que "jamais aceitaria trapaças" - Daniel Marenco - 9.dez.13/Folhapress

​Parker foi copiado em diversos emails de Salazar e Brown que detalhavam as pesquisas correntes dos dois a fim de identificar benefícios de melhora de desempenho para um grupo de atletas do Oregon. Eles integravam o muito premiado Projeto Nike Oregon, uma equipe de corredores de elite baseada no quartel-general da companhia em Beaverton, no estado americano de Oregon.

Em uma troca de emails em julho de 2009, Brown escreveu a Parker para informar o presidente da Nike sobre o experimento com a testosterona, informando-o de que havia testado quantidades variáveis de cremes hormonais nos filhos adultos de Salazar, que não são atletas profissionais.

"Examinamos os níveis com o teste mais comumente usado, ao menos do atletismo, para determinar o nível urinário de T/E (testosterona/epitestosterona), depois de uma bombada (1,25 grama) e duas bombadas (2,5 gramas) de Androgel", escreveu Brown, de acordo com o relatório sobre a punição aplicada a ele, fazendo referência à marca de creme de testosterona usada.

"Constatamos que, mesmo que tenha acontecido uma ligeira alta no nível de T/E, o resultado ficou abaixo de quatro, que é o ponto que geraria maiores preocupações", acrescentou.

Parker respondeu: "Jeff, obrigado pela atualização sobre os testes. Será interessante determinar o nível mínimo de hormônio masculino tópico requerido para gerar um resultado positivo no exame [antidoping]. Há outros hormônios tópicos que poderiam criar resultados mais dramáticos ou outras substâncias que poderiam acelerar seu ritmo de absorção pelo corpo?".

A testosterona é uma substância banida pela Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês), cujas regras foram adotadas pela Usada, pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e por diversas outras organizações esportivas nacionais e internacionais.

De acordo com os relatórios, Salazar afirmou ter desenvolvido o experimento com testosterona por ter imaginado que seus atletas poderiam ser vítimas de sabotagem por parte de competidores.

Em depoimento, o fundista americano Galen Rupp disse ter sentido a aproximação de um preparador físico, em uma prova atlética de maio de 2009. Segundo ele, a pessoa "esfregou algo úmido" em suas costas.

Galen Rupp (ao centro) diz que um preparador físico esfregou algo úmido em suas costas - Adrian Dennis - 21.ago.16/AFP

A Usada argumentou que "esse mesmo experimento pode ser usado para fins nefários, como escapar ao controle antidoping, com a mesma facilidade com que poderia ser usado para seu suposto fim profilático de determinar a probabilidade de sucesso de uma tentativa de sabotagem".

Em uma troca de informações separada, em 2011, Salazar informou diretamente a Parker, bem como a Tom Clarke, presidente de inovação avançada da Nike, e ao ex-ciclista Lance Armstrong, caído em desgraça, sobre os resultados de outra experiência com um suplemento chamado L-carnitine, que supostamente melhoraria o desempenho aeróbico.

O L-carnitine é um composto químico que, embora não seja proibido, está sujeito a regras da Wada quanto aos métodos pelos quais pode ser ministrado, e em que quantidades. Não ficou claro se Parker ou Clarke respondeu à mensagem.

Ao mesmo tempo, Armstrong, que havia se aposentado do ciclismo sob muitas suspeitas, continuava a treinar entre atletas de elite para o triatlo, com patrocínio da Nike e assessoria de Salazar. Armstrong foi banido pela Usada em 2012 e admitiu publicamente que se dopava em 2013.

Em um email de dezembro de 2011, afirma um dos relatórios, Salazar escreveu diretamente a Armstrong: "Lance, me ligue o mais rápido que puder! Testamos, e o resultado foi impressionante!".

O treinador prosseguiu: "É incrível. Tudo completamente legal e natural. Se usar isso, você vai completar o Iron Man em 16 minutos a menos". Armstrong afirmou em um email na terça-feira que jamais testou ou tentou usar L-carnitine.

"Na época, Alberto estava preocupado com a possibilidade de que corredores da Nike fossem sabotados por alguém que lhes aplicasse creme de testosterona", disse um porta-voz da Nike na terça-feira.

"Mark ficou chocado com essa possibilidade e, dada sua paixão pelas corridas, Brown e Alberto o informaram sobre suas descobertas. Mark Parker não tinha razão para acreditar que o teste estivesse acontecendo fora das regras, porque havia um médico envolvido. Além disso, no entendimento de Mark, Salazar estava tentando impedir que seus atletas fossem dopados", acrescentou o porta-voz.

Ainda na terça-feira, Parker enviou um email aos empregados da Nike no qual descrevia os relatos noticiosos sobre o acontecido como "altamente enganosos" e destacava seu apoio a Salazar.

"Quero que vocês saibam que, quando lhes peço que Façam a Coisa Certa, estou respeitando a mesma regra. Eu jamais aceitaria trapaças de qualquer espécie, no esporte ou em qualquer outro campo, e espero que vocês tampouco o façam", escreveu.

Parker afirmou ainda que, "quanto a Alberto, o momento é claramente difícil para ele, sua família e seus atletas". "Creio que seja importante que vocês saibam que estudamos essas acusações e não constatamos que ele tivesse violado quaisquer regras", disse.

Em declaração divulgada na noite de segunda-feira, Salazar se disse "chocado" com a suspensão e prometeu recorrer. "Sempre garanti que o código [da Wada] fosse seguido rigorosamente. O projeto Oregon nunca permitiu e nunca permitirá doping", ele disse.

Uma recepcionista no consultório de Brown, em Houston, disse que ele não estava disponível de imediato, na manhã da terça-feira. O endocrinologista deixou de ser consultor da Nike em 2013, de acordo com os relatórios.

O Projeto Nike Oregon de Salazar resultou em seis medalhas olímpicas, para os fundistas Mo Farah, do Reino Unido, e Rupp, dos Estados Unidos. A decisão de suspender Salazar e Brown é a sanção mais séria da Usada desde que excluiu Armstrong do esporte permanentemente, em 2012.

Um porta-voz de Farah e Rupp não respondeu de imediato a um pedido de comentário, na terça-feira.

As sanções foram anunciadas no auge da mais importante competição do atletismo fora dos Jogos Olímpicos. O Mundial, bienal, ocorre nesta semana em Doha, no Qatar, e tem ao menos sete atletas afiliados ao projeto Nike Oregon.

Horas depois do anúncio das medidas, a credencial de Salazar para entrar no estádio foi cancelada, de acordo com a organização que comanda o atletismo mundial.

Salazar, ele mesmo um antigo atleta de elite e vencedor das maratonas de Nova York e Boston, é grande amigo de Phil Knight, cofundador da Nike. Os dois foram parte do programa de atletismo da Universidade do Oregon. Salazar é tão querido na Nike que um dos edifícios no complexo que sedia a empresa em Beaverton leva seu nome.

Tradução de Paulo Migliacci

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