Pressionado por TV, Japão fará Olimpíada mais quente da história

Em 1964, calor levou organização a transferir os Jogos no país para outubro

John Branch Motoko Rich
Tóquio | The New York Times

Os verões do Japão são conhecidos pela mistura opressiva e às vezes letal de calor e umidade. No final de julho e começo de agosto dos dois últimos anos, mais de mil pessoas, entre as quais mais de 150 em Tóquio, morreram por causas relacionadas ao calor. Dezenas de milhares terminaram hospitalizadas.

Foi esse tipo de calor que levou os organizadores da Olimpíada de Tóquio em 1964 a transferir os Jogos para outubro. A Olimpíada começou no dia 10 de outubro, 55 anos atrás.

No ano que vem, quando a Olimpíada retornará à capital japonesa, a abertura acontecerá em 24 de julho e o encerramento em 9 de agosto. Não seria necessária uma onda de calor incomum para fazer dos Jogos a Olimpíada mais quente da história, colocando em risco atletas, espectadores, trabalhadores e voluntários.

Mas ao escolher Tóquio como sede da Olimpíada, em 2013, o Comitê Olímpico Internacional (COI) mal levou o clima em consideração.

Por que era tão importante realizar os Jogos no momento mais quente do verão?

"O principal fator é a televisão dos Estados Unidos", disse Dick Pound, membro veterano do COI e antigo presidente de sua comissão de negociações televisivas.

Thomas Bach
Jogadora de hóquei da Índia recorre ao ventilador para amenizar o calor durante uma partida em agosto deste ano em Tóquio. - Chang W. Lee/NYT

Oficialmente, o calendário olímpico é ditado pelo COI. Mas porque quase três quartos da receita do COI vêm dos direitos televisivos, e cerca de metade desses direitos são pagos pela rede de TV americana NBC, o calendário dos esportes dos Estados Unidos tende a ter efeito desproporcional sobre a definição das datas olímpicas.

O beisebol e o futebol americano dominam as telas dos televisores americanos em setembro e outubro. Julho e agosto, por outro lado, são relativamente vazios.

A última vez que os Jogos Olímpicos de verão aconteceram fora do período julho-agosto foi em 2000, quando a Olimpíada de Sydney aconteceu no final de setembro. E essa foi a Olimpíada menos assistida nos Estados Unidos em diversas décadas.

Desde então, o COI vem informando às cidades candidatas que os Jogos devem ser realizados entre 15 de julho e 31 de agosto, a não ser em caso de "circunstâncias excepcionais".

O comitê oferece explicações disparatadas para essa janela estreita, entre as quais o desejo de alinhar os Jogos aos calendários das diversas federações esportivas e atrair atletas como os jogadores da NBA, no intervalo entre suas temporadas.

"É simplesmente a questão de não termos evento esportivos conflitantes", disse Thomas Bach, o presidente do COI, em entrevista ao The New York Times.

Mas as pessoas conhecedoras do cenário olímpico sabem da importância da televisão nas decisões olímpicas.

A televisão "é provavelmente a variável de maior peso no mundo comercial atual", disse Terrence Burns, consultor que ajudou cinco cidades a conquistar a posição de sedes olímpicas.

A última candidata séria a propor datas alternativas para os Jogos foi Doha, que disputou o direito de sediar a Olimpíada de 2020 e sugeriu o mês de outubro, como forma de evitar as temperaturas excepcionais do Qatar no verão.

Um comitê de trabalho do COI que examinou as propostas de cinco cidades candidatas deu ótimas notas a Doha em quase todas as áreas, mas destacou a questão da data como problema. O COI concluiu que "o impacto sobre as transmissões e sobre a experiência olímpica geral do espectador/telespectador, tal como delineado acima, seria considerável e poderia ter efeito de longo prazo".

Doha logo saiu da disputa. As autoridades do Qatar culparam a televisão americana.

Tóquio preferiu não arriscar, oferecendo datas que se enquadram aos parâmetros do COI. Sua proposta minimizava quaisquer preocupações com o calor.

"Com muitos dias de tempo ameno e ensolarado, o período oferece o clima ideal para que os atletas apresentem seu melhor desempenho", a proposta afirmava.

Funcionários aplicam material de pavimentação especial para amenizar o calor durante maratona - Chang W. Lee/NYT

O COI concluiu que "as condições meteorológicas no período proposto para os Jogos seriam razoáveis".
Richard Peterkin, membro do COI entre 2009 e 2018, disse que "em todas as apresentações e propostas que eu vi, a questão do calor jamais foi mencionada".

Os organizadores da Olimpíada de Tóquio estão investindo milhões de dólares para tornar os Jogos do ano que vem seguros e confortáveis para os atletas, torcedores, trabalhadores e voluntários.

As ideias variam de sensatas a absurdas, e todas têm seu custo, seja em ienes, seja em dignidade, seja nas duas coisas.

Barracas serão montadas no percurso entre as estações de metrô e os locais das disputas, equipadas com cadeiras e umidificadores de ar. Nas provas realizadas a descoberto, os organizadores dizem que distribuirão pequenos leques, chapéus de papel e sacos de gelo.

Os torcedores poderão ser autorizados a entrar nos locais de Jogos levando bebidas; 30 desses locais são descobertos, e a maioria deles não oferece sombra alguma.

A pista de 42.195 metros da maratona está recebendo um novo calçamento, feito com um material chamado Perfect Cool, que usa pequenas contas de cerâmica cujo objetivo é refletir o calor.

Pesquisadores questionam se alguma dessas medidas trará muito alívio. A mudança da pavimentação, por exemplo, poderia reduzir a temperatura de superfície em até 10 graus em dias de sol intenso, mas uma análise do governo demonstrou que não existe efeito refrigerante na altura das cabeças dos atletas.

Não existem planos para usar esse tipo de superfície em qualquer outra instalação olímpica, por exemplo as praças criadas como locais de reunião dos espectadores, ou os espaços nos quais eles esperarão em filas.

Algumas das provas ao ar livre, como a maratona, terão sua largada ao nascer do dia, em uma tentativa de escapar ao pior do calor e da umidade. Estratégia semelhante foi empregada no recente mundial de atletismo de Doha, mas 40% das participantes da maratona feminina, cuja largada aconteceu à meia-noite, sob um calor sufocante, ainda assim abandonaram a prova.

O calendário olímpico de 16 dias tem algumas brechas para o caso de provas terem de mudar de data em função do calor —ou do vento e chuva causados por tufões, uma das preocupações secundárias dos planejadores.

Público aproveita tenda de resfriamento durante torneio de hóquei em agosto deste ano. - Chang W. Lee/NYT

Os eventos de teste realizados no verão deste ano ofereceram uma amostra sobre os possíveis efeitos. Em um triatlo disputado em agosto, a prova de corrida feminina foi reduzida à metade da distância porque o calor estava perigoso. Atletas foram tratados por problemas relacionados ao calor no vôlei de praia e no remo, igualmente.

As preocupações vão além dos atletas e também giram em torno dos milhões de torcedores, muitos dos quais desacostumados aos verões de Tóquio, e dos milhares de voluntários —dos quais cerca de um terço deve ter idade superior aos 50 anos, de acordo com os organizadores— e outros membros da equipe organizadora. No verão deste ano, um operário de construção de 50 anos de idade foi encontrado desacordado perto da central de mídia dos Jogos. Sua morte foi atribuída a uma insolação.

Descobrir quanto dinheiro os organizadores dos Jogos de Tóquio vão gastar para tentar reduzir a temperatura de uma disputa realizada em pleno verão, de preferência a realizá-la na primavera ou outono, é difícil por conta das diferentes jurisdições envolvidas. Mas o governo metropolitano de Tóquio disse que está gastando cerca de dois bilhões de ienes (US$ 18,7 milhões) para instalar barracas para espectadores e outras medidas de refrigeração.

Tudo isso poderia ter sido evitado se Tóquio tivesse proposto, e sido autorizada, a realizar a Olimpíada de 2020 em um mês como outubro. A previsão do tempo para a quinta-feira era de céus azuis e temperatura de 25 graus, ainda que haja uma ameaça de tufão de final de estação. A Cidade do México, em 1968, e Seul, em 1988, realizaram Olimpíadas em outubro.

Depois vieram os Jogos de Sydney e sua audiência televisiva relativamente baixa. As Olimpíadas seguintes foram todas realizadas entre 15 de julho e 31 de agosto, e o mesmo acontecerá nos Jogos de Paris, em 2024, e Los Angeles, em 2028.

"Por conta da mudança no clima, podemos ter de reconsiderar todo o calendário e decidir se deve haver mudança", disse Bach.

Para o COI, uma mudança como essa afetaria futuras negociações televisivas. Em 2014, a NBC fechou um contrato no valor de US$ 7,75 bilhões para garantir os direitos de transmissão das Olimpíadas de verão e de inverno entre 2022 e 2032. Três anos antes, a rede havia desembolsado US$ 4,38 bilhões para transmitir os quatro Jogos Olímpicos realizados entre 2014 e 2020.

Ninguém mais oferece receitas dessa ordem ao COI. Os valores pagos pela rede americana são cerca de duas vezes superiores aos dos direitos televisivos europeus e três vezes superiores aos dos direitos asiáticos.

Tradução de Paulo Migliacci

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